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Catroga. “Liderar o Eurogrupo é ter informação privilegiada”

Eduardo Catroga, ex-ministro das Finanças
Eduardo Catroga, ex-ministro das Finanças

"Centeno é a pessoa que vai ou pode coordenar este esforço, maximizando a capacidade de decisão e de concretização do Eurogrupo", diz Eduardo Catroga.

Eduardo Catroga, ex-ministro das Finanças de um governo do PSD, a pessoa que com Teixeira dos Santos (governo do PS) tentou, sem sucesso, um plano B de ajustamento antes do resgate da troika (em 2011), fala sobre as implicações para o país e a Europa de Mário Centeno subir a presidente do Eurogrupo. Entrevista ao economista, atualmente presidente do conselho geral (chairman) da EDP.

Portugal a liderar o Eurogrupo: que implicações traz?

Portugal ter a presidência do Eurogrupo é algo de muito prestigiante e é a demonstração de que o País soube fazer o programa de ajustamento após a pré-bancarrota de 2011. Este ajustamento começou com o governo anterior e continuou com este, que procurou sempre, também, cumprir as metas orçamentais acordadas com os nossos parceiros.

Acabou por ser um trabalho, um ajustamento, do PSD-CDS e do PS?

Vamos lá ver. Do período da troika ao atual período do governo de António Costa e de Mário Centeno, Portugal conseguiu criar condições para recuperar a credibilidade externa que tinha perdido em 2011. Foi um processo doloroso, longo, recorde-se que em 2011 iniciou-se um processo de ajustamento orçamental em que o défice público estava na casa dos 11% do PIB.

O governo de Costa e Centeno continuou esse trabalho?

O atual governo dito da geringonça herdou um défice já próximo dos 3% e conseguiu em termos nominais continuar o processo de consolidação orçamental, embora a meu ver ainda não tenha conseguido fazer consolidação em termos estruturais.

As metas alcançadas por Costa e Centeno surpreenderam?

De certa forma porque isto acontece ao contrário de muitas previsões que vieram à tona na altura. Tendo em conta os resultados alcançados, os parceiros comunitários, designadamente os da zona euro, reconheceram este esforço português que, sublinho, foi prolongado. Mário Centeno foi com isto consolidando a sua imagem.

Pelas suas palavras, ter Centeno no Eurogrupo é bom.

Neste novo contexto, sim, é bom para Portugal que o nosso ministro das Finanças esteja à frente na execução desta política definida pelo Pacto de Estabilidade.

Pode dar-nos exemplos concretos do que ele pode fazer?

Significa que no quadro do funcionamento da zona euro, o presidente do Eurogrupo tem um papel importante na definição da agenda e, acima de tudo, na criação de condições, em conjunto com os restantes parceiros, para se fazer a reforma da zona euro. É bom estar à mesa das negociações e é bom ser líder deste grupo porque com isso tem informação privilegiada, um conhecimento direto e mais profundo das várias sensibilidades repartidas hoje por 19 países. Portanto neste quadro em que é crucial criar soluções duradouras e eficientes para a zona euro, Centeno está na posição de poder conseguir fazer vingar até alguns pontos de vista que são melhores para Portugal.

Portugal fica com responsabilidades acrescidas na execução orçamental e no cumprimento do Pacto de Estabilidade?

Considero que quando se aceita uma missão destas é porque se interiorizou completamente que é para cumprir os objetivos no quadro europeu. No fundo, significa que os compromissos que o País tem e terá no futuro são sempre para respeitar, tenha a liderança do Eurogrupo ou não. Ou seja, respondendo à sua pergunta, penso que ser presidente do Eurogrupo não traz responsabilidades acrescidas, é antes a assunção completa de que tem responsabilidades claras e muitas.

Centeno e o Eurogrupo vão ter ou já têm uma agenda definida, ou um esboço? Para si qual é?

Chefiar o Eurogrupo traz a necessidade de demonstrar que vai desenvolver todos os esforços para contribuir que a zona euro seja mais eficiente. A zona euro precisa de reformas, de completar a união bancária, de criar um fundo monetário europeu, substituindo o ESM [sigla inglesa para Mecanismo Europeu de Estabilidade]. Isto implica encontrar vias que, sem prejuízo da disciplina financeira, permitam reduzir o risco financeiro dos países, evitando a confusão e os impactos da crise do passado recente. Espero que, uma vez resolvido o problema político alemão, e no seguimento das propostas do Presidente francês, Emmanuel Macron, haja um ímpeto reformista que vise criar condições para um funcionamento mais eficiente da zona euro em que cada membro do clube tem responsabilidades muito claras para cumprir neste conjunto que é acima de tudo solidário. Centeno é a pessoa que vai ou pode coordenar este esforço, maximizando a capacidade de decisão e de concretização do Eurogrupo, espero.

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