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Centeno no Eurogrupo. Domar os poderosos do euro com dívida de 126% às costas

Mário Centeno e Jeroen Dijsselbloem. Fotografia: EPA/STEPHANIE LECOCQ
Mário Centeno e Jeroen Dijsselbloem. Fotografia: EPA/STEPHANIE LECOCQ

"Não é inocente" que Mário Centeno receba a liderança do clube do euro em França. Puxa Paris para sul, fica-se mais longe de Berlim.

Mário Centeno, o ministro das Finanças português, ganha hoje um chapéu novo: o de presidente do Eurogrupo, o conselho informal que agrega os 19 ministros da zona euro com a tutela das contas públicas. Centeno recebe o testemunho em Paris, a capital do novo e grande aliado de Portugal para a maior reforma que está por vir. A da zona euro.

Claro que um chapéu só é pouco. O cargo significa ou implica coisas muito mais importantes, profundas, observaram vários ex-ministros das Finanças, em conversa com o Dinheiro Vivo.

Ser presidente do Eurogrupo, o que acontecerá às 11h de hoje, é um prémio por o país ter saído dos défices excessivos. É ainda um galardão para o próprio Centeno, o “Ronaldo do Ecofin”, como lhe chamou o ex-ministro das Finanças da Alemanha, Wolfgang Schäuble, de direita.

O “economista apaixonado” (porque está sempre muito empenhado nos debates), como diz Klaus Regling, alemão também, de centro-esquerda, e chefe do maior credor da República Portugal, o Mecanismo Europeu de Estabilidade (tem a haver mais de 26 mil milhões de euros em empréstimos).

Um prémio, mas não só

Chefiar o Eurogrupo é um prémio para os portugueses que durante os últimos anos foram os “bons alunos”, mas traz responsabilidades acrescidas. Centeno tem o perfil certo para “mudar as posições da eurocracia”, conceitos algo injustos, polémicos ou deslocados da realidade, como são o produto potencial e ajustamento estrutural, diz Miguel Cadilhe (ministro de um governo PSD).

“É uma pessoa muito bem preparada neste domínio, julgo que poderá trazer um avanço intelectual à construção europeia”, elogia o professor da Universidade do Porto.

Centeno tem ainda as condições para gerir as muitas e peculiares sensibilidades que povoam a zona euro e a mesa do Eurogrupo, “Vem de um país do sul e pobre”, refere António Bagão Félix.

“Dá-me esperança que daí possa resultar um maior equilíbrio entre as naturais divergências e tensões que existem entre os países mais ricos e os outros, entre o norte e o sul”, acrescenta este antigo ministro das Finanças de um governo de coligação PSD-CDS.

Maior exigência aos portugueses

Mas o exemplo vem de cima e o ministro português vai estar obrigado a mostrar que merece ser o líder do Eurogrupo. Vai tentar reformar o Pacto, tornando-o mais justo, mas em Portugal tem às costas uma dívida pública de 126% do produto interno bruto (PIB), a terceira maior da zona euro.

Chefiar o Eurogrupo é “ser capaz de gerir e de resistir a pressões internas” de certos “grupos sociais” que querem repor “salários e regalias”, de “manter os resultados alcançados e consolidar este quadro de crescimento com maior estabilidade orçamental, de défices mais reduzidos e uma trajetória de redução da dívida que é fundamental para o país”, acrescenta Fernando Teixeira dos Santos, ministro em dois governos do PS.

“Ter Centeno neste novo lugar vai fazer bem às nossas finanças públicas. Penso que terá de ser ainda mais exigente e rigoroso, de procurar mais verdade orçamental”, junta Cadilhe.

“Por mais indignação que sinta pela má governação do meu país, tenho empatia com ministros das finanças nacionais e estrangeiros”, começa por dizer Jorge Braga de Macedo (PSD). No entanto, parece ter pouca esperança que Portugal mantenha ímpeto reformista e rédea curta na despesa, como que antecipando eventuais flexibilizações das regras a partir de Bruxelas.

“Será Centeno capturado pela burocracia bruxelense fugindo da diferencialidade [um país que se diferencia pelas melhores práticas e políticas] como o diabo da cruz? Pode não ter tempo de fugir”, escreve o professor de economia da Nova.

Eduardo Catroga (PSD), que fez uma parceria com Teixeira dos Santos para evitar o resgate de 2011 (sem sucesso, como se sabe), é mais benigno na visão que tem de Centeno. “Estou à espera de um ímpeto reformista que vise criar condições para um funcionamento mais eficiente da zona euro”. “Centeno é a pessoa que vai coordenar este esforço, maximizando a capacidade de decisão e de concretização do Eurogrupo, espero.”

Primeiro Paris, depois Berlim

A cerimónia de “passagem de testemunho” da presidência do Eurogrupo acontece hoje. Centeno reuniu ontem com o Presidente francês, Emmanuel Macron, e o primeiro-ministro, Édouard Philippe. Numa situação atípica, Jeroen Dijsselbloem, o presidente cessante do Eurogrupo (holandês), aceitou ir ao encontro do português, em Paris, para lhe passar a pasta. Foi uma forma de poupar deslocações adicionais a Centeno, disse fonte das Finanças.

Já empossado como líder do Eurogrupo, Centeno reúne à tarde com o homólogo francês, Bruno Le Maire.

Estes contactos com altos dirigentes franceses têm como objetivo acertar posições sobre os passos a dar da reforma da zona euro. A ideia é articular com os países maiores, os fundadores da Europa, as ideias para a “reforma da zona euro”. Depois de França, o destino óbvio. Na semana que vem, Centeno vai a Berlim, Alemanha, tratar desses mesmos assuntos.

Os cinco desafios de Centeno

Duplo cargo. Conciliar a presidência do Eurogrupo com o cargo de ministro das Finanças português é um dos grandes desafios; as contas públicas portuguesas ficarão ainda mais sob os holofotes das críticas.

Mais reformas. Em cima da mesa estão as propostas da Comissão Europeia para reformar a zona euro, uma das quais prevê a criação do superministro das Finanças europeu. Um Fundo Monetário Europeu é outra das ideias em debate.

União bancária. Há duas medidas essenciais que terão de ser aprovadas até ao final de 2019: um fundo de resolução único e uma garantia de depósitos comum.

Grécia. O terceiro programa de ajustamento económico da Grécia deverá terminar em agosto de 2018. Há que preparar o pós e ainda avaliar um eventual alívio da dívida de Atenas.

Brexit. Centeno terá de preparar o próximo quadro financeiro, já sem os britânicos, que deverão sair em 2019. “Buraco” nas contas da UE poderá chegar a 15 mil milhões de euros.

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