Visita de Xi Jinping

China. Depois de aquisições, Portugal quer investimento produtivo

Lisboa, 03/12/2018 -  Pedro Siza Vieira foi um dos oradores no encontro "Portugal-China, uma relação com futuro", organizado pela Global Media Group.
(Diana Quintela/ Global Imagens)
Lisboa, 03/12/2018 - Pedro Siza Vieira foi um dos oradores no encontro "Portugal-China, uma relação com futuro", organizado pela Global Media Group. (Diana Quintela/ Global Imagens)

Chineses têm apostado no capital de grandes empresas, que ganharam “músculo” financeiro. Agora é tempo de a China se tornar um “investidor produtivo”.

O governo quer que a China deixe de comprar apenas participações de capital em grandes empresas portuguesas – como a EDP, REN, Fidelidade, Millennium bcp, entre outras – e se transforme num “investidor produtivo” no país. Nesta semana, na conferência Road to China, que contou com o apoio institucional da AICEP, na véspera da visita do presidente chinês Xi Jinping a Portugal, o ministro adjunto e da Economia, Pedro Siza Vieira, defendeu que a China deveria passar de mero investidor financeiro em Portugal a “investidor produtivo” em áreas-chave como os setores automóvel e da mobilidade elétrica. Na mira estão também investimentos chineses nos portos portugueses e na ferrovia.

“Já neste século, foram significativas as aquisições de participações de empresas e ativos por parte de vários setores chineses, no setor financeiro, energético, da comunicação social, industrial. Temos visto um importante investimento chinês”, disse o ministro. No entanto, está na hora de “elevar a relação económica para outro plano”. A nível comercial, a China não é o parceiro mais relevante: “é o nosso 13.º cliente e o sexto fornecedor de bens. A balança comercial tem vindo no entanto a crescer”, sublinhou.

Por isso, o ministro quer ver crescer as exportações portuguesas para a China, sobretudo na moda, bens de consumo e agroalimentar. Já no Turismo, Siza Vieira vê com bons olhos a quantidade de turistas chineses que já visitam Portugal, mas quer ver este número crescer ainda mais.

Do lado chinês, o embaixador da República Popular da China em Portugal, Cai Run, confirmou a assinatura de um entendimento entre os dois países no quadro da iniciativa Faixa e Rota, para a construção de infraestruturas em corredores de logística comercial. O interesse passa por atrair a China para os portos portugueses de águas profundas: Sines e Praia da Vitória, nos Açores, são vistos como infraestruturas com capacidade de atração de empresas chinesas.

Sobre o investimento “produtivo” pedido pelo governo, Luís Castro Henriques, presidente da AICEP, garante que já se nota uma evolução no investimento direto chinês em Portugal – hoje acima de nove mil milhões de euros – com novas unidades de negócio de raiz e não apenas aquisições de participações de empresas portuguesas. “Vemos já empresas privadas mais pequenas a entrarem em Portugal, a fazerem os seus negócios, e a usarem Portugal como porta de entrada na Europa”, afirmou. Portugal pretende sobretudo captar maior investimento, não só na área das tecnologias e serviços mas também para o setor agroindustrial e, sobretudo, para o setor automóvel. A AICEP tem mesmo em curso uma campanha para atrair um fabricante chinês, e várias delegações empresariais representando alguns dos maiores produtores de veículos elétricos têm vindo visitar Portugal a convite da Embaixada da República Popular da China.

Aproveitando a proximidade com Chris Lu, presidente da Huawei Portugal, no mesmo painel de debate, desafiou o empresário chinês a realizar um maior investimento no país. E assim será, respondeu Lu. “Vamos pôr mais investimento e recursos para que juntos possamos ter mais desenvolvimento e cooperação”, afirmou o executivo da Huawei em resposta ao repto, lembrando alguns dos projetos conduzidos com empresas portuguesas, como a EDP, NOS e Volkswagen Portugal. A Huawei Portugal revelou também ao Dinheiro Vivo que vai associar-se à Altice num projeto conjunto de desenvolvimento de tecnologia para a quinta geração de comunicações. O acordo foi assinado durante a visita do presidente chinês a Portugal.

Mais cerveja lusa na China

No debate sob o mote “Duas nações, um caminho: crescimento”, com a moderação de Rosália Amorim, diretora do Dinheiro Vivo, Castro Henriques também destacou a necessidade de aumentar o consumo chinês de produtos externos. Para isso, garante, é importante conhecer o mercado e desenvolver produtos para os consumidores chineses. Foi precisamente o que fez a Super Bock, que exporta para o país desde 2009. Com a Super Bock Gold, a empresa procurou vender o seu produto num segmento premium, num mercado que é inovador e onde é importante ir ao encontro dos gostos locais. A Super Bock está em 50 cidades em duas províncias, e quer duplicar agora a sua presença para cem. “É o equivalente a uma população muito maior do que Portugal”, salientou Manuel Violas, presidente do conselho de administração do Super Bock Group. Com o alargamento da distribuição, a Super Bock espera aumentar ainda mais as vendas ao país.

Na calha para 2019, garante, está o estudo e desenvolvimento de novos produtos da marca para o mercado chinês. “De certeza que conseguiremos desenvolver uma cerveja artesanal ao gosto dos chineses”, apontou, dando como exemplo a gama de cervejas já vendida em Portugal – 1927. O grupo Super Bock admite que gostaria de ver barreiras alfandegárias mais baixas à entrada no mercado chinês, mas pretende continuar a vender cerveja ao país que em 2017 absorveu já 40% das exportações da empresa.

Ingerência ou influência?

Apesar de o investimento direto chinês em Portugal ter vindo a ser canalizado sobretudo para a compra de participações em empresas portuguesas, Jorge Magalhães Correia, presidente da Fidelidade, defendeu que tal não significa um menor investimento no país e nos negócios adquiridos. “A aquisição é uma forma de fazer também investimento a seguir”, defendeu, lembrando a compra da Luz Saúde meio ano depois da entrada do grupo Fosun. Magalhães Correia afirmou também que o investidor chinês “usa as empresas nacionais como plataformas de crescimento noutras geografias”. Um exemplo destacado foi a tentativa de nova aposta no mercado da América Latina, com a oferta pública de aquisição sobre 51% do capital da seguradora peruana La Positiva pela Fidelidade.

Como referiu o dean da Nova SBE, Daniel Traça, os investidores chineses detêm 28,25% da EDP, com a China Three Gorges (CTG) responsável por 49% da EDP Renováveis; a China State Grid tem 25% da REN; a Fosun comprou 85% da Fidelidade (e, por esta via, 96% da Luz Saúde) e 27,06% do Millennium bcp; já o Haitong comprou o BESI por 379 milhões de euros.

Miguel Maya, CEO do BCP, garantiu que ter a Fosun como acionista do banco permitiu sair de um processo de reestruturação, que foi vital para a instituição se apresentar ao mercado como o principal banco privado português. Este acionista chinês sem qualquer relação com o setor financeiro detém cerca de 30%, enquanto os acionistas angolanos têm 20%. Apesar disso, o coração do banco está em Portugal. “É o nosso mercado principal. Não somos uma filial, uma sucursal”, disse o CEO, sublinhando que com esta estrutura acionista ganham acesso a um conjunto de clientes chineses e angolanos. No caso do BCP, “a Fosun é um investidor de longo prazo, não está pela oportunidade do momento”, embora tenha beneficiado de um “preço de oportunidade”, vincou Miguel Maya.

O CEO sublinhou também o recente protocolo assinado com o grupo Alibaba, que tem o sistema Alipay, que tornará mais fácil o consumo e o pagamento a 260 mil turistas chineses que visitam Portugal todos os anos e que gastam 130 milhões no país, valor que pode aumentar 40%, se puderem utilizar os mesmos meios de pagamento do seu país.

Rodrigo Costa, presidente da comissão executiva da REN, foi o primeiro do painel a negar qualquer tipo de “ingerência” por parte dos acionistas chineses, admitindo, sim, uma saudável interferência no negócio. “Nenhum de nós morre sem a experiência do outro”, disse, admitindo que a REN é “um pequeníssimo investimento” para a State Grid. “Tem sido bom para ambos os lados”, defendeu.

“Quando a CTG entrou na EDP, os mercados estavam fechados e, por isso, foi muito importante. Trouxeram músculo direta e indiretamente a uma empresa que precisava no contexto da globalização”, referiu o CEO da EDP, António Mexia.

Dos últimos seis anos de presença da CTG na EDP – que incluem a recente OPA lançada pelos chineses à elétrica nacional, Mexia destacou a “capacidade de trabalho em conjunto”. E garantiu: “O que levou a CTG a olhar para a EDP foi o acesso da empresa a mercados estratégicos”, como os Estados Unidos ou o Brasil, mercado onde o gigante chinês começou timidamente mas depressa se tornou número um do mercado.

No caso da EDP, a entrada de capital da CTG traduziu-se numa “parceria que encarou o desafio da globalização, da revolução tecnológica fortíssima no mundo inteiro, da partilha da descarbonização e de que só podemos ser competitivos se conseguirmos antecipar essas mudanças”, observou António Mexia.

“Temos [agora] a capacidade de atrair atenção e de rapidamente antecipar os problemas”, assinalou o responsável. Falando num negócio de “win-win”, ou seja, em que ambos ganharam, o CEO salientou que “a visão de longo prazo da CTG é positiva para a companhia” e rejeitou qualquer “ingerência” da CTG na empresa, mas reconheceu que “há coisas em que também discordam” sobre, por exemplo, “a noção de tempo ou a qualidade do vinho”. Já no que diz respeito à “influência” da CTG, diz Mexia, não só existe, como é positiva.

Diplomacia entra em ação

No final da conferência, José Augusto Duarte, embaixador português em Pequim, defendeu a necessidade de Portugal adotar “firmeza” na defesa dos seus interesses nas relações com a China. “Temos de ser autênticos. Temos de ser nós próprios”, afirmou, num momento em que Portugal enfrenta críticas de outros países europeus e uma reputação de maior permeabilidade ao investimento direto chinês no quadro europeu.

Augusto Duarte defendeu, no entanto, que a grande vantagem portuguesa tem sido exatamente a capacidade de admitir capitais de Pequim em setores estratégicos da economia, não abertos por outros países. Em sentido inverso, considera o embaixador, o desafio de um maior acesso ao mercado chinês exige que as empresas nacionais estudem a concorrência e os casos de sucesso portugueses no gigante asiático.

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