Elísio Estanque

Classe média: Já não há novos-ricos, só há novos-pobres

Anos 80/90, tempos de prosperidade.
Anos 80/90, tempos de prosperidade.

Desta vez não precisamos de ler no jornal ou ver na televisão. Sabemos bem o que se está a passar porque somos nós os protagonistas. Nós, a classe média. Por experiência própria ou muito próxima, sabemos que há crianças que estão a sair do colégio privado para frequentar a escola pública. Que o almoço diário no snack bar da esquina foi substituído pela comida levada de casa. Que a carrinha alemã comprada há 10 anos a crédito fica agora parada à porta de casa, enquanto vamos trabalhar de transportes públicos. Que o condomínio é cada vez mais difícil de pagar e que as saídas para jantar foram drasticamente reduzidas, tal como as escapadas de fim de semana. E que as férias lá fora passaram a ser cá dentro.

Pior é quando deixa de se poder pagar a prestação da casa ao banco ou quando até as marcas brancas dos supermercados são demasiado caras.A economia do País não é mais do que o somatório de milhões de pequenas economias domésticas. E desta vez o abalo é suficientemente grande para que não seja intensamente sentido por toda a gente.

Da leitura de A Classe Média: Ascensão e Declínio, do sociólogo Elísio Estanque (ed. Fundação Francisco Manuel dos Santos, janeiro de 2012) há uma ideia que fica clara: o destino do País confunde-se com o destino da classe média. Foi assim com a prosperidade ilusória. É agora assim com a austeridade. Acabou o tempo dos novos-ricos. Chegou a hora dos novos-pobres. E foi tudo muito rápido.

A avaria do elevador socialSomos atores principais de tempos raros. Hoje, é generalizada a noção de que a próxima geração vai viver pior do que a nossa. Sempre assistimos ao inverso disso, sobretudo após a Segunda Guerra Mundial. Olhamos para trás e constatamos que vivemos melhor do que os nossos pais, que por sua vez já tinham vivido melhor do que os nossos avós. Com mais conforto e melhores condições de vida, mais instruídos, com carreiras profissionais mais bem remuneradas, crescentemente com acesso a mais mundo. Sabemos que isso já não está a acontecer, em muitos casos, com os nossos filhos.O que correu mal no elevador social?

A democratização do ensino, sobretudo após o fim da ditadura, foi decisiva para engrossar as fileiras da classe média. E foi um bem só por si, ao permitir uma maior igualdade de oportunidades – questão diferente é saber o que fizemos nós com tanta habilitação literária.

Elísio Estanque fala da explosão de empregados de escritório e profissionais liberais. De chefias intermédias e executantes. De professores, enfermeiros, médicos, juristas, técnicos intermédios, quadros administrativos. Muitos tornaram-se funcionários do Estado – em 20 anos (1986 a 2005), o número de empregados públicos passou de 460 mil para 750 mil, mais cerca de cem mil em empresas públicas. Outros engrossaram os quadros das empresas privadas, numa economia que fez uma transição demasiado rápida de uma sociedade agrícola (de 43,6% da população ativa em 1960 para 11,7% em 2000) para uma economia de serviços (de 27,5% para 56%), com a indústria em declínio nos últimos 30 anos.

Quem entrou no mercado de trabalho entre o final da década de 80 e o início da década seguinte sabe do que se fala. A situação de pleno emprego que se viveu durante anos deixava a muitos recém-licenciados um problema oposto do atual: que proposta de trabalho escolher entre as várias que lhe eram feitas? Banca e seguros, empresas de serviços vários, distribuição e comércio modernos, grupos económicos em recomposição, telecomunicações, energia e informática, imobiliário e construção, consultoras e escritórios de advogados, toda a gente contratava.

Os salários de entrada eram, em muitos casos e em termos nominais, superiores aos que se pagam hoje – receber 150 contos (o equivalente a 750 euros) era comum, com contrato a prazo inicial de seis meses e depois acesso direto aos quadros da empresa; compare-se isto com as condições que hoje são oferecidas à geração “quinhenteurista”.

Com um mercado empresarial em posição largamente compradora, a valorização do mérito era escassa. A evolução na carreira era rápida e bem remunerada, com seguros de saúde generosos, prémios ditos de produtividade e automóveis de serviço de marcas premium.

Mas a aposta estava a ser feita em setores protegidos, pouco ou nada expostos à concorrência externa. Em muitos casos eram monopólios ou perto disso, a viverem de rendas seguras, pagas pelo Estado ou pelos consumidores. Noutros, eram actividades protegidas por práticas corporativas, numa altura em que a regulação e a defesa da concorrência eram um exotismo de países anglo-saxónicos. Os gabinetes alcatifados e com máquina de café no corredor sempre foram mais atraentes do que o chão barulhento da fábrica.

Facilidade e fatalidadeNo setor privado, descontando o risco de um despedimento coletivo, o ambiente económico e empresarial não permitia outra ideia que não fosse a de olhar para tudo isto como níveis adquiridos e sem retorno. No Estado, nunca deixou de se olhar para o emprego como sendo para a vida. Em ambos os casos, os níveis salariais alcançados tinham-se como garantidos e os aumentos acima da inflação eram da praxe.

As políticas públicas ajudavam a construir a ideia de prosperidade consolidada. Neste sentido, pode dizer–se que a classe média foi traída pelas elites políticas e económicas. A descida dos juros e a oferta ilimitada de crédito fizeram o resto numa população com baixos níveis de lite- racia económica e financeira, pouco dada à aritmética e que não via necessidade de precaver-se para o futuro.

Elísio Estanque: “Criou-se um cenário de aparente facilidade de consumo que parece estar a ser fatal para muitas famílias da classe média.”A fatalidade já se previa há muitos anos, mas só agora se impôs verdadeiramente da forma que vemos diariamente nas notícias.

No setor público, cortam-se salários. Quem em 2010 ganhava mais de 1500 euros brutos por mês já viu, em média, o rendimento anual ser reduzido em 23% (corte médio de 5% em 2011, meio subsídio de Natal no mesmo ano e perda dos dois subsídios anuais de 2012 em diante). Para quem ganhava acima de 4000 euros brutos por mês o corte chega aos 28%. Isto sem contar com o corte implícito no corte ou abolição das deduções e benefícios fiscais, que em alguns casos podem representar um corte de 5% no salário anual.

No setor privado, o ajustamento faz-se sobretudo com o aumento do desemprego. Mas também se cortam salários e regalias, subsídios e complementos de ordenado. E o fim dos benefícios fiscais no IRS tem um impacto substancial nos rendimentos da classe média alta. O fim das rendas certas que se anuncia para alguns setores promete fazer mais mossa em muitos quadros nos vários níveis da pirâmide hierárquica. E quando as empresas espirram, há uma série de profissionais liberais e pequenos fornecedores que lhes prestam serviços ou vendem produtos que se constipam. É esta a mudança de vida de que falam os economistas.

Começar quase de novo“É certo que muitos dos que morreram na classe média não nasceram nela; mas começa a ser uma verdade indesmentível afirmar que muitos dos que por ela passaram nas últimas décadas correm o risco de assistir em vida à sua dissolução. O declínio parece estar em marcha”, escreve o sociólogo.

Um declínio da classe média, dizemos nós, que não é mais do que a falência do Estado e do País como os construímos. Foram passos maiores do que a perna e gastos que a nossa fraca produtividade nunca pagou a obrigarem a um recuo que permita o balanço para um modelo de desenvolvimento diferente. Eventualmente mais lento na marcha, mas mais sólido nos alicerces.

Elísio Estanque termina a falar da necessidade de reinventar a classe média. “Uma classe que, para estar à altura dos desafios, terá de se afirmar pela criatividade, inovação, mérito e sentido ético, mas sem esquecer o legado humanista e solidário do projeto europeu, bem como os objetivos de desenvolvimento democrático iniciados com o 25 de Abril de 1974.

“O sistema bloqueou e agora tem de ser reiniciado, no País como na vida da classe média. Não dar nada como garantido pode ser um bom início porque, na verdade, pouco ou nada temos hoje garantido.

Comentários
Outras Notícias que lhe podem interessar
Johnny Depp está a desfazer-se da sua colecção de arte.

Johnny Depp vende obras de arte

Foto: REUTERS/Paulo Whitaker

Brasil piora previsão de crescimento e melhora a de inflação

Fotografia:EPA/MADE NAGI

Cinco hotéis em Portugal para apanhar os Pokémon

Luís Palha da Silva, presidente do Conselho de Administração da Pharol Fotografia: Diana Quintela/Global Imagens

Mudanças na administração da Pharol

Fotografia: Jorge Amaral / Global Imagens

Estes são os 10 melhores spots de surf do mundo. Um deles é português

um horário de trabalho mais reduzido é sinónimo de uma vida mais saudável (70%) Fotografia: REUTERS/Neil Hall

Trabalhar mais de 40 horas? A resposta dos portugueses

Conteúdo Patrocinado
Classe média: Já não há novos-ricos, só há novos-pobres