"Cofres cheios" da ministra têm mais de 17 mil milhões de euros

A ministra das Finanças disse ontem à noite que o Tesouro "tem os cofres cheios", isto é, tem uma reserva de depósitos que dá "tranquilidade" ao Governo caso aconteça mais alguma desgraça na zona euro. Segundo dados do Banco de Portugal, o nível de numerário e depósitos do sector público nunca foi, de facto, tão alto. O problema é que tem de se pagar juros por estes recursos.

No final de janeiro, a reserva de dinheiro valia 17 049 milhões de euros, o valor mais alto de que há registo, e que traduz um aumento de 55% face à situação do mês homólogo (janeiro de 2014).

Mas este dinheiro é dívida. Não é um excedente gerado pelo bom desempenho orçamental deste Governo, mas antes pelas sucessivas idas aos mercados para contrair mais empréstimos. Este dinheiro faz aumentar o rácio de dívida de Maastricht. E também pressiona o défice já que implica o pagamento de juros por estes recursos. Em todo o caso as taxas têm vindo a baixar, estando hoje em mínimos históricos.

O problema é que, apesar dos juros baixos, a dívida bruta total atingiu, em janeiro, o valor mais elevado de sempre, batendo mais um recorde. Por muito baixas que estejam, a fatura anual do serviço da dívida é cada vez mais elevada por isso mesmo. Os "cofres cheios" agravam mais a situação. Em 2014, os contribuintes pagaram 8,1 mil milhões de euros em juros, quase metade do que está nos "cofres" da ministra.

O boletim do banco central com dados até ao primeiro mês deste ano diz que o stock do endividamento total, a ser pago pelas gerações atuais e futuras, ultrapassa já os 231 mil milhões de euros, o valor apurado no final de janeiro. Quase 130% do Produto Interno Bruto.

Mesmo sem depósitos, dívida está a engordar

Mas mesmo descontando os depósitos, a dívida continua a engordar, indica o banco central. Em janeiro passado, o valor da dívida líquida (sem as tais reservas de segurança) chegou a 207 143 milhões de euros, mais do que em dezembro e o terceiro maior valor de sempre, ligeiramente superado pelo recorde de outubro, quando a dívida chegou a 207 362 milhões de euros.

Ontem à noite, citada pela Lusa, Maria Luís Albuquerque disse a uma plateia de jovens da JSD que a dívida pública "está, de facto, ainda muito elevada", mas que hoje "quando olhamos para a dívida pública, está lá tudo e está também o conforto de saber que, para além disso, temos cofres cheios para poder dizer tranquilamente que se alguma coisa acontecer à nossa volta que perturbe o funcionamento do mercado, nós podemos estar tranquilamente durante um período prolongado sem precisar de ir ao mercado, satisfazendo todos os nossos compromissos".

A falar nas jornadas da JSD, em Pombal, Albuquerque constatou ainda que "há pessoas que gostariam de ter mais filhos e não podem objetivamente porque não têm condições" e recomendou que "independentemente dos benefícios e dos estímulos e do interesse que temos em estimular isso, vocês que são jovens, multipliquem-se".

O repto da ministra acaba por ser consistente com a necessidade de haver mais pessoas que, no futuro, ajudem a pagar o endividamento monumental.

Empréstimos e obrigações

A maior fatia dos 231 mil milhões de euros é em crédito concedido via mercado de títulos (bilhetes e obrigações vendidos nos mercados nacionais e internacionais), num total de 114,1 mil milhões.

A segunda grande rubrica é a dos empréstimos (onde está o resgate de mais de 78 mil milhões de euros da Europa e do FMI), que perfazem quase 100 mil milhões de euros no final de janeiro.

O dinheiro procedente de empréstimos aumentou 5,4%, o valor em títulos recuou 2,6% entre janeiro de 2014 e igual mês deste ano.

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