solidariedade social

Fundação do Gil: Com festas e gargalhadas se ajuda quem mais precisa

Patrícia Boura, presidente da Fundação do Gil. (Leonardo Negrão / Global Imagens)
Patrícia Boura, presidente da Fundação do Gil. (Leonardo Negrão / Global Imagens)

Aos 20 anos, a Fundação do Gil aposta em formas criativas de levantar fundos para apoiar crianças doentes e em risco.

O chef Sá Pessoa a cozinhar, António Zambujo a cantar e Zé Diogo Quintela a leiloar peças. Foi uma noite a antecipar o Natal no novo espaço que a Fundação do Gil abriu nos jardins da sua casa, em Lisboa. A ideia é que sirva como fonte paralela de angariação de fundos para ajudar as 16 crianças em risco (retiradas às famílias) que ali vivem e as centenas de meninos doentes (e pais) aos quais chega através das cinco carrinhas que prestam cuidados paliativos pediátricos, em associação com os hospitais de Santa Maria, Amadora-Sintra, D. Estefânia (Lisboa) e São João (Porto).

Não é a primeira vez que Patrícia Boura, presidente da Fundação do Gil desde 2014, recorre a fórmulas inovadoras para engordar as receitas. Formada em Economia Social e Solidária, a responsável sabe que não existe grande margem para reduzir os custos deste tipo de apoios se os quer garantir com qualidade. “As crianças que nos chegam estão já numa posição tão fragilizada que não podemos falhar com elas. Há 63 mil instituições a precisar de apoio, por isso é natural que não nos apoiem sempre a nós”, diz.

No último ano, entre donativos, apoios institucionais e públicos, a Fundação do Gil conseguiu angariar perto de 700 mil euros. As contas estão em dia, limpas de dívidas e à vista no site da instituição, tal como todos os documentos estratégicos – “ter total transparência e gestão profissional é fundamental nesta área”, sublinha Patrícia.

A maioria dos fundos vem de empresas ou pessoas, em dinheiro vivo ou géneros. À Casa do Gil, o Estado dá o subsídio previsto para casas de acolhimento; às unidades móveis de apoio ao domicílio – que permitiram reduzir em 70 dias o internamento de crianças com doença terminal – garante o corpo clínico. Toda a logística, veículos e material são responsabilidade da instituição. Ano após ano é preciso rever apoios, procurar doadores e garantir que entra dinheiro suficiente para os pequenos terem aquilo de que precisam – e que vai aumentando, conforme Patrícia Boura tem levado a fundação a entrar em áreas fundamentais mas que têm reduzidíssima resposta pública, caso da saúde mental.

Porque não é de ficar de braços cruzados, enquanto não se materializa o projeto de clínica que quer fazer nascer ali, em coordenação com a Direção-Geral da Saúde, a presidente da fundação assinou agora um acordo com o Hospital dos Lusíadas, que oferece um pacote alargado de consultas na área de psicologia.

Para levantar dinheiro e encontrar novas formas de apoio, não falta criatividade a Patrícia Boura. Foi assim que nasceu o Rir Ajuda, um festival de stand up comedy que já subiu ao palco em Lisboa e no Porto, e que, graças à solidariedade dos artistas e aos bilhetes pagos pelo público, permitiu fazer 52 mil euros em duas noites. “A ideia é criar produtos ou serviços que façam sentido para as pessoas, a que elas respondam porque gostam e que com isso tenham a vantagem de poder ajudar”, explica. Essa mesma lógica levou à ideia de alugar os jardins da Casa do Gil para festas para crianças – “o espaço é ótimo e os pais sentem que estão a ajudar”. E a nova casinha de vidro que ainda está em soft opening permitirá rentabilizar o espaço no inverno, em festas, jantares corporativos, workshops, etc., sem invadir a casa desta espécie de família numerosa de 16 miúdos e a equipa que as vela no sono e apoia desde que acordam até às refeições, estudos, atividades, brincadeiras, etc.

Entre trabalhadores (todos educadores profissionais) e colaboradores, são cerca de 50 pessoas a ajudar diariamente. Voluntários só entram em momentos acessórios (aulas de inglês ou karaté, por exemplo), para salvaguardar a estabilidade emocional das crianças. Essa é uma prioridade para Patrícia: que a Fundação do Gil só esteja presente onde pode assegurar que está em pleno, seja no acolhimento ou nos cuidados que presta aos meninos com doença crónica ou terminal. “É aqui que podemos fazer a diferença. Eu não posso gerir dez casas do gil ou 50 carrinhas – nem tenho estrutura para isso. Sermos pequenos permite-nos ter soluções inovadoras – se elas puderem ser replicadas com sucesso por outros, excelente.”

E enquanto não chega o dia em que se cumpre o seu sonho – “que não seja preciso haver instituições destas” -, Patrícia Boura continuará a procurar soluções para angariar fundos de forma sustentável e dar uma boa vida aos seus meninos.

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