Imobiliário

“Com ou sem benefícios fiscais, Portugal vai manter-se no mapa do investimento”

Pedro Lancastre, JLL. Fotografia: Leonardo Negrão/GI
Pedro Lancastre, JLL. Fotografia: Leonardo Negrão/GI

Investimento em imobiliário bateu todos os recordes em 2018. No total, foram transacionados 30 mil milhões de euros, o equivalente a 15% do PIB.

Lidam com vendas de milhões todos os dias, e mesmo assim foram apanhados de surpresa quando fizeram as contas a 2018. Segundo os responsáveis da consultora imobiliária JLL, as transações de imóveis bateram todos os recordes no ano que passou: o valor total de vendas chegou aos 30 mil milhões de euros, o equivalente a 15% do PIB nacional.

O mercado residencial foi o que mais contribuiu para o bolo milionário: as vendas de casas atingiram os 25 mil milhões de euros. Terão sido vendidas cerca de 180 mil habitações em 2018.

A porta aberta aos investidores estrangeiros, através de programas de incentivos como os Vistos Gold ou o regime dos residentes não habituais, terá sido fundamental. No entanto, segundo o diretor-geral da JLL, há cada vez mais compradores internacionais que vêm para Portugal sem olhar aos incentivos.

“Só a JLL no ano passado vendeu casas a 45 nacionalidades. O imobiliário português passou a ser global. Há muitos brasileiros, franceses e ingleses, mas também turcos e começam a aparecer investidores da Índia e África do Sul. No total terão sido cerca de 100 as nacionalidades que fizeram negócios em Portugal. Muitos vêm pela qualidade de vida e lifestyle e porque se sentem seguros a investir no nosso país. Não vêm pelos benefícios fiscais”, afirma Pedro Lancastre em entrevista ao Dinheiro Vivo e à TSF.

Ainda assim, o responsável espera que o regime dos residentes não habituais “não perca a força”, agora que a Inspeção Geral de Finanças aconselhou o Governo a apertar o controlo sobre estes incentivos.

“Hoje quando um investidor pensa em comprar uma casa na Europa pensa em Londres, Berlim ou Lisboa. Portugal está no mapa, com ou sem Vistos Gold, com ou sem Residentes Não Habituais. Acho que vamos continuar a estar no mapa, mas era bom que esse veículos continuassem a existir”.

REIT foram “das melhores notícias dos últimos tempos”

Não foram só as casas que bateram recordes de vendas em 2018. O investimento em imóveis comerciais chegou aos 3,3 mil milhões de euros, muito graças à venda de grandes portfólios de centros comerciais, um dos quais rendeu 900 milhões de euros. Números inéditos e dificilmente repetíveis no curto prazo, diz o responsável.

“Essas operações não acontecem todos os anos, se calhar nem de cinco em cinco anos. Houve transações grandes que ficaram para este ano, não foram concretizadas no ano passado, e pensamos que em 2019 vamos continuar a assistir a um volume de investimento muito grande. Não vamos bater o recorde do ano passado, mas vamos andar entre os dois e três mil milhões de euros, que já é um número grande para o mercado português”.

A contribuiu para um ano forte estarão as novíssimas Sociedades de Investimento e Gestão Imobiliária (SIGI), conhecidas lá fora como REIT, acredita Pedro Lancastre. O diretor da JLL não partilha das preocupações dos supervisores, que já avisaram para os riscos que estes instrumentos podem trazer ao mercado., nomeadamente um aumento ainda maior dos preços.

“Não vejo a entrada dos REIT em Portugal como um fator de risco mas sim de oportunidade. Cerca de 90% do investimento em imobiliário comercial foi feito por fundos internacionais. Esses fundos estão preparados para fazer transações com muito mais dimensão que os fundos portugueses. Havendo veículos que dão confiança aos investidores estrangeiros, é positivo. São veículos que já existem noutros mercados, mais sofisticados. Foi das melhores notícias dos últimos tempos”, sublinha.

“Todas as medidas fiscais vão ajudar o mercado”

O grande problema que o setor terá de resolver nos próximos anos, aponta Pedro Lancastre, é a falta de oferta para tanta procura. Nomeadamente no mercado residencial. Enquanto não houver mais casas para comprar, os preços das que já existem vão continuar a subir.

“A subida dos últimos anos tem a ver com a falta de produto e a maior procura. Temos tido muita procura estrangeira, de pessoas que estão mais preparadas para pagar outro tipo de preços. Mas quando falamos de preços altos falamos de um nicho muito específico de habitação, que não existia, Criou-se um segmento médio alto e até de luxo, que é um mercado novo que apareceu fruto da nova lei do arrendamento, e que permitiu que as cidades fossem reabilitadas”.

Para que o mercado ganhe as cerca de 70 mil casas que os especialistas dizem ser necessárias para equilibrar a oferta e a procura, Pedro Lancastre defende que seja aplicada a mesma fórmula de incentivos que fez disparar a reabilitação urbana.

“Temos estado muito concentrados na reabilitação e pouco na construção de raiz. É algo que vai começar a acontecer agora e nos próximos anos: construção para as famílias portuguesas terem acesso, e com mais escala, a casas novas. Havendo mais oferta e mais produto no mercado, o que vai acontecer é uma suavização do aumento dos preços”.

A descida do IVA da construção, que está no patamar máximo dos 23%, seria “uma medida importantíssima”, afirma o diretor da JLL.

“Tem muitos havido incentivos à reabilitação e praticamente incentivos nenhuns à construção de raiz. Tudo o que sejam medidas fiscais que possam ajudar os promotores também vai ajudar muito o mercado. Se aquilo que se fez para a reabilitação, que tem sido um sucesso, for aplicado à construção, terá um impacto muito significativo no mercado”.

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