Comboio volta a atravessar fronteira de Vilar Formoso após 18 meses

Da Covilhã até Madrid, não faltaram curvas do lado português e planícies do lado espanhol. Em Salamanca houve protestos pela falta da ligação noturna.

Há quase ano e meio que um comboio de passageiros não atravessava a fronteira de Vilar Formoso. O Connecting Europe Express - que na quinta partiu de Lisboa rumo a Paris - interrompeu o hiato iniciado em março do ano passado por causa do coronavírus. Na segunda etapa, o comboio europeu foi até à capital espanhola, num dia marcado pelas curvas do lado português e pelas planícies do país vizinho.

Pelas 8h20, sem atrasos, a locomotiva portuguesa da CP rebocou as seis carruagens espanholas emprestadas pela Renfe e que estavam encostadas há alguns meses. A oportunidade foi perfeita para percorrer o resto da linha da Beira Baixa até à Guarda. O troço foi reaberto em maio deste ano - após 12 anos de interrupção - depois de ter sido requalificado e eletrificado ao abrigo do programa de investimentos Ferrovia 2020.

Junto à linha foi possível ver mais uma dezena de populares no apeadeiro de Benespera a saudar à passagem das composições, e contemplar paisagens como o Vale da Teixeira cuja ponte foi pretexto para fotografias dos apreciadores da ferrovia. Graças às obras, o comboio mais fazia lembrar um tapete sobre carris, perante a falta de trepidação. Com a construção da concordância das Beiras, o comboio seguiu para Vilar Formoso sem paragens.

A chegada à estação fronteiriça deu-se às 9h25 e voltou a realizar-se a operação de mudança de locomotiva: como parte do troço entre Vilar Formoso e Medina del Campo ainda não está eletrificado, é necessário atrelar uma máquina a diesel para as carruagens poderem avançar pelo território espanhol.

Concluída a operação, o Connecting Europe Express partiu 25 minutos depois já sem o secretário de Estado das Infraestruturas e sem os presidentes da CP, IP e IMT, que até então tinham feito toda a viagem e mesmo pernoitado na Covilhã.

Embora fosse necessário trocar de locomotiva, a Renfe poderia ter apostado numa máquina híbrida, que poderia ter acionado o pantógrafo nos trechos já eletrificados e consumir gasóleo nas partes sem catenária. A Renfe preferiu seguir a opção do passado.

Ao entrar em Espanha, o comboio foi dominado pelo silêncio: sem grandes paisagens para apreciar na região de Castela e Leão, as planícies foram o convite para o descanso das duas dezenas de convidados que restavam a bordo.

Mas o que não estava previsto antes da chegada a Medina del Campo era um protesto de várias dezenas de ferroviários, encabeçado pela UGT espanhola e que defendia o regresso dos comboios suprimidos pela pandemia, tanto os regionais como os internacionais - já vamos falar sobre o Lusitânia Comboio Hotel, que rumava a Madrid.

Em Medina del Campo, nova troca de locomotiva - para uma unidade elétrica - e inversão da marcha para que o comboio rumasse à capital espanhola e não para a fronteira francesa - isso será durante o dia de hoje.

Pelas 15h26 o comboio europeu deu entrada na estação de Príncipe Pio, a pouco mais de um quilómetro da principal avenida de Madrid, a Gran Vía. Príncipe Pio é um bom exemplo de uma moderna estação de comboios na Europa: em dois minutos podemos apanhar o metro, há bicicletas e trotinetas partilhadas à porta e não falta um centro comercial com supermercados e outras lojas de conveniência para os passageiros. Tudo num edifício e sem ter de atravessar a estrada.

Espanha sem novidades
Chegados à estação, fomos recebidos por uma comitiva governamental, constituída pela secretária de Estado dos Transportes, Isabel Pardo de Vera; e pelo presidente da Renfe, Isaías Táboas. Depois da troca de galhardetes e dos discursos protocolares, confrontámos os dois dirigentes com o impasse nas ligações entre Portugal e Espanha.

O líder da Renfe insistiu na proposta feita já neste ano para o prolongamento, até Lisboa, do comboio Madrid-Badajoz. A ligação diurna teria a duração de sete horas e os custos seriam repartidos pela CP. A transportadora portuguesa não aceita a proposta.

Perante o impasse e enquanto não se chegar a uma solução, resta esperar por 2024 e pela abertura do troço Évora-Elvas, que permitirá viagens de cinco horas sobre carris entre Lisboa e Madrid. Fora dos planos está o regresso do Lusitânia Comboio Hotel, que era operado em conjunto pelas duas transportadoras ibéricas.

Neste sábado é a terceira etapa do Connecting Europe Express, que na fronteira com França será substituído por um novo comboio, que irá circular em bitola europeia até ao final da viagem, dia 7 de outubro, em Paris.

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