Crise combustíveis

Combustíveis. Sindicato conseguiu mais 200 sócios com greve

Motoristas de matérias perigosas em greve concentrados na Companhia Logística de Combustiveis - CLC.
Fotografia: Paulo Spranger / Global Imagens
Motoristas de matérias perigosas em greve concentrados na Companhia Logística de Combustiveis - CLC. Fotografia: Paulo Spranger / Global Imagens

O recém-criado Sindicato dos Motoristas de Matérias Perigosas conseguiu mais 200 sócios nos últimos dias, graças ao impacto da greve que ameaçou o abastecimento de combustíveis, o que garante mais recursos financeiros à estrutura e um salário ao seu presidente.

Criado no final de 2018 com o objetivo de melhorar as condições salariais e de trabalho dos camionistas que transportam matérias consideradas perigosas, como os combustíveis, o Sindicato Nacional de Motoristas de Matérias Perigosas (SNMMP) deu-se a conhecer aos portugueses com a greve iniciada na segunda-feira, que levou o Governo a decretar uma requisição civil e, posteriormente, a convidar as partes a sentarem-se à mesa de negociações.

A arbitragem do executivo levou a que os representantes sindicais e empresariais chegassem a acordo, na manhã de quinta-feira, ficando o início do processo negocial formal agendado para dia 29 e a paralisação desconvocada.

“Conseguimos mais nestes três dias do que em mais de um ano”, disse o presidente do SNMMP, Francisco São Bento, em entrevista à agência Lusa.

O sindicalista lembrou o percurso feito desde novembro de 2017, quando foi criada a Associação Nacional dos Motoristas de Matéria Perigosas, para combater “a degradação do setor”.

Ao longo de um ano a associação foi-se desdobrando em encontros com os sócios e contactos com os interlocutores, mas sem quaisquer resultados.

Tanto o Governo como as associações empresariais do setor não tiveram em conta as reivindicações apresentadas pela associação porque não a reconheceram como parceiro negocial, dado não ser um sindicato.

“Sentimos, por isso, que tínhamos de dar um segundo passo: ou nos vinculávamos a um sindicato já existente ou criávamos um sindicato próprio. Mas os sócios decidiram avançar para a criação de um sindicato”, lembrou Francisco São Bento.

A transformação da associação em sindicato também não surtiu o efeito desejado.

“Durante 20 anos o Contrato Coletivo do setor [da camionagem] não foi revisto e quando nos organizámos em sindicato, a ANTRAM assinou um acordo de revisão com a federação sindical maioritária no setor”, disse o sindicalista.

A falta de reconhecimento do sindicato e de valorização dos profissionais do transporte de mercadorias perigosas resultou na marcação da greve, por tempo indeterminado, que acabou por durar três dias, tal o impacto que teve.

Francisco São Bento reconheceu que o impacto da paralisação superou as expectativas sindicais, pois não esperavam ter uma adesão de 100%, e teve reflexos a vários níveis.

A mobilização dos motoristas em luta levou a que o número de associados do jovem sindicato passasse dos cerca de 550 para cerca de 750, num universo de quase 900 trabalhadores.

Dado que cada sócio paga uma quota de 6,50 euros por mês, o SNMMP vai passar a ter receitas mensais próximas dos cinco mil euros.

Com a nova disponibilidade financeira, o presidente do sindicato poderá passar a ser remunerado pelas suas funções a tempo inteiro, que já desempenhava, mas graciosamente.

Francisco São Bento, de 39 anos, natural de Lisboa, que mora nos subúrbios da capital, tem estado inteiramente disponível para o sindicato, e antes para a associação, porque perdeu o seu emprego de camionista na empresa Atlantic Cargo há mais de um ano.

Desde os 19 anos que trabalhava nos transportes, há oito anos como camionista e há três anos com matérias perigosas, mas no início de 2018 foi retirado dessa área, por alegadas “necessidades da empresa”.

Segundo o motorista, foi claro que foi o seu envolvimento na criação da associação sócio-profissional que levou à mudança de funções e posteriormente à sua suspensão e despedimento.

Impugnou judicialmente as decisões do seu empregador, mas a demora processual, a falta de rendimentos e a pressão familiar levaram-no a aceitar uma rescisão por acordo já este ano, disse.

A perspectiva agora é de continuar a tempo inteiro à frente do sindicato, mas com a devida remuneração: “O que é assumido e aceite pelos associados, até porque qualquer sindicato precisa de alguém a tempo inteiro”, disse Francisco São Bento, defendendo ainda a necessidade de um sindicalismo completamente independente de forças políticas, para melhor defender os interesses dos seus sócios.

“A política é para os políticos e o sindicalismo para os sindicatos”, afirmou.

Para já, o SNMMP tem uma delegação numa loja alugada em Aveiras de Cima, onde os motoristas vão carregar os camiões de combustível para distribuir pelos postos de abastecimento, e tem sede provisória no escritório do seu advogado e vice-presidente, Pedro Henriques, em Lisboa.

Pedro Pardal Henriques não é motorista, mas tornou-se dirigente deste sindicato porque o ajudou a constituir, tal como à associação que o antecedeu.

A situação não é usual, porque são os trabalhadores sindicalizados que têm o poder de eleger e ser eleitos, mas, neste caso, está defendida nos estatutos do sindicato, que admitem a admissão de pessoas que contribuam para o desenvolvimento do mesmo.

O advogado Pedro Henriques tem afinidades familiares com a atividade profissional defendida pelo novo sindicato, é primo da mulher de Francisco São Bento, tem um irmão na profissão e o seu pai também foi camionista.

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