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Comércio global sofre a travagem mais violenta desde a crise 2011/2012

Gita Gopinath, economista-chefe do FMI. Fotografia: REUTERS/Rodrigo Garrido
Gita Gopinath, economista-chefe do FMI. Fotografia: REUTERS/Rodrigo Garrido

Bruxelas ameaça Trump com retaliações a dobrar. Boris Johnson, partidário do Brexit sem acordo, torna-se primeiro-ministro do Reino Unido.

O comércio entre países vai sofrer a travagem mais violenta desde a crise de 2011/2012, prevê o Fundo Monetário Internacional (FMI).

De acordo com as novas previsões intercalares, ontem divulgadas em Washington, o comércio global de bens e serviços estava a ter um momento francamente bom em 2017, altura em que chegou a expandir-se 5,7%, mas em dois anos o ritmo caiu cerca de 3,2 pontos percentuais, devendo ficar-se por apenas 2,5% este ano.

Pior só no biénio 2011/2012, os anos agudos da crise das dívida soberanas, quando o comércio global perdeu uns expressivos 9,5 pontos percentuais. Mesmo com este descalabro, em 2013, as trocas comerciais mundiais ainda conseguiram crescer 3,6%, claramente acima da projeção do FMI para 2019.

O ambiente “precário” e “incerto que hoje se vive” a nível mundial referido pelo FMI agravou-se ontem ainda mais. Boris Johnson tornou-se líder do Partido Conservador e será o próximo primeiro-ministro do Reino Unido.

A sua postura populista e hostil em relação à União Europeia suscitou uma reação quase imediata da agência de rating Moody’s: “Com a eleição de Boris Johnson como líder do Partido Conservador e novo primeiro-ministro, o risco de o Reino Unido sair da União Europeia sem qualquer acordo (um brexit sem acordo) aumentou”.

A Standard & Poor’s também avisou Boris Johnson. “Deve evitar uma saída sem acordo” caso contrário, parte da economia britânica pode vir a ser destruída, designadamente por falta de novos investimentos e de quebras abruptas na faturação da indústria e do setor dos serviços.

Mas o dia foi marcado por uma ameaça ainda mais sombria ao comércio mundial. A comissária europeia para o Comércio, Cecilia Malmström, garantiu, numa audição no Parlamento Europeu, que a Europa irá retaliar duramente, quase duplicando o valor das mercadorias provenientes dos EUA que ficam sujeitas a tarifas, caso Donald Trump, o presidente dos Estados Unidos, cumpra a ameaça de impor tarifas à importação de automóveis e componentes auto da União Europeia.

Atualmente, estão sujeitas a taxas alfandegárias mercadorias no valor de 20 mil milhões de euros, mas Malmström disse preto no branco que essa base pode subir até cerca de 35 mil milhões de euros ou mais caso Trump cumpra o que diz.

FMI corta crescimento da Alemanha, mas Espanha compensa

O crescimento mundial continua “precário” e o problema atinge os países de forma diversa. Mas tudo somado, o resultado é negativo.

Umas economias estão a ganhar alguma força em termos de crescimento, como é o caso do maior parceiro económico de Portugal (Espanha pode avançar 2,3% este ano, mais 0,2 pontos do que o esperado há três meses). Em contrapartida, Alemanha, o grande motor da zona euro e da Europa, vai crescer uns meros 0,7% (menos 0,1 pontos), anunciou o FMI.

Na atualização intercalar do panorama (outlook) económico mundial, a instituição que pode vir a ser chefiada pelo ministro das Finanças português, Mário Centeno (uns dos nomes na corrida para substituir Christine Lagarde, que vai para o Banco Central Europeu), repete o quadro cinza escuro sobre as condições económicas mundiais.

Portanto, o crescimento global vai piorar outra vez, tendo o FMI reduzido o ritmo de expansão numa décima, para 3,2%.

A zona euro, atrapalhada pelo crescimento também muito fraco de França (1,3%) e pela estagnação italiana (0,1%), ressente-se, crescendo apenas 1,3%. É o pior registo desde a crise de 2012/2013, anos de recessão.

Num panorama dominado pela guerra comercial e tecnológica entre os Estados Unidos e a China, parece que os norte-americanos estão a sofrer menos, por enquanto.

O crescimento dos EUA, a maior economia do mundo, sai reforçado face ao outlook de abril, podendo crescer 2,6% este ano (mais 0,3 pontos). A China perde uma décima de crescimento, aumentando a sua economia em 6,2% em 2019.

O Brasil, outros dos parceiros de referência de muitas economias europeias, sobretudo de Portugal, leva um corte de 1,3 pontos percentuais no crescimento deste ano. A economia brasileira só deve crescer 0,8%.

Sofrimento “autoinfligido”

Assim, “nesta nossa atualização de julho do World Economic Outlook, revimos em baixa a projeção de crescimento global para 3,2% em 2019 e 3,5% em 2020. Embora seja uma revisão modesta de 0,1 pontos percentuais para os dois anos face às nossas projeções em abril, ela acumula com as revisões descendentes e significativas anteriores”, constatou a economista-chefe do Fundo, a indiana Gita Gopinath.

“A revisão para 2019 reflete surpresas negativas para o crescimento em alguns mercados emergentes e economias em desenvolvimento que compensaram fatores positivos nalgumas economias avançadas”, explicou.

“Prevê-se que o crescimento melhore entre 2019 e 2020. No entanto, cerca de 70% deste aumento depende de uma melhoria do desempenho do crescimento nas economias emergentes e em desenvolvimento e, por isso, está sujeito a uma elevada incerteza.”

Além do mais, continuou Gopinath, este crescimento global “é lento e precário, mas não precisa ser assim porque parte do problema é autoinfligido”. “O dinamismo da economia global está a ser pressionado pela incerteza política prolongada e as tensões comerciais elevadas”.

“Apesar da trégua recente entre EUA e China, as tensões tecnológicas surgiram, ameaçando as cadeias globais de fornecimento de tecnologia e as perspetivas de um brexit sem acordo aumentaram”, alertou a economista.

Estas projeções intercalares só trazem números sobre as maiores economias do mundo. Portugal só vai aparecer no panorama mundial daqui a três meses, no outlook de outubro.

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