Como a Finlândia sobreviveu à Nokia

Valério Valério é engenheiro na Jolla
Valério Valério é engenheiro na Jolla

Na entrada do número 11 em Itämerenkatu, centro de Helsínquia, há várias filas de móveis expositores vazios. Os elevadores estão parados, não há rececionista e as luzes estão quase todas apagadas. É um antigo centro de investigação da Nokia, que chegou a ter 1200 engenheiros e foi encerrado há dois anos. Os expositores, que antes exibiam centenas de telemóveis, permanecem vazios na entrada. Simbolizam a queda da mais poderosa empresa da história da Finlândia.

“No seu pico, a Nokia pesou 4% no nosso Produto Interno Bruto. E
representava 17% do total de exportações. É muito”, reconhece
Alexander Stubb, ministro finlandês dos Assuntos Europeus e Comércio
Externo. Nesse pico, detinha 40% do mercado mundial de telemóveis,
51% dos smartphones e empregava mais de 123 mil pessoas. A queda foi
vertiginosa: despediu 35 mil pessoas desde 2008, o valor em bolsa
caiu mais de 80% e acabou por vender a divisão móvel à Microsoft,
em 2013, pelo preço de saldo de 5,44 mil milhões de euros.

O impacto na Finlândia foi devastador, até porque coincidiu com
o início da crise mundial. Milhares de engenheiros altamente
especializados e bem pagos foram para a rua, as fábricas e centros
de investigação foram fechados e as exportações de tecnologia
caíram dramaticamente. O PIB finlandês, que crescera 5,3% em 2007,
fez uma travagem brusca em 2008, subindo 0,3%. No ano seguinte,
mergulhou na crise: o PIB afundou 8,2%. “A crise foi pior por causa
da transformação estrutural da economia finlandesa, que teve lugar
na mesma altura que a Nokia. Tudo isto sobrecarregou a Finlândia”,
analisa Penna Urrila, diretor de política económica da Confederação
das Indústrias Finlandesas.

A última gota para o orgulho finlandês foi a venda da divisão
móvel à Microsoft. Mas os efeitos da desgraça da Nokia foram mais
que económicos: foi uma onda de choque que abalou a sociedade
finlandesa, muito avessa ao risco. De um momento para o outro, a
empresa mais sólida do país desmoronou-se. “Quando me mudei para
cá em 2007, as pessoas queriam trabalhar na Nokia ou na função
pública. Estudavam engenharia e iam para a Nokia, era o projeto de
vida. De repente, isso desapareceu”, conta o suíço Chris Thür,
CEO da Ovelin, que faz jogos para aparelhos móveis. Essa segurança
que as pessoas procuravam ecoava os efeitos da grande recessão de
1990, em que milhares de empresas fecharam,o desemprego bateu nos 18%
– numa população que não chega aos 5,4 milhões de pessoas – e
houve uma elevada taxa de suícidos. O fantasma regressou com a crise
da Nokia.

Porque é que a Nokia falhou?

Uma empresa não perde 10 mil milhões de euros em vendas nem despede quase um terço da sua força de trabalho em seis anos por
uma única razão. Mas não há empresário, estudante ou governante
que hesite em identificar, numa palavra, o seu carrasco: o iPhone. “A
Nokia, como empresa, subestimou a Apple”, sintetiza Penna Urrila.
O smartphone criado por Steve Jobs foi anunciado em janeiro de 2007 e
chegou às lojas em junho desse ano. A Nokia não lançou um “iPhone
Killer” e desvalorizou a novata durante mais de um ano – o tempo
que a Apple demorou a vender 15 milhões de iPhones. Por essa altura,
os modelos táteis já invadiam o mercado e o lançamento do Android,
que a Google licenciava gratuitamente, fez o resto. A empresa
abandonou os sistemas operativos Symbian e MeeGo para usar o Windows
Phone. Foi tarde demais. No primeiro trimestre de 2012, a Nokia já
reportava prejuízos de 929 milhões de euros. No final desse ano, a
Samsung acabou com o seu reinado de 14 anos e tornou-se a maior
fabricante mundial de telemóveis.

“Foi o problema de não arriscarem. Porque a Nokia já tinha
tudo o que vai aparecer agora há anos, mas não havia coragem de
arriscar em tecnologias novas.” Valério Valério, um engenheiro
português de 29 anos, foi trabalhar para a Nokia na Finlândia
quando as coisas ainda estavam boas. Assistiu a tudo. “Foi muito:
“ok temos isto, é 50% do mercado, está bom assim não se mexe”.”
Depois, o jogo político. “Há uma secção que traz muito
dinheiro, e se outra secção tenta fazer algo que vai colidir com
ela, matam-se umas às outras. Houve um jogo politico, que era
visível na organização.” Com a venda da divisão móvel à
Microsoft, a Nokia que resta vai focar-se nos equipamentos de rede,
na tecnologia de mapas e na rentabilização das patentes que detém.

Os efeitos inesperados

No edifício fantasma onde antes trabalharam 1200 engenheiros da
Nokia, em Helsínquia, quase todas as luzes estão apagadas. Todas,
menos as de dois escritórios recentemente ocupados: um no piso
superior e outro no inferior. Se os milhares de metros quadrados
vazios simbolizam a queda do império, estes espaços representam a
nova era. Em cima está a Supercell, criadora do jogo Hay Day, e em
baixo está a Jolla, a que o mercado chama de “nova Nokia” e que
em dezembro começou a vender o seu primeiro smartphone, com o
sistema operativo Sailfish, baseado no MeeGo – que a Nokia deitara
para o lixo.

“Beneficiámos da situação na Finlândia, simplesmente pelo
que aconteceu à Nokia”, reconhece Tomi Pienimäki, CEO da empresa.
Praticamente todos os funcionários, cerca de 100, vieram da Nokia.
Incluindo o português Valério Valério. “Agora somos a única
opção finlandesa”, diz. “Foi uma oportunidade no sentido em que
é fácil contratar as melhores pessoas, há muito conhecimento
disponível, o que não haveria se a Nokia não tivesse falhado. Não
estaríamos aqui.”

Este foi o efeito colateral que beneficiou toda a economia
finlandesa, explica o ministro Alexander Stubb. “A Nokia foi uma
grande porção da nossa economia, mas eu olho para o lado positivo:
há alguns milhares de engenheiros que saíram de lá nos últimos
anos, receberam dinheiro e criaram mais de 500 startups.” O
resultado é visível. A cena das startups na Finlândia explodiu de
tal maneira que já é uma das mais importantes da Europa. Não é
uma coincidência que empresas como a Rovio, criadora do jogo Angry
Birds, e a Supercell, criadora do Hay Day, venham ambas do mesmo
meio. O governo finlandês está a investir fortemente nesta nova
faceta da economia finlandesa, uma que não existia há bem pouco
tempo, quando o empreendedorismo era visto como algo exótico e
arriscado. “Queremos ser o polo central das startups na Europa. Não
apenas do norte da Europa: de toda a Europa, ponto de exclamação”,
frisa o ministro Stubb. O governo tomou medidas para incentivar esta
explosão: reduziu a taxa de impostos para as empresas, de 24% para
20% (abaixo dos 22% da Suécia), e criou isenções fiscais para os
investidores (angels) que invistam em startups.

Adicionalmente, há
uma agência governamental, Tekes, que todos os anos concede cerca de
40 milhões de euros de capital aos projetos mais promissores. Marjo
Ilmari, diretora de startups na Tekes, é responsável pela seleção
das 30 a 40 empresas que recebem o dinheiro anualmente, até um
milhão de euros. “Há milhares de startups agora. O mais
importante para a escolha é a equipa: se é de topo, tem boa
experiência, boas capacidades de aprendizagem”, explica. “Somos
um país pequeno, a empresa tem de apontar para o mercado
internacional, tem de ter uma vantagem competitiva, fazer as coisas
de outra maneira.” Tanto a Rovio como a Supercell foram financiadas
pela Tekes, embora Ilmari reconheça que “muitas empresas falham.”

A Tekes entra na parte do financiamento, mas é em ambientes como
a Helsinki Think Company e a Startup Sauna que as empresas se fazem
ou morrem. A Sauna”é a maior organização de apoio a
empreendedores da região, com uma característica única: a
universidade de Aalto financia, mas são os estudantes que dirigem.
“Está a produzir tantas empresas que vem gente de outras
universidades e incubadoras ver como fazemos. Tivemos aí o príncipe
da Noruega”, conta Tiina Liukkonen, diretora de comunicação da
conferência Slush, organizada pela Startup Sauna. O espaço onde
tudo acontece é um antigo armazém de desinfetante para as mãos,
que foi cedido aos estudantes. A sala de reuniões não tem mobília:
é uma sauna, literalmente, com um quadro em branco e marcadores.
“Temos três programas de aceleração, dois com 20 a 30 equipas e
um com 10 equipas, no verão.”

Na incubadora, os aspirantes recebem aconselhamento e são guiados
por mentores, que criaram as suas próprias startups no passado e
sabem como resolver os problemas. No programa Startup Life, são
enviados para Silicon Valley, com financiamento da universidade, para
acelerarem a sua empresa durante 3 a 5 meses. Depois, há novembro. O
mês mais frio e difícil de suportar, o pior do inverno na
Finlândia, também é o mês da Slush, uma mega conferência que no
ano passado juntou 1200 empresas, 400 investidores e sete mil
participantes numa antiga fábrica da Nokia, em Helsínquia. “A
Slush é a maior conferência de startups tecnológicas na Europa e
na Rússia”, conta Tiina. Este ano, esperam crescer para 10 mil
participantes. Uum número espantoso para uma conferência que
começou com 200 pessoas em 2011 e era um projeto pessoal de Mikka
Kuusi, co-fundador da Rovio. O que este evento está a fazer é a pôr
a Finlândia no radar dos investidores: foram 60 mil milhões de
euros de capital de risco na edição do ano passado. E, mais uma
vez, a Nokia: “Muitas capitais de risco sabem que agora há uma
grande massa de trabalhadores especializados que saíram da Nokia. O
que aconteceu até ajudou a Finlândia a aparecer mais no radar dos
investidores”, diz Ilmari.

As melhores ideias são simples

Não é só bonecada que sai das incubadoras finlandesas, apesar
de os jogos serem a área mais quente neste momento. “Há um boom
de startups na Finlândia, com relevo para o sector dos jogos, mas
também muito nas tecnologias da saúde, comércio eletrónico,
software e soluções empresariais e “clean tech””, explica
Ilmari. Um dos novos programas da Tekes aproveita a propriedade
intelectual que está engavetada e usa-a para a criação de novas
empresas. O programa começou com… a Nokia. “As grandes empresas
podem conseguir receitas adicionais e quando as startups amadurecem
podem tornar-se parceiras ou serem compradas.” Um exemplo é a
PowerKiss, que usou propriedade intelectual da Nokia para criar
carregadores de telemóveis em locais públicos e em 2013 foi
comprada pela PowerMat.

Muitas das novas startups partem de ideias verdadeiramente
simples. A CatchBox, incubada na Startup Sauna, criou um microfone em
forma de cubo de peluche, para ser atirado de uma pessoa para a outra
em eventos. “Os microfones tradicionais foram desenhados para os
apresentadores individuais. Matam a interação com a audiência”,
resume Pyry Taanila, 29 anos, um dos criadores da ideia. O cubo é
super leve e coberto de um tecido que repele a sujidade. Sem
financiamento, a empresa já vendeu 250 unidades – incluindo à
norte-americana Evernote, que as usa internamente. Porque é que é
um cubo e não uma bola? “Porque se diferencia. E se atirar uma
bola, ela vai rebolar para qualquer lado. O cubo pára e assenta.”

Outra das startups que está a ser incubada na Sauna é a
EasyAntiCheat, que criou um software para impedir que os jogadores
façam batota nos vídeojogos online. Simon Allaeys, um dos
criadores, diz que é um sistema semelhante ao dos antivírus, e há
várias editoras de jogos interessadas. “É um segmento que está a
crescer muito rapidamente: temos torneios, com prémios em dinheiro
que chegam a um milhão de dólares. Os batoteiros ganham dinheiro, é
algo que acontece, e as editoras querem evitar isso.”

Depois, há quem não perceba nada de programação e jogos, mas
teve uma ideia genial: transformar radicalmente o ensino de guitarra.
É o que está a fazer a Ovelin, que tem três produtos no mercado,
com destaque para o GuitarBots. “Tocar guitarra é um dos maiores
hobbies do mundo. Mas infelizmente, de todos os que começam, 85%
desistem no primeiro mês. Porque é aborrecido”, resume Chris Tür,
co-fundador. A aplicação, que usa o áudio do tablet ou smartphone
para registar o som da guitarra, informa o aluno de como tocou, qual
o progresso entre o início e o fim da aula, os erros em certas
notas, se é lento ou rápido demais e que exercícios deve fazer. O
próximo passo é criar uma versão para professores de música, e no
final de 2014 haverá uma aplicação para o ensino de piano.

Estagnação? A culpa é da Apple

As startups têm ajudado a reavivar a economia finlandesa, mas o
seu impacto só será mesmo sentido a médio prazo. O país, que
recuperou o crescimento em 2010 e 2011, voltou a cair e entrou em
recessão ligeira nos últimos trimestres. Em 2014, as previsões
apontam para o regresso ao crescimento – o governo fala de 0,8%, o
banco da Finlândia e a Comissão Europeia alinham em 0,6% e a OCDE
acredita que ficará acima de 1%. Mas o cenário é pouco animador
para o crescimento sustentado nos próximos anos. O sector da
floresta, que representa 20% das exportações, está a cair. O
sector tecnológico ainda não recuperou.

“O empresário Nalle Wahlroos, chairman do banco Nordea, colocou
a questão de forma certeira: o iPhone matou a Nokia, e o iPad matou
a nossa indústria do papel. A culpa é da Apple”, diz o ministro
Alexander Stubb. A mesma história é repetida por outros
entrevistados. No entanto, para a Finlândia não é novidade
transformar a sua estrutura económica: era um país agrícola no
fim da II Guerra Mundial, e de um momento para o outro fazia
maquinaria e os melhores telemóveis do mundo. “Nós agradecemos a
Steve Jobs, porque isto significa que temos de inventar outra coisa”,
diz Stubb. “Temos de nos focar mais em bens de consumo. Não temos
marcas do tipo H&M, Ikea. O sector em que vamos ser fortes é o
que chamamos CleanTech, tecnologia limpa.”

Num país em que o salário médio é de 3300 euros e não há
universidades privadas, porque todo o ensino é gratuito, o desafio
pós-Nokia também é social: a população está a envelhecer, há
poucos imigrantes (muito menos que na Suécia) e os jovens saem muito
tarde da universidade, aos 26-27 anos, e reformam-se cedo – a média
em 2013 foi 60,9 anos. O governo quer convencê-los a trabalhar mais
tempo, o que até pode resultar, dada a febre de empreendedorismo.

“Os jovens querem outras coisas de um emprego: o salário e a
segurança já não são o mais importante”, reflete Elina Uutela,
24 anos, capitã da Think Company – que ajuda os estudantes a
trabalharem em ideias para fundar as suas próprias startups, em
especial em áreas como a sociologia e psicologia. “Trabalhar com
coisas significativas, resolver problemas, num bom ambiente de
trabalho, em que se gosta dos colegas, são as coisas que são
valorizadas agora. E bom, fundar uma empresa é a única forma de
escolher as pessoas com quem se trabalha.”

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