Ambiente

Como as empresas se estão a preparar para um mundo neutro em carbono

REUTERS/Denis Balibouse
REUTERS/Denis Balibouse

Acordo de Paris entra hoje em vigor. As empresas contactadas pelo Dinheiro Vivo explicam os seus planos de investimento e os desafios a ultrapassar.

4 de novembro de 2016. Esta sexta-feira marca uma data histórica no tema das alterações climáticas e no combate ao aquecimento global. O Acordo de Paris, alcançado em dezembro de 2015, entra hoje em vigor e as metas são ambiciosas: caminhar para uma economia neutra em carbono até 2050.

Um compromisso que traz fortes desafios para as empresas portuguesas mas que também podem ser encaradas como oportunidades. Contactadas pelo Dinheiro Vivo, gigantes como a EDP, a Jerónimo Martins ou a Cimpor explicam o que estão a fazer para cumprir as metas ambientais ratificadas por Portugal no acordo.

E o Conselho Empresarial para o Desenvolvimento Sustentável (BCSD), constituído por 80 membros que representam 38% do PIB nacional e empregam mais de 270 mil colaboradores, tem promovido o debate em torno dos desafios de uma economia neutra em carbono, numa mudança que pode ser vista como uma oportunidade de gerar emprego e investimento.

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Segundo a Comissão Europeia será possível criar 20 milhões de postos de trabalho verdes na Europa até 2020 e o Plano Juncker reconhece que a implementação do acordo implicará um investimento de 12 mil milhões de euros em eficiência energética e tecnologia até 2030.

Ao Dinheiro Vivo, Sofia Santos, secretária-geral do BCSD Portugal, diz que “a aplicação do Acordo de Paris implica uma mudança de modelo económico e uma mudança na forma como os países crescem”. Isto porque a entrada em vigor do Acordo em 2050 implica que as economias se tornem mais eficientes “na forma como se usa a energia” e a necessidade de “apostar na floresta e agricultura também como sumidouros de carbono”.

“Neste contexto as empresas irão ter de acelerar os processos de inovação de forma a conseguirem criar produtos, processos e materiais que originem menores emissões de CO2 do que os atuais”.

O Acordo deve ser visto como “um novo enquadramento que permite o surgimento de uma economia verde capaz de gerar emprego”.

Um caminho que as empresas contactadas pelo Dinheiro Vivo já estão a começar a percorrer, canalizando investimentos para a inovação e empreendendo medidas de eficiência energética e alterações nos processos de produção – um desafio que tem especial relevo para a fileira industrial.

EDP vai investir 200 milhões em inovação, JM já gastou 30 milhões

Nas empresas do PSI 20 a EDP e a Jerónimo Martins assumem a dimensão do desafio.

Pedro Soares dos Santos, presidente do conselho de administração e administrador delegado da Jerónimo Martins refere que o grupo definiu o combate às alterações climáticas “como um dos três pilares da estratégia ambiental do grupo, que se traduz na adoção de iniciativas com o objetivo de minimizar a pegada de carbono resultante das suas atividades”.

Em 2015 0 grupo investiu 30 milhões de euros em medidas de redução de consumo de energia e de emissões de gases com efeitos de estufa.

“No seu conjunto, os projetos permitem evitar mais de 36500 toneladas de CO2, o equivalente ao consumo anual de mais de cinco mil lares portugueses, gerando poupanças anuais superiores a 5,5 milhões de euros”, diz Pedro Soares dos Santos.

“A EDP está muito atenta, reposicionando-se para responder a este enorme desafio que se coloca à Humanidade com maior premência a cada dia que passa”, diz Rui Teixeira, administrador da EDP, em declarações por escrito ao Dinheiro Vivo.

A EDP, por seu turno, está cada vez mais a apostar na produção de energia renovável e limpa – em maio as renováveis alimentaram Portugal durante quatro dias e meio – e no final do ano passado, antes do Acordo de Paris, já definiu as suas metas e compromissos.

O plano da EDP prevê “um investimento líquido anual de 1,4 mil milhões de euros, dos quais 70% diz respeito a nova capacidade renovável a instalar (cerca de 4,4 GW), dois terços da qual eólica.”

A elétrica já iniciou várias ações, segundo diz Rui Teixeira, nomeadamente um investimento de 200 milhões de euros em “projetos inovadores nas áreas de geração limpa e eficiência energética até 2020”, diz Rui Teixeira.

O objetivo do plano é “aumentar a quota de capacidade renovável no mix de geração elétrica para 75% em 2020″ e reduzir em 75% as emissões específicas de CO2 em 2030 face a 2005″.

A EDP também quer “contribuir para a melhoria da eficiência energética no consumo, promovendo medidas que conduzam a, pelo menos, 1 TWh de economia de energia acumulada até 2020” e continuar a implementar melhorias nas redes de produção, “instalando contadores inteligentes em, pelo menos, 90% dos clientes na Península Ibérica até 2030” e faz parte do World Business Council for Sustainable Development (WBCSD), “para desenvolver soluções de mercado e assumir liderança na transição que as sociedades terão de fazer”, acrescenta o responsável.

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Já a Jerónimo Martins está a reduzir os consumos de energia nas instalações, através de projetos de eficiência energética e energias renováveis e na otimização dos processos logísticos. “A substituição de gases refrigerantes, presentes nos equipamentos de frio e climatização, por refrigerantes naturais ou por gases com menor potencial de aquecimento global é uma medida também em curso”, refere Pedro Soares dos Santos.

Cimenteiras com metas ambiciosas de redução de carbono

A fileira industrial é das que apresenta os maiores desafios devido à própria natureza do seu negócio. No setor cimenteiro, a Cimpor vai investir entre 2013 e 2023 cerca de 80 milhões de dólares “num portefólio de projetos de inovação e desenvolvimento orientados, em larga medida, para uma economia de baixo carbono”, diz Luís Fernandes, diretor-geral da Cimpor Portugal e Cabo Verde e vice-presidente da InterCement – que comprou a Cimpor.

Entre as medidas que estão a ser empreendidas está a aposta na economia circular, aumentando nos fornos a substituição de combustíveis fósseis convencionais por fontes de energia alternativas, de 15% em 2013 para 45% em 2023, aumentar a taxa de substituição de clínquer por aditivos, de 28% para mais de 40% em 2023 e ainda reduzir as emissões de CO2 por tonelada de cimento até 40%.

A Cimpor está também a desenvolver um projeto de investigação e desenvolvimento que tem em estudo duas abordagens inovadoras de desenvolvimento de material de cimento, cuja produção apresenta valores de emissões de CO2 inferiores em cerca de 20% a 30%.

“Encontra-se em discussão a construção de uma instalação piloto destinada a provar o conceito a uma escala industrial que, a ser logrado como se espera, se traduzirá num passo muito para a indústria cimenteira e para a mitigação dos seus impactes ambientais”, diz o diretor-geral da Cimpor Portugal.

Secil está a planear investimentos “da ordem de muitas dezenas de milhões de euros, em particular nas tecnologias de captura, sequestro e uso de carbono”, diz Gonçalo Salazar Leite, presidente da comissão executiva, embora refira que “não há um orçamento específico para este processo”.

A cimenteira está há vários anos a reduzir os consumos, emissões e intensidade carbónica. “A utilização de combustíveis derivados de resíduos de maior intensidade carbónica, o reaproveitamento de matérias-primas, os ganhos de eficiência energética, a evolução da composição dos nossos produtos, todos estes fatores contribuem já para o atingimento das metas formalizadas no Acordo de Paris”.

No setor metalúrgico, a Gestamp está a otimizar os processos na conceção e design dos produtos, na produção e também na distribuição, diz Adriana Alves, diretora geral.

Na conceção este processo é feito através do consumo de matérias-primas, a reutilizar equipamentos existentes e a desenvolver equipamentos multiproduto e equipamentos energeticamente mais eficientes. Na produção com a redução da utilização de produtos químicos e redução de desperdício, por exemplo e na distribuição com a otimização de embalagens e rotas. Contudo, não há um orçamento definido para a aplicação destas medidas. “São medidas estruturais no próprio processo”, diz a responsável.

Siemens quer pegada de carbono zero até 2030

A tecnológica Siemens está a avançar com vários projetos para alcançar o objetivo de ter uma pegada de carbono zero até 2030. Assim, a empresa vai investir já este ano fiscal cerca de 40 milhões de euros nas instalações de todo o mundo para melhorar a eficiência energética, Diz Joana Garoupa, diretora de comunicação da Siemens.

O objetivo será reduzir os custos de energia em 20 milhões de euros por ano, o que já começa a ser aplicado na nova sede, em Munique, tornando-se também um showcase das suas próprias tecnologias e soluções.

“A nível mundial temos previsto investir, até 2018, cerca de 100 milhões de euros para reduzir as emissões de CO2 em 50% até 2020.”

 

Para alcançar o objetivo a empresa vai passar a utilizar os “próprios sistemas de energia em todas as nossas fábricas e edifícios administrativos para otimizar os custos”, “utilizar sistematicamente veículos de baixas emissões e aplicar os conceitos de e-mobilidade a toda a frota de carros” e “avançar para um mix de energia limpa, utilizando cada vez mais fontes de energia com emissões de CO2 zero ou muito reduzidas — tais como gás natural e energia eólica”, diz Joana Garoupa.

A empresa também está a apoiar os clientes na transformação tecnológica. “No ano fiscal de 2015, o nosso portefólio ambiental gerou 32,7 mil milhões de euros em vendas, ou seja, quase 43% das receitas totais da Siemens, e permitiu aos nossos clientes reduzir as suas emissões de CO2 em cerca de 487 milhões de toneladas métricas – uma quantidade equivalente a mais de metade do total das emissões de CO2 da Alemanha”, conclui a diretora de comunicação da Siemens.

Já a Eurest, do grupo Compass, tem cerca de 500 mil euros anuais para investir em medidas para reduzir as emissões de carbono, em áreas como a certificação ambiental, a aquisição de equipamentos e frota com menores consumos e o desenvolvimento de ações desenvolvidas na área da produção de hábitos alimentares mais sustentáveis, a redução do desperdício alimentar e ainda a seleção de fornecedores nacionais para a produção de refeições.

A Soja Portugal, por seu turno, vai investir dois milhões de euros em três anos, diz António Isidro, presidente da empresa, que já está a reduzir o impacto ambiental com a implementação de sistemas de iluminação LED, sistemas de energia para autoconsumo, de reaproveitamento de calor e ainda sistemas de iluminação natural.

Na área dos resíduos, a Lipor, do Grande Porto, aposta sobretudo na afetação de recursos humanos e em investimentos em várias áreas, “que totalizam um valor de cerca de 100 mil euros para 2017”, diz Fernando Leite, administrador-delegado da Lipor. A estratégia começou a ser implementada em 2010, acrescenta o responsável.

Quais os principais desafios para as empresas?

Sofia Santos, da BCSD, aponta vários desafios que as empresas terão de ultrapassar, do ponto de vista organizacional ao financeiro: é preciso ter uma visão estratégica sobre o futuro e perceber que é necessário começar a agir já, do ponto de vista da gestão e também dos colaboradores. A mudança pode só ocorrer após 2050 mas é preciso começar a trabalhar já, avisa a secretária-geral da BCSD Portugal.

É necessário também gerir as incertezas que vão surgir entre 2030 e 2050, “mudar a sua estratégia de negócio assente na venda de produtos para a venda de serviços” e ter equipas transdisciplinares.

Essencial também é “ter o sistema financeiro alinhado com os objetivos de descarbonização” e uma política fiscal que “promova a descarbonização e que permita a existência de um período de transição entre a economia atual e a economia descarbonizada”.

Para a sociedade o principal desafio é a educação. “Este contexto requer que os temas do desenvolvimento sustentável e da economia verde sejam incorporados de forma coerente no ensino desde os primeiros anos de aprendizagem”, já que estes são “temas de geoestratégica, economia e gestão empresarial”, avisa Sofia Santos.

Novos modelos de negócios e investimento em tecnologia

Questionados sobre as principais dificuldades na implementação do Acordo de Paris para as empresas os responsáveis admitem a complexidade do tema, frisando a importância do investimento em tecnologia de baixo carbono e em novos modelos de negócio. Um quadro regulamentar claro é essencial e o papel dos governos dos países é decisivo.

Pedro Soares dos Santos, da Jerónimo Martins, refere que o Acordo “representa um claro marco político para o setor empresarial”.

No caso da Jerónimo Martins, “sendo o maior grupo de distribuição alimentar em Portugal e na Polónia e em rápida expansão na Colômbia, a existência de um Acordo global e ambicioso sobre o clima é particularmente importante”, na medida em que “proporciona um quadro regulamentar crucial para o planeamento de investimentos em tecnologias de baixo carbono e prepara o terreno para que as emissões sejam reduzidas e se evitarem efeitos irreversíveis, nomeadamente na produtividade agrícola e marinha”.

Rui Teixeira, administrador da EDP, começa por dizer que “será necessário desenvolver novos modelos de negócio e tecnologias de baixo carbono, para o qual as empresas serão fundamentais, e assegurar o financiamento para a sua implementação”.

Segundo o Banco Mundial, nos próximos 15 anos, a descarbonização da economia exige um investimento adicional de 3,7 mil milhões de euros, lembra o responsável.

Para atrair este volume de investimento é necessário reduzir o perfil de risco dos projetos, tendo os governos um papel absolutamente decisivo através da definição de políticas sólidas e estáveis, e da criação de contextos regulatórios estáveis e credíveis, que definam claramente as regras do jogo para os investidores e se mantenham durante o período de investimento.”

“As empresas são cruciais para que os países signatários possam cumprir o Acordo de Paris. Cabe-nos liderar a transição para uma economia de baixo carbono fazendo uso da nossa competitividade, capacidade tecnológica e de inovação. Uma forte liderança dos negócios através de parcerias globais pode acelerar esta transformação”, conclui o responsável, frisando o papel das empresas do setor energético, para fornecer energia competitiva e limpa e fornecer serviços energeticamente mais eficientes.

Já o diretor-geral da Cimpor Portugal e Cabo Verde, Luís Fernandes, lembra as medidas que já foram aplicadas pela cimenteira na redução das emissões líquidas consolidadas de CO2, que faz parte da estratégia de longo prazo da empresa. A aposta em investigação e desenvolvimento, através de mais de uma dezena de parcerias, já produziu resultados, com instalações-piloto e alguns pedidos de registo de patentes e teses de doutoramento.

“Estamos seguros de que o nosso produto final, o betão, contribui decisivamente para soluções sustentáveis destinadas à habitação, escolas, hospitais, estradas e outro tipo de infraestruturas de futuro”, conclui.

Para Gonçalo Salazar Leite, da Secil, “o principal desafio está no desenvolvimento de tecnologia eficaz de captura das emissões de carbono, que só será possível a prazo e através dos projetos europeus e internacionais em curso”.

No que diz respeito às dificuldades, estas prendem-se com as “diferenças no custo da energia e na ausência de regras comuns para as emissões de gases de efeito de estufa, que minam a sua competitividade internacional”.

“Existe o sério risco de uma natural deslocalização da produção para países extra-europeus que não têm o mesmo grau de exigência nem os mesmos custos”, ou seja, fábricas mais poluentes podem ser transferidas para geografias onde não se apliquem estas regras, o que é particularmente importante no setor industrial.

“A inexistência de regras aplicáveis a cada setor à escala mundial pode pôr em causa o futuro das empresas industriais europeias, com a consequente destruição de valor e de postos de trabalho.”

António Isidro, da Soja, concorda. “Existem dificuldades atuais ao nível da legislação, dos apoios financeiros ou fiscais, dos elevados montantes dos investimentos em causa versus o seu payback, que podem vir a desencorajar a implementação deste tipo de medidas por parte das empresas.

A Eurest identifica como principal desafio “a implementação de políticas sólidas, e de longo prazo, que permitam dar um passo em frente no que respeita ao desenvolvimento e implementação de meios tecnológicos que permitem uma a redução de emissões de carbono”.

Adriana Alves, da Gestamp, refere as “dificuldades mais operacionais, uma vez que toda a cadeia de valor deve estar formada para a importância da economia circular e dos seus objetivos para que os resultados sejam os esperados”. O Acordo servirá como “alavanca, proporcionando que mais empresas entrem nesta dinâmica e mudem o paradigma de modo a minimizar os efeitos dos aumentos ao longo dos anos das emissões para as gerações futuras”.

Para a Siemens “o grande desafio é olhar para o tema da descarbonização, não apenas como uma obrigação de cidadania e sobrevivência, mas como uma oportunidade”. No caso da empresa o objetivo é também assegurar o apoio tecnológico aos clientes que sigam o mesmo caminho”.

O que é o Acordo de Paris?

O objetivo do Acordo é manter o aumento da temperatura média global abaixo dos 2 graus centígrados e limitar o aumento da temperatura a 1,5 graus centígrados”. O objetivo pode ser alcançado através da implementação de várias medidas, atingindo o pico de emissões de gases de efeito de estufa o mais cedo possível e iniciar reduções para chegar a um equilíbrio – uma economia neutra em carbono.

Um dos objetivos é a criação de um mecanismo de revisão, de cinco em cinco anos, dos compromissos voluntários dos 197 países signatários – a primeira revisão decorrerá em 2025. Os países desenvolvidos devem estar na linha da frente e estabelecer objetivos de redução das emissões enquanto os países em desenvolvimento devem continuar a empreender esforços para a redução.

 

 

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