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Como um grupo de empresários quer trazer 1,4 mil milhões de euros ao Algarve

Fotografia: Paulo Spranger/Global Imagens
Fotografia: Paulo Spranger/Global Imagens

A associação AlgFuturo propõe um plano de reformas a dez anos para tornar o Algarve numa região sustentável

Uma região que não é sustentável, com a maior percentagem de contratos a prazo do país e um tecido empresarial com um volume de negócios muito abaixo da média nacional. O quadro negro, pintado por uma associação empresarial, pode surpreender por representar a região que, por esta altura, consegue praticar os preços mais elevados da hotelaria nacional: o Algarve.

Foi a pensar nestas fragilidades que a União pelo Futuro do Algarve (AlgFuturo) desenhou um conjunto de reformas para tornar o Algarve numa região sustentável no prazo de dez anos, com soluções que vão desde a construção de uma ligação ferroviária à Andaluzia, ao aumento das verbas públicas destinadas à promoção do destino. Para 2026, este grupo de empresários algarvios tem dois objetivos claros: aumentar a taxa de ocupação anual dos hotéis para 50%, atingindo os 90 milhões de dormidas anuais, e aumentar as receitas turísticas dos atuais 6,6 mil milhões para 8 mil milhões de euros, passando, assim, a assegurar 70% das receitas geradas no país.

Começando pelo princípio: nos meses de verão, o Algarve fica praticamente lotado. Em agosto, três das cinco cidades mais caras do país para dormir uma noite são algarvias. Mas, no resto do ano, regista, muitas vezes, taxas de ocupação de 20% ou menos, o que faz com que, no conjunto do ano, a ocupação média não chegue aos 43%.

O problema parte, desde logo, da debilidade (ou mesmo falta) de infraestruturas na região. “Um novo Hospital Central, o urgente início e conclusão da ETAR Faro-Olhão, a efetivação da renovação da linha férrea do Algarve, com ligação ao aeroporto, a renovação e ampliação dos portos e marinas, para cruzeiros e turismo náutico, e um centro de congressos com capacidade para três a quatro mil pessoas” são, para a AlgFuturo, medidas sem as quais nunca se poderá esbater o fantasma da sazonalidade.

E não bastam incentivos do governo, como o recentemente lançado Programa Algarve, para combater este problema. “É um herdeiro do famigerado Allgarve. Não está em causa o mérito do apoio a organizações regionais e culturais, mas esse dinheiro destina-se, sobretudo, a apoiar eventos que já existem. Esses servem para entreter quem já cá está, ninguém vem por causa deles”, refere Elidérico Viegas, presidente da Associação dos Hotéis e Empreendimentos Turísticos do Algarve (AHETA). “O que precisamos é de animação que atraia fluxos turísticos importantes”, acrescenta. Pedro Lopes, administrador do Pestana Hotel Group para a área do Algarve, também reconhece que a sazonalidade é “uma questão que não teve uma melhoria significativa nos últimos anos” e aponta “o aumento do número de voos de mais cidades da Europa” como “uma medida extremamente importante”.

Outro dos problemas estruturantes do Algarve é a mobilidade, agravada nos últimos anos com a introdução de portagens na Via do Infante. As portagens na autoestrada do sul, a A22, foram introduzidas em 2011 pelo governo de Passos Coelho e desde o início que são vistas como um desastre económico. “As alternativas não existem, a N125 é pouco mais que uma rua. A própria Via do Infante, na maior parte do seu traçado, não tem características de autoestrada. E foi construída com dinheiros comunitários entre a Guia e Vila Real de Santo António, portanto, não há razão para se cobrar portagens”, aponta um empresário algarvio que prefere não ser identificado. O resultado desta medida é lembrado no estudo: “Em todo o ano de 2015 passaram, no primeiro pórtico de portagens, no sentido Ponte do Guadiana/Lagos, uns ínfimos 150 mil veículos estrangeiros”.

A associação empresarial propõe não só a eliminação de portagens, como a construção de uma linha ferroviária à Andaluzia, uma obra que, esperam, chamaria os 8,5 milhões de andaluzes. O responsável do maior grupo hoteleiro do país reconhece o impacto positivo que estas medidas teriam. Mas, para Pedro Lopes, “ainda mais simples e com muito menos custos seria melhorar a forma de pagamento de quem chega a Portugal de automóvel, vindo de Espanha”.

Quanto à promoção do destino, os empresários algarvios defendem que as verbas públicas reservadas para este efeito devem passar de 7 para 30 milhões de euros por ano, o que, se o plano de reformas tiver o impacto previsto, equivalerá a 0,4% das receitas geradas no Algarve.

A correr como desejado, o programa levaria a uma mudança drástica no tecido empresarial da região. As empresas algarvias têm, atualmente, um volume de negócios médio de cerca de 112 mil euros, menos de metade da média nacional de 286 mil euros. O volume de negócios médio das empresas algarvias deveria passar para 150 mil euros em 2026 e o rácio de endividamento, atualmente nos 0,78, deverá aproximar-se da média nacional, de 0,7. Por seu turno, os contratos de trabalho a prazo celebrados na época alta, na maior parte em hotéis e restaurantes, poderiam reduzir-se em 50% a 60%.

O próximo passo, refere José Vitorino, presidente da AlgFuturo, será apresentar as ideias às autoridades. O programa de reformas será “debatido na Assembleia da República, com o governo e com as entidades regionais”.

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