Como Washington deixou o Lehman arder

Governo e reguladores da época – Hank Paulson, Ben Bernanke e Timothy Geithner – explicam porque o banco não foi grande demais para falhar.

O pânico financeiro é uma espécie de nevralgia, que não se pode deixar por tratar sob pena de a dor continuar a alastrar. Porque uma falência arrasta muitas outras, há que injetar dinheiro. Muito, livremente e a todos, desde que as garantias sejam boas. A velha cartilha dos banqueiros centrais, postulada por Walter Bagehot no final do século XIX, estava em 15 de setembro de 2008 presente na cabeça de três homens, Ben Bernanke, Timothy Geithner e Hank Paulson, o trio de ataque ao círculo de deflagração da Grande Recessão americana que redundaria numa crise mundial. Mas a solução para o Lehman Brothers, falido nesse dia, seria deixar queimar.

Às primeiras horas do dia, então uma segunda-feira, Paulson, o secretário do Tesouro americano, via o centro de Manhattan começar a clarear da janela do seu quarto no Waldorf-Astoria. “Apenas algumas horas antes, pouco depois da meia-noite, o Lehman Brothers tinha pedido a falência, a maior da história dos Estados Unidos. Perguntava-me se algumas das pessoas lá fora na rua conseguiria imaginar aquilo que as estava prestes a atingir”.

O rescaldo daquele foco inicial prossegue até hoje em muitos lugares, incluindo Portugal, onde a crise deixou uma cauda longa efeitos fiscais, no emprego, nos salários, nas capacidades das famílias, dos bancos, das empresas, da economia alargada. A OCDE estimou perdas de 3,5% no produto potencial das economias desenvolvidas até 2014, mas tão profundas como 10% em algumas economias da zona euro. Os Estados Unidos reverteram o ciclo. A Europa reverteu o ciclo. Mas a cada aniversário, repetem-se as perguntas: Teria sido possível salvar o Lehman? Quem errou mais - banqueiros ou reguladores? Criaram-se, e mantiveram-se, as ferramentas para prevenir a próxima crise?

Muitos dos principais intervenientes na crise do Lehman e em tudo o que a sucedeu escolheram argumentar com o futuro sobre as virtudes das suas ações. Os títulos sobre a crise financeira no mercado editorial dispararam, aliás, no movimento inverso em que afundavam os títulos da banca. Paulson escreveu, em 2010, “On the Brink: inside the race to stop the collapse of the global financial system”. Bernanke, o então presidente da Reserva Federal, publicou em 2015 “The Courage to Act: A Memoir of a Crisis and Its Aftermath”. Geithner, vice-presidente da Fed e líder do banco central de Nova Iorque que concertou uma missão sem resgate para segurar o Lehman, lançou um ano antes "Stress Test: Reflections on Financial Crises”.

O Lehman não era o Bear

Entre março e setembro de 2008, oito instituições financeiras norte-americanas vergaram. Até 2009, mais de 20 bancos europeus em dez países tinham sido alvo de resgate. Nesse ano, o FMI fez as contas às ajudas públicas usadas para suster o sistema financeiro: mais de dez biliões de dólares. Perto de um quinto do valor para compra direta de ativos dos bancos, e cerca de metade em garantias para assegurar que estes eram vendidos a terceiros. Nestas contas não entrou o Lehman, ao contrário do Bear Sterns nesse mesmo ano de 2008.

“Nem por uma vez considerei adequado avançar com dinheiro dos contribuintes para resolver o Lehman Brothers”. Foi o que Paulson disse a uma turba de jornalistas que o esperava na Casa Branca nesse 15 de setembro. Os fundos públicos eram o que os reguladores britânicos exigiam para autorizar uma compra pelo Barclays, negociada à última hora no fim de semana anterior, já depois de o Bank of America ter enjeitado o banco a favor do Merrill Lynch. E 29 mil milhões de dólares de crédito da Reserva Federal contra garantias tinham permitido, seis meses antes, a compra do Bear Sterns pela JP Morgan.

O clima era outro. O Tesouro tinha agora um mandato estrito e vigiado pela Presidência para não comprometer mais um dólar do erário americano. Os argumentos do “risco moral” pesavam cada vez mais na opinião pública do país e internacional. O secretário escreve nas suas memórias que deveria ter sido mais comedido nas palavras. “Alguns interpretaram-nas como estarmos a traçar um limite rígido sobre o risco moral, e que simplesmente não queríamos saber do colapso do Lehman e das consequências. Nada podia estar mais longe da verdade”, defende.

Paulson, cujo velho Motorolla azul figura hoje no Museu Nacional de História Americana como relíquia da crise pela quantidade de chamadas consecutivas feitas na antecâmara do fracasso bancário, tinha afinal “trabalhado arduamente durante meses para afastar o pesadelo que antevíamos com o Lehman”. “Mas poucos compreenderam o que fizemos – que o governo não tinha autoridade para entrar com capital, e que um empréstimo da Fed por si não teria prevenido a bancarrota”, argumenta.

O Lehman não era o Bear. Paulson, Geithner e Bernanke dedicam várias páginas das memórias das crise a explicar porquê. “O Lehman era 50% maior que o Bear tinha sido na véspera da sua aquisição, e pelo menos tão interconectado quanto ele”, recorda Bernanke. Mas se o banco era maior, e assim mais importante, a carteira de derivados - os instrumentos financeiros de crescente complexidade e risco que então começaram a ser apelidados de “armas financeiras de destruição massiva” - tinha o dobro do tamanho.

Os ativos do Lehman estavam avaliados, antes da falência, em 626 mil milhões de dólares. O passivo chegava a 560 mil milhões de dólares, que subtraídos deixavam o banco a valer uns potenciais 66 mil milhões de dólares. Mas estes mesmos valores eram postos em causa pelas outras instituições financeiras chamadas a socorrer o Lehman.

“Tanto o Bank of America como o Barclays tinham encontrado perdas no balanço do Lehman muito maior do que as esperadas. Queriam que o governo entrasse com entre 40 a 50 mil milhões de novo capital”, recorda Bernanke. Para os restantes bancos americanos convocados pela Reserva Federal para apoiar uma possível venda num esforço que Washington queria que fosse privado, os ativos estavam também sobreavaliados – sobretudo, os que refletiam a exposição ao imobiliário. E a dívida do Lehman era então 30 vezes maior do que o capital que este tinha.

“Capital, capital, capital”

 

O Lehman, então o quarto maior banco de investimento dos Estados Unidos, não era apesar de tudo muito diferente dos restantes. Todos tinham níveis de alavancagem acima do recomendável, perdas associadas aos créditos hipotecários do mercado subprime que só então começavam a reconhecer, e uma dependência expressiva de financiamento interbancário obtido na noite anterior para continuarem de portas abertas no dia seguinte.

“Esta não era a altura para dizer aos mercados que estavam entregues a si mesmos. Ao assumir o compromisso de não fazer nada agora, acabaríamos por ter de fazer muito mais e por ter de pôr mais dinheiro dos contribuintes em riscos mais tarde”, reconhece Timothy Geithner.

Mas o Lehman acabaria por ser o banco a pôr em causa a máxima de que havia instituições que eram grandes demais para falhar. O mantra, depois da crise, seria “capital, capital, capital”, afirma Geithner.

Nas suas memórias, o banqueiro da Fed justifica como pode a atuação dos reguladores. Faltavam instrumentos poderosos para neutralizar o pânico. E a exigência de maiores almofadas no sistema financeiro também só seria feita mais tarde porque os reguladores não tinham então verdadeira noção da “extensão dos riscos”, e porque Estados Unidos e Europa se detinham em negociações demoradas para fazer subir os rácios de capital exigido.“Sabendo o que sabemos hoje, devíamos ter tentado fazer mais”.

A regulação bancária para evitar um sobredimensionamento das instituições e com novas exigências de capital chegaria em 2010, com o pacote legislativo conhecido pelo nome dos seus redatores, Dodd-Frank. Medidas legislativas que a Administração Trump começa agora a reverter, uma década depois do início da crise.

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