Indústria do calçado

Consumo em quebra leva ao fecho de lojas e fábricas

Luís Onofre, presidente da APICCAPS, e o secretário de Estado da Economia, João Neves, (à esq) falaram aos jornalistas à margem da visita às empresas na Micam. Fotografia: Direitos Reservados
Luís Onofre, presidente da APICCAPS, e o secretário de Estado da Economia, João Neves, (à esq) falaram aos jornalistas à margem da visita às empresas na Micam. Fotografia: Direitos Reservados

Se para uns a crise é evidente, para outros, o mercado diminuído é, na verdade, “a nova realidade” com que as empresas têm de aprender a viver. O Governo está a estudar medidas para ajudar

A crise regressou ao calçado? Este foi o verdadeiro elefante no meio da sala da delegação portuguesa na Micam, a maior feira de calçado do mundo, que esta semana decorreu em Milão. Sobretudo porque, a meio do certame, surgiu a notícia de mais um encerramento, o da Alberto Sousa, em Vizela, do grupo Eureka, que se soma aos dois conhecidos na semana anterior, da Catalã e Jomica, de Oliveira de Azeméis. A existência de salários em atraso na histórica Evereste, de São João da Madeira, veio adensar a preocupação. Luís Onofre, presidente da associação do sector (APICCAPS), fala em “mudanças radicais” no consumo, com consequências no retalho, mas, também, em “sinais positivos”.

A verdade é que, nos últimos 13 anos, fecharam, em Portugal, mais de 38 mil lojas de retalho, a maioria das quais (7217) do segmento têxtil e da moda. Os dados são da Informa D&B e mostram que 37% dos encerramentos aconteceram nos últimos cinco anos. A nível europeu a situação é semelhante.

Online a crescer
“É muito preocupante”, reconhece Luís Onofre, que admite uma aposta crescente no negócio online, que, no seu caso, cresceu 80% nos últimos anos. “Há três anos, a minha política comercial era a de abrir lojas lá fora, nos melhores locais, levasse o tempo que levasse. Hoje não sei. O online está a dar, é nisso que vou continuar a investir. Mas as regras do Google mudaram, e tudo se paga, o que me leva a questionar se a moda será rentável no futuro tal como a conhecemos”, admite.

Está a indústria portuguesa sobredimensionada para esta nova realidade, questionamos. “Não sei. Nós temos é que combater isso de outra forma. Pela sustentabilidade, criando mecanismos, por código de barras, por exemplo, que permitam que o cliente consiga saber de onde veio cada componente que integra o produto que vai comprar, para que possa tomar uma decisão informada. É nisso que estamos a trabalhar na Confederação Europeia do Calçado”, diz Luís Onofre, sublinhando que a sustentabilidade “não está, apenas, no ambiente, mas, também, mas condições de trabalho que se proporciona aos trabalhadores e nos salários que se lhes paga”. Razão porque, argumenta, “é preciso rever” a política europeia de importações da Ásia.

Novos apoios em estudo
Uma pretensão que o Governo parece estar disposto a apoiar, segundo as declarações do secretário de Estado da Economia à margem da visita à Micam, prometendo colocar o tema do comércio justo no centro do debate da Presidência Portuguesa da União Europeia, no primeiro semestre de 2021. João Neves prometeu, ainda, instrumentos de crédito com reforço dos capitais próprios, mas não avançou mais pormenores sobre a medida.

Para Amílcar Monteiro, sócio-gerente da Kyaia, o maior grupo de calçado nacional, não se pode falar de crise, mas da “nova realidade”, para a qual as empresas precisam de se preparar. “É com esta nova realidade que temos que viver, temos que saber encontrar as ferramentas para conseguirmos estancar o declínio”. A diversificação de mercados é vital e, no caso da Kyaia, que detém as marcas Fly London, Softinos e As Portuguesas, além da plataforma de e-commerce Overcube, a aposta em 2020 será no Médio Oriente. “É uma das regiões que tem vindo a crescer em termos de consumo e de habitantes, vamos dar um bocado de atenção a essa região”.

Fernando Brogueira, da Moveon, reconhece que é difícil não falar em crise quando “o consumo decaiu e todos os parceiros de retalho, com honrosas exceções, apresentam números negativos”. Mas, como em todas as crises, há sempre quem consiga tirar partido da situação e a dona da Saydo – a marca que a empresa de Esmoriz criou quando perdeu a licença de produção e comercialização da Aerosoles – espera encontrar-se nesse grupo. Quanto mais não seja porque um dos seus concorrentes diretos, os italianos da The Flexx, atravessam um mau momento. Propriedade dos indianos da Tata, a Moveon vai fechar 2019 (o exercício fiscal termina a 31 de março) com “um pequeno prejuízo”, embora “maior do que o pretendido”. Mas prevê crescer significativamente em 2020, com vendas a “duplicar”.

* A jornalista viajou a convite da APICCAPS

Comentários
Outras Notícias que lhe podem interessar
Outros conteúdos GMG
Hoje
Ilustração: Vítor Higgs

Indústria têxtil em força na principal feira de Saúde na Alemanha

O Ministro das Finanças, João Leão. EPA/MANUEL DE ALMEIDA

Nova dívida da pandemia custa metade da média em 2019

spacex-lanca-com-sucesso-e-pela-primeira-vez-a-nave-crew-dragon-para-a-nasa

SpaceX lança 57 satélites para criar rede mundial de Internet de alta velocidade

Consumo em quebra leva ao fecho de lojas e fábricas