Contadores EDP: “Podíamos ter dito às pessoas, mas esperámos pelo regulador”

João Torres, CEO da EDP Distribuição
João Torres, CEO da EDP Distribuição

A EDP
encontrou um “defeito novo” em 70 mil contadores de
clientes com tarifa bi e tri-horária, penalizando 30 mil clientes e
beneficiando outros 40 mil. A empresa está, assim, desde o início
do ano, a corrigir a situação e não só começou já a substituir
os contadores como pediu ao regulador para definir quanto tem de
devolver aos clientes. Além disso, assegura que não irá pedir o
dinheiro de volta aos clientes que pagaram a menos durante o ano em
que os contadores funcionaram mal. No entanto, esta semana, a Deco
veio a público dizer que há mais contadores com problemas e por
isso muitos mais consumidores lesados, apontando para cerca de 480
mil.

Afinal, qual é o problema dos contadores? Leia aqui

Em entrevista ao Dinheiro Vivo, o CEO da EDP Distribuição, João
Torres, mantém que são apenas 30 mil lesados, mas não descarta que
possam surgir situações semelhantes, porque isso “faz parte do
dia a dia da empresa”. O desempate terá de ser feito pelo
regulador, que até ao final deste mês dirá exatamente quantos
consumidores foram lesados e quanto terão de receber.


sabiam que havia erros nos contadores ou esta situação apanhou-vos
desprevenidos?

Conhecemos
este tema desde o final do ano passado, quando tivemos uma
reclamação. Identificámos, então, uma avaria no relógio, numa
série de 106 mil contadores, que nuns casos penalizava o consumidor
e noutros beneficiava. Identificámos 30 mil clientes penalizados e
40 mil que foram beneficiados, mas sobre os quais a EDP não vai
atuar.

Não
vai pedir o dinheiro de volta?

Exatamente.
Este era um processo que estava a decorrer de forma transparente até
que a Deco se desligou da forma como o estava a acompanhar e elaborou
um estudo que não conheço, a partir de uma amostra que não
compreendo, e informa que há 480 mil clientes penalizados em três
milhões de euros.

Quando
é que começou o processo?

O
processo de identificação começou no início do ano e no princípio
de maio arrumámos os números. Na segunda quinzena de maio
entregámos o relatório à ERSE e até tivemos reuniões com a Deco,
que tem tanta informação como o regulador. A 31 de maio, a ERSE
entregou um documento ao conselho tarifário para se perceber qual a
compensação a pagar e nós estamos a aguardar que se tome uma
decisão.

Não
acha o processo muito moroso?


um momento em que podíamos ter dito às pessoas, mas resolvemos
esperar que a compensação seja definida pelo regulador. A
intervenção da Deco é que acabou por colocar aquela notícia na
primeira página do jornal, com informação que não é rigorosa,
lançando um alarme público que não se justifica numa situação
que estava controlada.

Porque
é que acha que isso aconteceu?

Isso
tem de lhes perguntar. O que ouvi numa entrevista de uma responsável
da Deco é que eles consideram que há um número superior ao que nós
dizemos.

A
Deco diz que perdeu a confiança na EDP…

Não
vejo razão para a Deco não confiar na EDP Distribuição. Tem aqui
uma história de muitos anos e o estudo é uma extrapolação que
chega a um número que me parece abusivo. A nossa posição é esta:
são 30 mil clientes penalizados para os quais vamos esperar que a
ERSE defina os mecanismos de compensação e mais 40 mil que foram
beneficiados mas que nós não vamos incomodar.

E a
Deco deixou de ser confiável?

A
Deco e outras entidades representativas dos consumidores são e têm
sido essenciais na melhoria do sector, mas temos de privilegiar o
espaço da entidade reguladora para discutir as situações. Continuo
a contar com a Deco como parceiro.

Estão
a pensar nalguma ação legal contra a Deco?

Não.
Para já não pensamos nisso.

Os
equipamentos já estão a ser substituídos?

Sim.
Espero que estejam todos até ao final do mês.

Não
podem existir mais casos?

Temos
um rigorosíssimo processo de certificação de contadores. Compramos
a fornecedores certificados aos quais pedimos equipamentos
certificados internacionalmente e, além disso, fazemos testes em
laboratório. Por isso, quanto colocamos um equipamento ele tem toda
esta carga de preocupação e rigor.

Como
se explica o que aconteceu?

Foi
um defeito novo, que não é corrente, que não foi apanhado em
nenhuma destas fases.

Mas
as pessoas podem confiar no contador que têm em casa?

Sim.
Acho que sim. Dou toda a garantia de que as pessoas podem confiar nas
contagens que são produzidas pela EDP Distribuição. A empresa está
organizada para que estas coisas não ocorram, mas não nos livramos
de situações em que um pequeno defeito afeta, neste caso, 0,5% dos
seis milhões de clientes [domésticos].

Porque
é que é a ERSE a dizer quanto os clientes vão receber?

A
definição dos nossos custos e proveitos resulta da regulação e,
portanto, a ERSE é a entidade acertada para encontrar a solução
justa. Qualquer solução por iniciativa exclusiva da EDP corria o
risco de ser considerada menos informada e segura.

A
Deco fala agora de três mil novas queixas. A EDP tem de as analisar?

Isso
é o dia a dia da empresa. Temos um número relativamente moderado de
reclamações de todo o tipo que recebemos anualmente, cerca de 50
mil. E tem descido uns 25% ao ano.

Quanto
é que a EDP perdeu ou ganhou com esta situação?

Terá
de ser a ERSE a definir isso. Há uma proposta entregue ao conselho
tarifário que já tem alguns números.

Não
existe ainda o prejuízo de terem de substituir os contadores?

Nesse
caso estamos a atuar junto dos fornecedores na devida medida.

E os
três milhões referidos?

É
mais um número que aparece [foram mencionados no Correio da Manhã].
Nós temos a nossa estimativa, que entregámos à ERSE, mas os
valores que vão valer são os do regulador e portanto é preferível
esperar pelo parecer do conselho tarifário e pela decisão do
regulador. A nossa estimativa é claramente inferior aos três
milhões.

O
valor vai ser descontado na fatura ou pago à cabeça?

A
ERSE também definirá isso, mas calculo que seja pago à cabeça.

Quanto
tempo é que as pessoas tiveram os contadores a contar mal?

Cerca
de um ano. Há outra avaria um pouco mais antiga, mas o grosso é nos
contadores que começámos a instalar em 2010. Ao contrário do que
foi dito, foi a EDP que descobriu o problema e que sempre disse que
ia assumir o erro.

O que
aconteceu foi apenas um erro infeliz?

Foi
uma questão mínima que ocorreu num conjunto de equipamentos e
achamos que estávamos a fazer o caminho correto para resolver a
questão, até do ponto de vista da comunicação, mas a Deco, que
tem assento no conselho tarifário, não entendeu assim. Lamento e
espero que isto afete de forma mínima a EDP.

Acha
que a Deco deve continuar a ter assento no conselho tarifário?

Acho
que sim. Aí é que é o sítio certo. Não no Correio da Manhã.

Comentários
Outras Notícias que lhe podem interessar
Hoje
Vieira da Silva e Cláudia Joaquim
Fotografia: Leonardo Negr‹ão / Global Imagens

Reformas antecipadas: novas regras vão ser aprovadas “brevemente”

Fotografia: REUTERS

Sector da construção exige o fim do Adicional ao IMI

Fotografia: Rodrigo Cabrita/Global Imagens

Frente Comum recusa fim da reforma obrigatória aos 70 anos

Outros conteúdos GMG
Contadores EDP: “Podíamos ter dito às pessoas, mas esperámos pelo regulador”