Fórum BCE 2018

Convidado de Draghi diz que meta de inflação do BCE já não serve

Larry Summers. Fotografia: BCE
Larry Summers. Fotografia: BCE

Convidado principal é Larry Summers que deixa avisos. Na próxima crise, nacionalismo, populismo e protecionismo podem ser ainda mais violentos.

A meta de inflação que é perseguida pelo Banco Central Europeu (BCE) e outros grandes bancos centrais não parece ser a adequada, disse Larry Summers, o antigo secretário de Estado do Tesouro de Bill Clinton e ex-conselheiro de Barack Obama, na abertura do quinto Fórum BCE, que decorre, como habitualmente, em Sintra, Portugal.

Com taxas de juro atualmente tão baixas e com a ascensão do populismo (e uma referência direta a Donald Trump), os bancos centrais devem começar a pensar em metas de inflação diferentes, talvez superiores a 2%, para terem mais margem de manobra na próxima crise económica. Na opinião de Summers, as economias avançadas continuam a não estar preparadas para aguentar uma nova recessão.

Além disso, o antigo conselheiro dos democratas sugeriu que se complemente a meta da inflação com uma outra: um objetivo para o “pleno emprego máximo”. Aliás, diz mesmo que este objetivo até devia ser prioritário face ao da evolução dos preços.

E vincou que os perigos hoje são reais e piores do que no passado. O nacionalismo económico, o populismo e o protecionismo estão aí, acenou. É preciso sair deste impasse.

A ideia é: se os bancos centrais tolerarem mais inflação ou se focarem mais no crescimento e no emprego, isso pode ajudar a descolar do atual muro das taxas de juro próximas de zero, tendo mais margem para as baixar no futuro para combater uma nova crise, caso seja necessário.

Deixou também um recado direto à Alemanha, que hoje se endivida a taxas muito abaixo de zero, algo que não é normal.

O economista norte-americano, convidado principal do Fórum, que arrancou esta segunda-feira e termina na quarta-feira, elogiou bastante Mario Draghi, o presidente do BCE, e os feitos “extraordinários” da instituição europeia durante e depois da última grande crise, que começou em 2008 como uma crise financeira global, mas depois se transformou numa crise de dívida soberana e económica.

Na edição deste ano do Fórum de Sintra, que é sobre formação e fixação de salários e preços nas economias avançadas, o antigo governante dos EUA, começou por assinalar que na História “houve países sem um banco central, mas até ao BCE nunca existiram bancos centrais sem países”, facto que classificou como um feito notável, mas que provocou muitos risos na audiência.

O banco central da zona euro “é a instituição mais operacional que alguma vez foi inventada pelo ser humano” e “o mundo teve muita sorte em ter Draghi como presidente do BCE” foram alguns dos elogios vertidos por Summers que retribuiu assim palavras de grande apreço do italiano em relação à sua pessoa, poucos minutos antes.

Na sala estavam dezenas de investigadores académicos e altos responsáveis políticos. O Fórum BCE terá um painel de debate (o último deste Fórum) onde irão falar Draghi, Jerome Powell, o novo presidente da Reserva Federal dos Estados Unidos, Haruhiko Kuroda, governador do Banco do Japão, e Philip Lowe, governador do Reserve Bank da Austrália.

Sair da grande “estagnação secular”

Depois dos elogios, Summers passou ao diagnóstico da atual situação (num discurso complexo e longo, todo feito sem recorrer a notas escritas), que a seu ver é bastante problemática para os decisores de política. Continua a falar do espetro da “estagnação secular” e de como sair deste impasse económico que bloqueia as economias mais avançadas.

Fez várias observações. Uma delas foi que a crise financeira, apesar de muito violenta, levou a alterações “extraordinariamente ligeiras” da teoria monetária que é praticada pelos bancos centrais. Na prática, avançou-se com o quantitative easing (QE ou injeção de dinheiro ultra barato, com compras massivas de obrigações do Tesouro e dívida de empresas, mas nada se fez em termos de metas de inflação, que continuam na casa dos 2% a 2,5%, observou.

O economista advertiu ainda para o facto de as taxas de juro reais neutrais (descontando inflação e assumindo as reformas estruturais corretas) terem caído mais do que aquilo que se diz. E que provavelmente a tendência é para que caiam ainda mais do que se reconhece.

Larry Summers desvalorizou também a dívida como causa da grande crise, disse que “o super ciclo da dívida” parece ser mais uma consequência, e apontou o dedo aos governos e aos investidores de mercado por terem tomado opções desadequadas. Os primeiros não fizeram as reformas que deviam ter sido feitas, os segundos estão a fazer agora o que já deviam ter feito antes de as taxas caírem para mínimos.

Além disso, e não menos importante, o mundo enfrenta hoje problemas graves “ao nível da demografia, das pensões, da desigualdade”, acrescentou.

A tal estagnação secular continua a pairar porque os crescimentos estruturais das economias avançadas, como EUA, zona euro ou Japão, continuam a ser fraquíssimos.

E depois a grande dúvida. Com taxas de juro tão baixas como as atuais, como é que o QE pode responder ou baixar mais os juros pode responder a uma nova crise ou recessão?

Avisou, já depois de aludir ao fenómeno Trump, que este é terreno fértil “para o populismo, o protecionismo, para o regresso do nacionalismo económico”.

“Temos hoje uma urgência extraordinária em evitar outra crise” e este pensamento está a associado à ideia de inflação na casa dos 2%.

“Queremos estabilidade de preços, mas também queremos que as taxas de juro próximas de 0% não sejam um problema”, justapôs Larry Summers.

Por isso, “a inflação tem de ser diferente de 2% a 2,5% quando a taxa de juro real neutra é de -1%”. Para mais “a inflação está há décadas abaixo de 2%”, o que prova que o limite deve ser outro, defendeu.

“O sucesso das nossas economias não reflete um sucesso dos mercados, mas sim de um período extraordinário da nossa política monetária”, que está prestes a terminar, avisou.

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