Cosme Vieira sobre o BCE: “Descida dos juros anuncia períodos de crise”

Presidente do Banco Central Europeu surpreendeu o mercado
Presidente do Banco Central Europeu surpreendeu o mercado

O Banco Central Europeu surpreendeu ontem o mercado ao anunciar um novo corte na taxa de juro diretora, para o mínimo histórico de 0,05%, e apresentar um novo plano de compra de ativos não financeiros para reativar a banca e consequentemente a economia.

Leia aqui o comentário do professor Pedro Cosme Vieira:

A baixa taxa de inflação que atualmente se observa na zona euro resulta da forma como o euro evoluiu entre 1992 e 2008. Como nesses 16 anos iniciais os países do Sul da Europa persistiram em ter taxas de inflação acima da meta dos 2% ao ano, os países do Norte da Europa consolidaram-se nos 1,5% ao ano. Este diferencial desequilibrou as economias europeias, pelo que, em 2008, foi necessário iniciar uma trajetória de inversão do problema que atualmente faz que os países do Sul tenham de ter taxas de inflação inferiores às dos países do Norte.

O problema que se está atualmente a observar é que os países do Norte não saem dos 1,5% ao ano e, por isso, os países do Sul veem-se obrigados a ter taxas de inflação negativas, o que arrasta a média na zona euro para valores próximos de zero. Este dado não é grave mas precisa ser corrigido porque se afasta muito do objetivo de política monetária.

O BCE poderia facilmente resolver a situação imprimindo notas sem contrapartida e dando-as diretamente aos Estados para que estes as gastem em despesa pública. O problema é que, apesar da taxa de inflação estar baixa, como há muitas notas em circulação, o BCE antecipa elevados riscos de a inflação poder disparar.

Quanto à nossa economia, não se pode antecipar qualquer efeito significativo das medidas anunciadas porque a dimensão dos estímulos monetários é sempre, em termos líquidos, diminuta em comparação com a dimensão do mercado de crédito – um euro de estímulos monetários compara com mil euros de crédito. E se as medidas em si não têm efeito, o lado negativo é que, pelo dados históricos, a descida das taxas de juro dos bancos centrais anunciam sempre um próximo período de crise.

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