Economia

Costa pede mais reformas a Costa

Carlos Costa, governador do Banco de Portugal.
(Ângelo Lucasl / Global Imagens )
Carlos Costa, governador do Banco de Portugal. (Ângelo Lucasl / Global Imagens )

O supervisor entende que o país deve aproveitar o crescimento da economia para corrigir debilidades face ao abrandamento internacional.

O caderno de encargos é para o próximo governo. A atual conjuntura de crescimento económico de Portugal “insere-se num contexto de deterioração do enquadramento internacional e de elevada incerteza”, começa por assinalar o Banco de Portugal, liderado por Carlos Costa, no Boletim Económico de outubro publicado ontem, para logo a seguir deixar uma sugestão em forma de desafio ao governo de António Costa. “Este momento deve ser entendido como uma janela de oportunidade para reforçar políticas e reformas estruturais que contribuam para a correção de algumas das principais debilidades da economia portuguesa”.

Refere em concreto, “os progressos em termos de capital humano, capital por trabalhador e enquadramento institucional”, entendidos como “cruciais para promover uma retoma duradoura e expressiva da convergência dos níveis de rendimento dos portugueses para a média europeia, mas também para assegurar a resiliência e reduzir a exposição e vulnerabilidade da economia a riscos externos”, os mais preocupantes para o Banco de Portugal.

Aliás, no documento não são assinalados quaisquer riscos internos para a evolução da economia. Desta vez todos os problemas parecem vir de fora: das guerras comerciais entre os Estados Unidos a China e a Europa; do Brexit sem acordo e do agravamento das tensões geopolíticas, para além da “desaceleração cíclica da economia nos principais mercados de exportação.” De recordar que 70% das exportações portuguesas têm como destino economias que enfrentam ou se prevê que enfrentem um abrandamento económico ou mesmo recessão.

PIB aguenta-se

Nas previsões conhecidas ontem, o Banco de Portugal aponta para um crescimento da economia de 2%. Um valor revisto em alta, face às projeções de junho e ligeiramente acima da previsão de Mário Centeno, que aponta para uma expansão de 1,9%.

Esta “inesperada” revisão em alta acontece por força de outra revisão. O Instituto Nacional de Estatística publicou em setembro uma nova série do PIB que tem por base 2016 e que fez “crescer” o PIB. Portanto, as novas projeções já incorporam esta informação.

O Banco de Portugal sublinha que a economia vai continuar a crescer, pelo sexto ano consecutivo, e “é superior em 0,9 pontos percentuais” face às estimativas do Banco Central Europeu para a zona euro. Ou seja, Portugal vai continuar a convergir, o que acontece desde 2016.

Todas as componentes do PIB contribuem para o bom desempenho. As exportações vão crescer 2,3% (3,8% em 2018), as importações 4,6% (menos 1,2 pp do que em 2018). O investimento deverá subir 7,2% depois de um crescimento de 5,8% no ano passado, impulsionado pela construção (com investimento público em grandes infraestruturas).

O consumo privado deverá crescer 2,3%, moderando a evolução do ano anterior (3,1%).

Emprego cresce, mas menos. Salários sobem

O Banco de Portugal aponta para uma evolução positiva do mercado de trabalho que já vem desde 2013, mas o ritmo abranda. O emprego deverá aumentar 0,9% (menos 1,4 pp do que no ano anterior). A taxa de desemprego deve manter uma trajetória de descida, atingindo os 6,4% em 2019, duas décimas abaixo das previsões do Ministério das Finanças.

Na análise levada a cabo pelo Banco de Portugal, o “aumento do emprego tem-se centrado nos trabalhadores mais qualificados”. Por outro lado, a “diminuição do emprego nos níveis mais baixos de qualificação é uma tendência que se verifica desde 2002”. Os contratos a termo mantêm um crescimento superior aos restantes vínculos laborais.

Os trabalhadores estrangeiros têm contribuído para este crescimento, contrariando os efeitos negativos do envelhecimento da população sobre a população ativa. De resto, são eles que têm travado a queda mais acentuada da população em condições de trabalhar, sendo que os estrangeiros são mais jovens, mais qualificados e mais ativos, ou seja, têm mais disponibilidade para trabalhar do que os portugueses nas mesmas condições.

Em relação aos salários, o Banco de Portugal prevê uma aceleração, “num contexto de redução dos recursos disponíveis no mercado de trabalho”, ou seja, falta de pessoal.

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