Covid empobrece Portugal. É o 30.º pior caso em 193 países do mundo

Embate da pandemia na riqueza por habitante em Portugal é dos mais pesados do mundo. Economia nacional desce um lugar num ranking do FMI no qual mais de 95% dos países empobrecem em 2020.

O Fundo Monetário Internacional (FMI) atualizou a sua enorme base de dados que abarca quase todo o mundo, perto de 200 países (Panorama Económico Mundial ou World Economic Outlook). De acordo com um levantamento feito pelo Dinheiro Vivo, Portugal regista o 30.º maior empobrecimento por habitante, entre 2019 e 2020, num universo de 193 territórios.

Causa: a pandemia e as medidas de confinamento que empurram a economia portuguesa para a segunda pior recessão desde 1928 (quando se registou um colapso de 9,7%, segundo o Banco de Portugal). Neste ano, a atividade deve quebrar 8,5%, segundo o governo. O FMI diz menos 9,3%.

O indicador usado para aferir o empobrecimento real dos portugueses é o produto interno bruto (PIB) per capita, a preços constantes e em paridades de poder de compra, uma medida que permite comparar diretamente os países, apesar das diferenças de preços e de nível de vida.

Em Portugal, mostram os números do FMI, revelados em outubro, o empobrecimento per capita registado em 2020 foi um dos mais adversos da História moderna.

A esmagadora maioria das 193 economias sofreram o choque da pandemia, mas em Portugal foi tal o efeito que o país desceu uma posição: em 2019 era a 43.ª economia mais rica: neste ano, ocupa a 44.ª posição, sendo ultrapassado pela Polónia.

De acordo com o outlook do FMI, a riqueza produzida neste ano, em Portugal, dividida por habitante, desce, em média, mais de 31,3 mil dólares. Em euros, ao câmbio atual, dá menos 2900 euros anuais per capita; menos 242 euros de riqueza por mês. Esta quebra é a 30.ª mais pesada no universo dos tais 193 países analisados pelo FMI.

Recorde-se que a medida usada é o PIB per capita corrigido para refletir o poder de compra real de cada país.

Este PIB resulta do somatório de consumo (privado e público), investimento e exportações subtraídas pelas importações (ótica da procura). Alternativamente, o PIB também pode ser apurado através da soma do valor acrescentado de cada um dos setores (agricultura, indústria e serviços). É a ótica da oferta.

Em termos relativos, o embate também é significativo. O PIB per capita português recua 10% neste ano de 2020, a 40.ª maior descida no mundo, ex-aequo com o México e França, mostram os cálculos do DV.

O caso de Portugal

O caso português tem sido bastante analisado devido às características do país. Está na zona euro, é muito endividado (a nível público e privado), mas beneficia de uma almofada de proteção crucial, a política de taxas de juro zero do Banco Central Europeu.

É ainda, segundo o FMI e a Comissão Europeia, uma economia pouco produtiva, carente em investimento (que esteve em falta durante décadas) e demasiado vulnerável ao turismo. Com a pandemia e a interrupção dos movimentos globais, foi imediato o embate negativo na atividade nacional, nos salários dos menos qualificados e no emprego.

Alfred Kammer, diretor do departamento europeu do FMI, nota que "Portugal tem uma grande indústria turística", "isso significa que haverá efeitos domésticos".

"Portugal está muito vulnerável às restrições nas viagens nos outros países. Por isso, o turismo é um dos setores que temos estudado de perto para ver como o país será afetado."

Além disso, o responsável do Fundo lembra "os desenvolvimentos em Espanha, que afetam também a evolução económica portuguesa". Espanha é o maior parceiro económico, em investimento e exportações.

Segundo o ranking do empobrecimento, Espanha aparece como o 10º caso mais agreste em 2020.

"Nas nossas projeções, assumimos uma recuperação mais gradual do que a do governo português para o segundo semestre, mas depois projetamos também uma recuperação mais forte em 2021. São diferenças marginais, mas há muita incerteza em relação a todos os números de que estamos a falar", refere o chefe do departamento europeu do FMI.

95% do mundo empobrece

Portugal compara mal, mas o panorama global é sombrio. Pelas contas do DV, 184 países dos tais 193 escrutinados (portanto, mais de 95%) vão empobrecer em termos de PIB per capita, este ano.

Macau, uma economia fortemente dependente do turismo e da indústria do jogo, lidera a lista da desvalorização do PIB por habitante. A seguir, Líbia, Luxemburgo, San Marino e Singapura.

Do outro lado da lista, apenas nove dos 193 conseguem avançar neste ano. Mas na maior parte destas economias o ponto de partida no PIB per capita já era baixo ou extremamente baixo. São elas: Guiana, Timor-Leste, China, Egito, Vietname, Myanmar (Birmânia), Turquemenistão, Sudão do Sul e Etiópia.

Top 10 e bottom 10

Claro que, mesmo descontando o embate brutal da pandemia, haverá sempre ricos e pobres. No top 10 dos mais abonados por habitante aparecem, por esta ordem: Luxemburgo, Singapura, Qatar, Irlanda, Suíça, Noruega, Estados Unidos, Brunei Darussalam, Macau e Emirados Árabes Unidos.

No fundo da tabela, só há países africanos. Por ordem, os dez mais pobres do globo são o Burundi, o Sudão do Sul, a República Centro-Africana, a República Democrática do Congo, o Malawi, Níger, Moçambique, a Libéria, Chade e o Togo.

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