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Covid19. “Bazuca financeira tem de fazer mira à economia, desigualdades e clima”

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É preciso estratégia e "evitar criar campeões nacionais à força, apoiar os incumbentes ou empresas datadas", diz Jorge Moreira da Silva.

O Diretor da Cooperação para o Desenvolvimento na OCDE diz que já é um “veterano” em alterações climáticas. Jorge Moreira da Silva é especialista internacional nessa área, bem como em energia, desenvolvimento sustentável e ajuda ao desenvolvimento. Tem 49 anos e tem três filhos. Está preocupado, precisamente, com o que os cidadãos vão deixar às próximas gerações e pede aos líderes para aturam, sem esquecer que a globalização é precisa.

A crise provocada pela Covid19 vai precisar de uma resposta global?

É do interesse de todos que uma crise global possa beneficiar de uma resposta global, na medida em que estamos todos ligados e conseguimos perceber que as cadeias de valor estão absolutamente interligadas. Se precisávamos de um stress test à globalização, foi feito! Está visto que precisamos da globalização. Sem mercado global, sem uma circulação de bens, serviços e de capital e sem uma integração de tecnologia não conseguimos ter uma economia global florescente.
Há também que ter noção da escala. Apenas nas últimas semanas, foram apresentados pacotes de estímulo financeiro para a economia na ordem de 11 biliões de dólares. Qual é o valor da ajuda pública ao desenvolvimento? É 153 mil milhões de dólares e os países estão hoje hesitantes em aumentar a ajuda pública ao desenvolvimento para os países mais pobres…
Repare a ordem de grandeza: de um lado temos um pacote de 70 biliões para a recuperação económica dos países mais ricos, criado por governos dos países mais ricos, e do outro lado temos um nível de apoio aos PVD de 153 mil milhões. Estamos a falar de 70 vezes menos do que os pacotes criados nas últimas semanas.

Haverá recursos financeiros disponíveis hoje para ajudar mais os PVD?

Temos de ter noção de que não se está a pedir muito, está a pedir-se um esforço de cooperação que é decisivo, num momento em que a bazuca financeira – usando a expressão de Mário Draghi – tem de estar orientada na só para a crise económica mas também alinhada com outras duas crises. Se quisermos fazer mira com a bazuca, convém que ela esteja alinhada com a crise económica, mas também com as desigualdades e as alterações climáticas. Não vamos ter muitas oportunidades de juntar recursos financeiros para acudir a várias crises e este é o momento da verdade.

Porque diz que apesar da crise este é o momento da verdade? E será que os políticos, os governantes, estão conscientes disso?

É saber se vamos querer, a correr e sem pensar muito, olhar apenas para o conta quilómetros da despesa e ir gastando, à medida que vem o financiamento europeu e os pacotes do Banco Mundial, ou saber se vamos ter um sentido estratégico percebendo que esta pode ser uma das últimas oportunidades que temos ao nosso dispor nos próximos anos, sabendo que as condições da dívida e de apoio económico nos próximos anos podem não vir a ser as mesmas que estão a ser neste momento, para orientar esse financiamento para a descarbonização da economia, para a digitalização, o investimento no conhecimento, empreendedorismo e inovação e o combate às desigualdades.
Este é o momento da politica, não é o momento do financiamento apenas. Não é o momento do mealheiro. É o momento em que ao financiamento tem de estar associado um pacote, não só em Portugal mas em termos gerais, de reformas estruturais que possam enfrentar esta mas também outras crises.

Defende a importância das lideranças políticas. Portugal e a Europa têm as lideranças de que precisam enfrentar esta crise?

Não vou olhar para qualquer liderança especifica. Em relação à Europa estou satisfeito com a circunstância da UE ter tido uma solução comum e coordenada, esse foi o momento definidor da UE, ou seja, perceber que não era o momento para estar a esgrimir argumentos sobre risco moral quando neste caso estamos a falar de um pandemia que afetou todos os países.
Acho que foi importante que a UE tivesse tido a liderança que permitiu apontar para este pacote financeiro de 750 mil milhões de euros, como também me parece que a resposta que vai sendo dada de todos os países tem sido coordenada.
Há sempre muitas críticas ao multilateralismo, mas ele fez-se sentir. Houve uma partilha de informação e também um conjunto de decisões tomadas pelo G20 quanto ao alívio do serviço da dívida que foi importante, pacotes do Banco Mundial e do FMI que foram lançados e das Nações Unidas. Acho que houve solução concertada e coordenada.
Vejo apenas um risco nesta resposta que está a ser dada, é o de ficarmos pela mera financeirização da resposta. Esse risco é muito evidente numa situação de emergência em que se quer tomar decisões o mais depressa possível e dar sinais às pessoas de que se estão a gastar.

Não basta deitar dinheiro em cima da fogueira, é isso? O que pode fazer-se mais?

É necessário definir em cada país, e em Portugal, uma estratégia de médio e longo prazo de crescimento sustentável. Logo no início do memorando de entendimento para o resgate a Portugal, criei um think tank com a designação de Plataforma para o Crescimento Sustentável. Se este já era necessário nessa altura, ainda é mais necessário agora.
Crescimento sustentável pressupõe que se olhe além da dimensão económico e se integre a dimensão social e ambiental, que se olhe para outros motores além do financiamento e que as reformas estruturais que possam fazer parte das soluções para enfrentar os problemas e pressupõe compromisso e inovação. Nós não vamos ter muitas oportunidades nos próximos anos de injetar novas fontes de financiamento na economia. Este é um momento único.
A forma como alocarmos o financiamento vai ser decisiva. A forma como alocarmos o financiamento vai ser decisiva, vamos ter vencedores e vencidos. A seletividade, reprodutividade e inovação do investimento é decisiva, evitando criar campeões nacionais à força, evitando apoiar os incumbentes ou salvar a todo o custo empresas que possam estar datadas, não ter os recursos suficientes que são imprescindíveis para o apoio a empresas de valor acrescentado, não olhar para os nossos talentos e as nossas infraestruturas. Investimento seletivo, produtivo e inovador e reformas estruturais são decisivas.
Num momento definidor como este é importante pensar de uma forma inovadora, mas também com sentido de compromisso. Porquê? Porque isto vai durar muito tempo, todos temos noção que a resposta à crise vai transcender governos em cada país.

 

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