Dinheiro Vivo TV

Covid19. “Esta crise, comparada com a das alterações climáticas, é mais simples”

A carregar player...

Jorge Moreira da Silva acredita que o que vivemos em pandemia pode ser uma vacina para lidarmos com outras crises.

A pandemia era o risco número um mundial temido por organizações como a OCDE?

Acho que esta crise pode ser uma vacina para outras crises. Se me perguntasse há seis meses se era possível uma pandemia, claro que sim, fazia parte da lista de riscos que todos enunciávamos em relatórios internacionais. Mas se perguntar se esse era o maior risco, não era!

Qual era o risco número um?

O risco climático era o número um, seguidos de riscos associados aos conflitos – que pesam 14 biliões de dólares (12,4 biliões de euros), com 65 milhões de pessoas forçadas a sair dos seus países e 25 milhões de refugiados, e outros riscos como cibercrime e ciberterrorismo.
Esta crise, da qual nos queremos livrar o mais depressa possível, tem uma vantagem e temos de olhar para as crises também como uma oportunidade: a vantagem de pensarmos os riscos, a natureza das crises.
Há um grande paralelo entre esta crise e a crise climática, porque é uma crise global, em que existe uma notória interdependência, começando na China e rapidamente se alastrou a todo o mundo. É uma crise cuja resposta precisa de ciência, precisa de instituições fortes e que acabam por dar confiança (DGS, OMS) e precisa de a mudança de comportamentos. Existe um paralelo com a mudança climática. Consumir e produzir diferente e melhor, reduzir as emissões, utilizar menos energia.
Esta crise, na lista das crises não seria aquela mais provável. Olhemos para esta crise como a vacina para nos prepararmos para as outras crises e, por exemplo, olharmos para o duplo dividendo do investimento em algumas áreas.

Duplo dividendo em que áreas, por exemplo?

Investir na saúde não significa gastar, mas criar resiliência a prepararmo-nos para estarmos à altura das pressões que uma pandemia ou qualquer outra crise possa colocar. Investir na energias renováveis ou no ordenamento do território e na adaptação às alterações climáticas não significa gastar mas proteger o território, mitigar o risco de alterações climáticas com um dividendo ambiental mas também dividendo económico. Esta noção de duplo dividendo, começou a ser mais notório com esta crise.
Hoje a população está mais consciente do mundo global, da interdependências, interdisciplinaridade, da resiliência, da prevenção, da mitigação e esses elementos são decisivos para nos equiparmos para as próximas crises.

Acredita mesmo nisso?

Como sabe sou um veterano das alterações climáticas, tema no qual trabalho há 25 anos, e esta crise comparada com a crise das alterações climáticas, – e sei que o que vou dizer pode ser mal interpretado -, é, apesar de tudo, mais simples, porque nós sabemos como lidar com esta crise. Sabemos que pode demorar algum tempo, tem custos, mas o confinamento e o distanciamento social têm o efeito imediato para travar a crise e livrarmo-nos do vírus. No caso das alterações climáticas, quando enfrentarmos a mudanças climáticas, é a fatura do que fizemos lá atrás, não vamos a tempo de confinar, de ter distanciamento social, mudar comportamentos.

Como sair então com esta crise pandémica?

Só há duas formas de sairmos disto, ou mais solidários e mais verdes, ou não saímos. O grande dilema é queremos recomeçar ou começar de novo. Recomeçar é esperar que a pandemia passe e voltar a fazer tudo como antes, com o financiamento que possa estar disponível e, o mais depressa possível, voltar ao velho normal; já um novo começo significa que já estávamos fora da trajetória adequada e, portanto, vamos começar de novo e com um novo modelo de desenvolvimento. E eu tenho, apesar de tudo, a esperança termos um novo começo e não um mero recomeço.

Que lições retira desta crise, em termos pessoais?

Dirijo 200 pessoas e tenho feito uma grande discussão com os meus colegas sobre as lições que tiramos da crise, enquanto grupo, organização e a título individual. O teletrabalho, claramente, veio para ficar e vamos viajar menos. Em relação a mim próprio, não são necessárias tantas viagens de trabalho, tendo mais qualidade de vida e menos emissões. 50% do meu tempo é viajar por muitos países da OCDE e PVD e em conferências internacionais, ora esse número de conferências e reuniões não diminuiu, pelo contrário, aumentou e foram feitas de forma individual. Mas é o mesmo? Não, não é, em especial quando se trata de negociações. Sinto que numa negociação, sobre um determinado dossier, o body language conta. Não é suficiente fazermos um discurso e ouvirmos os outros discursos. Há uma dimensão informal na negociação que me falta. Mas na maior parte dos casos não estamos a falar de negociações, mas de reuniões, de lançamento de relatórios e foi possível fazer isso, trabalhando tanto ou ainda mais do que antes, sem emitir os gases com efeitos de estufa do passado.
A minha pegada de carbono é muito melhor e o meu objetivo é não regressar ao velho normal, estando enfiado num avião mais de metade do meu tempo!

Comentários
Outras Notícias que lhe podem interessar
Outros conteúdos GMG
Hoje
Ilustração: Vítor Higgs

Indústria têxtil em força na principal feira de Saúde na Alemanha

O Ministro das Finanças, João Leão. EPA/MANUEL DE ALMEIDA

Nova dívida da pandemia custa metade da média em 2019

spacex-lanca-com-sucesso-e-pela-primeira-vez-a-nave-crew-dragon-para-a-nasa

SpaceX lança 57 satélites para criar rede mundial de Internet de alta velocidade

Covid19. “Esta crise, comparada com a das alterações climáticas, é mais simples”