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Criação de emprego em 2018 afunda para menos de metade

António Costa, primeiro-ministro, numa visita à Sonae Arauco, em Mangualde. Fotografia: ANDRÉ FERREIRA/LUSA
António Costa, primeiro-ministro, numa visita à Sonae Arauco, em Mangualde. Fotografia: ANDRÉ FERREIRA/LUSA

Emprego aumentou 1,4% no final de 2018 face a 2017. É o ritmo mais fraco desde 2014 (0,7%), ano da proclamada “saída limpa” do programa da troika.

A criação de emprego na economia portuguesa continua, mas a um ritmo dramaticamente mais baixo. A travagem em 2018 é explicada pelas crescentes incertezas que pairam sobre a conjuntura externa, pela degradação da confiança das famílias e pelas dúvidas dos empresários relativamente aos seus investimentos.

De acordo com dados ontem divulgados pelo Instituto Nacional de Estatística (INE), Portugal criou 66 mil novos empregos ao longo do ano, apenas 40% dos valores de 2017, quando foram criados mais de 167 mil postos de trabalho, um dos maiores acréscimos de que há registo.

Os valores mensais do emprego apurados pelo INE utilizados neste artigo são não ajustados de sazonalidade, tal como os do inquérito ao emprego que faz o balanço por trimestre e que será publicado na próxima quarta-feira.

Os valores relativos a dezembro são “provisórios”, isto é, podem ainda ser revistos, mas não trarão grandes mudanças a estes cálculos.

Como referido, a criação líquida de emprego em 2018 afunda para menos de metade face à de 2017. E a expansão do emprego total também trava a fundo. Em dezembro de 2018, o aumento do número de postos de trabalho foi de 1,4% face a igual mês de 2017. Um ano antes, o ritmo era mais do dobro (3,7%). Esta subida de 1,4% é a mais fraca desde 2014 (0,7%), o ano da proclamada “saída limpa” do programa de ajustamento da troika.

A economia portuguesa emprega atualmente 4,8 milhões de pessoas, mas o INE também mostra que desde junho (quando o emprego chegou ao valor mensal mais elevado desde o início de 2009) o volume total tem vindo a cair, mês após mês.

Criação de emprego NET

Desemprego parou de descer

A maior moderação na expansão do número de postos de trabalho terá já algum reflexo no andamento da própria taxa de desemprego e no volume do desemprego, que estão no final de um ciclo de descidas que já ia longo.

O INE revela que, desde setembro, as fileiras do desemprego têm vindo a engrossar. O valor provisório de dezembro refere que no país haverá cerca de 354 mil pessoas sem trabalho, ou seja, mais 14 mil do que no final do terceiro trimestre (setembro).

Segundo os valores oficiais, mas ajustados da sazonalidade, a taxa de desemprego interrompeu o referido ciclo de descidas na reta final de 2018. Estava a cair há seis anos, desde finais de 2012.

Em novembro de 2018, a taxa de desemprego subiu ligeiramente para 6,7% da população ativa, “mais 0,1 pontos percentuais (p.p.) que o valor do mês anterior”, diz o INE.

Em dezembro, a estimativa provisória mostra que a taxa estabilizou. Ficou em 6,7%, “mantendo-se inalterada em relação ao mês anterior”.

A intensidade do desemprego aumentou em novembro (valores definitivos) sobretudo porque há mais adultos (25 a 74 anos) atingidos pelo problema.

De acordo com o INE, 5,5% dos adultos ativos estava sem trabalho em outubro, valor que subiu para 5,7% em novembro e para 5,8% em dezembro (provisório).

Os mesmos dados corrigidos, evidenciam que o fenómeno do desemprego estabilizou entre a população masculina, mas não entre as mulheres. O desemprego feminino subiu para 7,1% em outubro, 7,3% em novembro e 7,4% em dezembro. Nos homens foi 6,1%, 6,1% e 6%, respetivamente.

Já o desemprego jovem continuou a descer. Cerca de 20,7% das pessoas com idades dos 15 aos 24 anos estava sem trabalho em outubro. A taxa caiu para 19,3% em novembro e 17,6% em dezembro.

Algumas razões para o arrefecimento

O mesmo INE fornece informações concretas sobre as razões que ajudam a explicar este arrefecimento do emprego.

A maioria dos empresários e gestores de topo ouvidos no inquérito de conjuntura de dezembro mostrou-se menos otimista quanto à criação de emprego.

Como noticiou o Dinheiro Vivo no início deste mês, quase 70% dos decisores ouvidos (cerca de 3200 gestores da indústria, comércio e da construção) indicaram que, embora planeiem reforçar o número de postos de trabalho, pensam fazê-lo a um ritmo mais modesto face ao que acontecia em meados de 2018, por exemplo.

A situação mais débil acontece na indústria, onde o indicador oficial mostra que a tendência de queda dura já há oito meses consecutivos. Mas os outros setores da economia também denotam problemas. O sentimento mais positivo que existia na construção e das obras públicas, em outubro, desvaneceu: o indicador está a cair desde essa altura.

Ontem, o INE divulgou os dados do sentimento económico relativos a janeiro, onde este tipo de dúvidas se prolonga.

“O enquadramento externo está na origem dos principais fatores de risco e incerteza” que condicionam a economia portuguesa e a sua evolução, afirma o Banco de Portugal.

A confusão do Brexit, em que não se sabe ao certo se vai haver acordo ou não com a União Europeia, as turbulências no comércio internacional (relação cada vez pior entre EUA e China, por exemplo) são alguns dos fatores que limitam já a confiança empresarial.

Além disso, há sinais de que em Portugal, o turismo está a gerar menos retorno e que o investimento público, embora esteja a crescer, ficou muito abaixo do prometido no ano passado, condicionando diretamente o investimento privado e o emprego.

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