Cristina Casalinho: “É possível que taxas negativas persistam”

Cristina Casalinho, presidente do IGCP
Cristina Casalinho, presidente do IGCP

Portugal passou, desde esta semana, a fazer parte do clube de países da zona euro que vão ao mercado financiar-se a taxas negativas. O feito histórico foi alcançado na emissão de Bilhetes do Tesouro (BT) com prazo a seis meses, com o IGCP a obter pela primeira vez um juro negativo: -0,002%.

Na prática, isto significa que os investidores estão dispostos a perder dinheiro, uma vez que pagam agora um preço que é mais elevado do que o valor que vão receber em novembro, data da maturidade da dívida. Contas feitas, a agência que gere a dívida pública presidida por Cristina Casalinho emitiu ontem 1,5 mil milhões de euros, o montante máximo previsto, em títulos de dívida com prazos a seis e a 12 meses.

Em declarações ao Dinheiro Vivo, a presidente do IGCP atribui o juro negativo ao “ambiente de taxas muito baixas que se vive na Europa em resultado da política monetária adotada pelo BCE”. Cristina Casalinho defende que existe “muita liquidez no mercado monetário” mas “poucas alternativas interessantes de instrumentos de aplicação de fundos”. E, mantendo-se o atual ambiente criado pelo BCE, a responsável admite que a tendência de taxas negativas “persista”.

Na sua opinião, quais os motivos que explicam o juro de -0,002%?

O motivo que explica a taxa negativa é o ambiente de taxas muito baixas que se vive na Europa em resultado da política monetária adotada pelo BCE (descida das taxa de depósito para valores negativos e a execução do programa de compra de dívida pública). Esta realidade nos prazos até um ano já se observa noutras economias periféricas e nos países do centro da Europa já registam taxas negativas em prazos até 3 anos (na Alemanha, já estiveram pontualmente taxas negativas nos 5 anos e próximo de zero nos 10 anos). Este fenómeno já se antecipava, porque nos últimos leilões de títulos a três e seis meses já tinha existido propostas a taxas negativas, embora não fossem suficientes para a taxa média e/ou de corte ser negativa.

O que significa e como interpreta esta taxa negativa?

Significa que existe muita liquidez no mercado monetário e que existem poucas alternativas interessantes, em termos de risco e remuneração, de instrumentos de aplicação de fundos. Só pelo excesso de liquidez e a limitação de alternativas de aplicação de fundos é se entende que os investidores estejam dispostos a pagar para aplicar os seus fundos no curto prazo. Provavelmente as alternativas que oferecem taxas mais elevadas tenderão a ser percecionadas pelos investidores como tendo um nível de risco que os intervenientes de maior dimensão no mercado monetário não estão disponíveis para aceitar. Recorde-se que os maiores participantes neste mercado tendem a ser bancos centrais e fundos soberanos.

É expectável que este comportamento se mantenha nos próximos leilões? Porquê?

Mantendo-se o atual ambiente de taxas de juro no curto prazo, é possível que esta tendência persista. Contudo, dado o recente crescimento económico e o regresso da inflação a patamares positivos, a aproximação do final do QE deverá implicar subida de taxas como se pode já observar no longo prazo.

O IGCP poderá alterar os seus planos de financiamento tendo em conta a recente evolução das taxas de juro?

Não. O plano original mantém-se.

Comentários
Outras Notícias que lhe podem interessar
Hoje
EDP_ENGIE2

EDP e Engie vão investir até 50 mil milhões para liderarem eólicas no mar

EDP_ENGIE2

EDP e Engie vão investir até 50 mil milhões para liderarem eólicas no mar

Da esquerda para a direita: Ricardo Mourinho Félix, secretário de Estado das Finanças, Angel Gurría, secretário-geral da OCDE, e Pedro Siza Vieira, ministro da Economia. Fotografia: Diana Quintela/Global Imagens

OCDE. Dinamismo das exportações nacionais tem o pior registo da década

Outros conteúdos GMG
Conteúdo TUI
Cristina Casalinho: “É possível que taxas negativas persistam”