Coronavírus

CT da Renault Cacia acusa empresa de só penalizar os trabalhadores

Fotografia: D.R.
Fotografia: D.R.

Trabalhadores referem que paragem vai ser assegurada até final de abril com recurso a férias do pessoal, banco de horas e lay-off.

A Comissão de Trabalhadores (CT) da Renault Cacia, em Aveiro, acusa a empresa de não assumir as suas “responsabilidades sociais” no âmbito da pandemia, penalizando quase exclusivamente os funcionários com a decisão de suspender a produção.

“Os 12 dias de paragem, do dia 18 até ao dia 29 de março, devido à situação atual de pandemia da covid-19, foram exclusivamente retirados dos trabalhadores [mediante o gozo de dias de férias e de bolsa de horas], por perceberem que esta se trata de uma fase complexa. Esperançosos, aguardávamos que a empresa assumisse igualmente as suas responsabilidades sociais, mas infelizmente assim não aconteceu”, sustenta a CT em comunicado.

Segundo explica, face à necessidade de prolongamento da suspensão da produção, a administração da Renault Cacia “não quis discutir as propostas apresentadas pela CT”, tendo decidido “unilateralmente que os dias 30 e 31 de março serão de paragem para a bolsa de horas e, do dia 1 a 30 de abril, aplica o lay-off [suspensão temporária do contrato de trabalho]”.

Uma decisão que “não tem o acordo da CT”, que “mantém em vigor o pré-aviso de greve à bolsa de horas e ao trabalho extraordinário”, sublinha.

Para a CT, “esta atitude é altamente reprovável e lamentável para uma empresa que tem milhões de euros de lucro e faz (e bem) publicidade de doação de máscaras para o Hospital de Aveiro, mas, por outro lado, não se preocupa em empobrecer quem lhes produz riqueza”.

No comunicado emitido hoje, a estrutura representativa dos trabalhadores recorda que, quando foi inicialmente decidida a paragem da produção para fazer face à pandemia, percebeu que não podia “ser inflexível numa situação delicada como esta”.

Assim, e “perante os vários apelos e medos dos trabalhadores”, decidiu, numa “posição ponderada”, aceitar as condições apresentadas pela empresa, demonstrando o seu “empenho na defesa dos trabalhadores e da empresa nos momentos menos bons”.

Contudo, sustenta, e face ao cenário de prolongamento da suspensão da produção, na passada quarta-feira a empresa apresentou aos trabalhadores “várias propostas que consistiam em retirar, novamente, dias de férias e de banco de horas”.

A estas, a CT diz ter respondido com “três propostas completamente distintas, realistas e fundamentadas para resolver o problema, com o menor prejuízo possível para ambas as partes”.

“A primeira proposta seria que a administração, para evitar a propagação da pandemia, pedisse a intervenção do delegado de saúde para a implementação da quarentena profilática a todos os trabalhadores por 14 dias, pagos a 100% pela Segurança Social”, avança.

“A segunda proposta era que a empresa assumisse o pagamento do salário a 100% na paragem de produção do dia 30 de março ao dia 6 de abril, porque os trabalhadores já tinham utilizado os seus próprios dias de férias e banco de horas”, enquanto a terceira proposta era que, “caso a empresa entrasse em regime de ‘lay-off’, fizesse o pagamento da diferença entre os dois terços que os trabalhadores têm direito a receber e o seu salário completo”.

A CT defende que as propostas são fundamentadas “no enorme resultado líquido obtido em 2017 e 2018 [pela empresa], nos inúmeros benefícios fiscais concedidos pelo Estado que a empresa irá receber neste período e na economia nos gastos de água e energia, entre outros”.

Contudo, a estrutura representativa dos trabalhadores da Renault Cacia diz que “a administração não quis discutir estas propostas e, unilateralmente, decidiu que os dias 30 e 31 de março serão de paragem para o banco de horas e, do dia 01 a 30 de abril, aplica o ‘lay-off’”.

“A administração terá de assumir as suas responsabilidades pois, com esta decisão, fica demonstrado que não tem respeito pelos trabalhadores, que foram os primeiros a sacrificarem-se e que deram dos seus dias para que a empresa pudesse parar”, remata.

O grupo Renault anunciou em 17 de março a decisão de parar, no dia seguinte, a produção da sua fábrica em Cacia, Aveiro, devido à pandemia da covid-19.

“Face à atual situação de disseminação do coronavírus e tendo como prioridade máxima a segurança dos seus trabalhadores, o grupo Renault decidiu suspender a produção da fábrica Renault Cacia, a partir das 06:00, de 18 de março. Esta decisão foi já comunicada às organizações sindicais”, referiu na ocasião a empresa em comunicado.

O novo coronavírus, responsável pela pandemia da covid-19, já infetou mais de 600 mil pessoas em todo o mundo, das quais morreram quase 28.000.

Depois de surgir na China, em dezembro, o surto espalhou-se por todo o mundo, o que levou a Organização Mundial da Saúde a declarar uma situação de pandemia.

Em Portugal, segundo o balanço feito hoje pela Direção-Geral da Saúde, registaram-se 100 mortes, mais 24 do que na véspera (+31,5%), e registaram-se 5.170 casos de infeções confirmadas, mais 902 casos em relação a sexta-feira (+21,1%).

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