Economia

Daniel David:”Há oportunidades em Moçambique para quem puder investir e esperar”

Daniel David no debate do Growth Forum, organizado pela CCIP
Daniel David no debate do Growth Forum, organizado pela CCIP

Daniel David, CEO da Soico, fundador do Fórum Económico e Social de Moçambique, esteve em Lisboa para o Growth Forum e falou ao DV.

Iniciativa da Câmara de Comércio e Indústria Portuguesa, o Growth Fórum trouxe hoje à Fundação Champalimaud o debate sobre como Portugal pode crescer com mais ambição e potenciar o seu papel junto de países de quem está culturalmente próximo, como Moçambique. Um dos convidados foi Daniel David, CEO da Soico e fundador do Fórum Económico e Social de Moçambique, que falou ao Dinheiro Vivo também do que o seu país precisa para se desenvolver.

Leia também: “Portugal tem de trocar o medo pela ambição”

Moçambique é visto como um país de oportunidades, mas depois parece sempre ser difícil fazer acontecer. O que faz falta para o país aproveitar essas oportunidades?

O mercado moçambicano apresenta de facto muitas oportunidades mas o sucesso depende essencialmente da qualidade dos empresários e da capacidade de investimento. Com isto quero dizer que quem investe em Moçambique tem de ter uma perspetiva de médio-longo, prazo porque qualquer visão imediatista está dependente dos ciclos económicos. Temos muitos e bons exemplos de empresas, muitas delas portuguesas, que estão em Moçambique há muitos anos e com verdadeiras histórias de sucesso.

Em 2016 realizámos uma conferência do MOZEFO – Fórum Económico e Social de Moçambique em Portugal e na altura premiámos empresas e empresários portugueses que representam verdadeiras histórias de sucesso em Moçambique. Todos eles são excelentes exemplos de empreendedorismo, de criação de riqueza e de emprego. Por outro lado, refletem histórias de sucesso, perseverança e resiliência tendo sempre acreditado no potencial de Moçambique e perante os momentos mais adversos assumiram sempre o compromisso de ficar dando um enorme contributo para o crescimento da nossa economia. Há um provérbio africano que diz “O sol caminha devagar mas atravessa o mundo”. Com isto quero dizer que as oportunidades em Moçambique existem para quem tiver capacidade de investir e esperar.

Daniel David

Daniel David

O Idai trouxe agora dificuldades ainda maiores ao país. E implicará um enorme esforço ultrapassar as perdas imensas sofridas e as que estão por vir – sobretudo no que respeita a surtos de doenças. Há uma estratégia a ser desenhada?

O ciclone Idai foi uma tragédia de gigantescas proporções. Houve logo uma grande mobilização tanto do governo como da comunidade internacional e queria destacar o papel de Portugal. O governo está a fazer um enorme trabalho para minimizar os impactos causados pelo ciclone, numa perspetiva imediata, para permitir a rápida normalização da vida das populações, bem como com medidas estruturais de médio prazo. Neste processo não podemos deixar de referir o importante papel do setor privado quer numa perspetiva de mobilização e de ajuda imediata quer sobretudo numa perspetiva futura no processo de reconstrução. A CTA (Confederação das Associações Económicas de Moçambique) vai organizar no próximo dia 16 de abril uma conferência com vista a discutir o programa para a assistência à recuperação empresarial e contará com a participação de representantes do FMI e do BAD.

Acredita que o FMI pode passar uma esponja sobre o passado e voltar a ajudar Moçambique nesta altura tão difícil? E isso seria bom?

Houve uma missão do FMI a Moçambique logo após o Idai, na última semana de março, em que o FMI assumiu uma postura muito responsável e separou os temas anunciando um pacote de ajuda. O FMI é um parceiro de Moçambique e temos de continuar a trabalhar para recuperar a confiança dos parceiros e retomar os programas de trabalho que tínhamos implementado.

As reservas de gás e a sua exploração a norte podem realmente fazer a diferença ou o país devia apostar noutro tipo de desenvolvimento?

São claros os setores estratégicos do processo de desenvolvimento de Moçambique: a agricultura, a energia, os serviços financeiros, as infraestruturas e o turismo. Neste contexto, a descoberta de novas fontes de riqueza coloca Moçambique perante um momento de grandes oportunidades e desafios exigindo reflexão e um enquadramento estratégico. Precisamos de traduzir a esperança proveniente dos recursos naturais em políticas sustentáveis e redistributivas no plano da economia formal, de modo a anular as disparidades existentes e promover o equilíbrio entre robustez económica e desenvolvimento do nosso capital humano. Esta é a perspetiva que temos partilhado através do MOZEFO – Fórum Económico e Social de Moçambique, assente numa visão de diversificação da economia e no fortalecimento das ligações económicas com países relevantes para o crescimento do país.

Há também um esforço nacional para que a exploração dos recursos referidos seja a mais inclusiva e sustentável possível. Discute-se muito a inclusão e a dinamização económica à volta destas iniciativas. Há muitas oportunidades e desafios para as PME. Acredito que Moçambique terá uma história diferenciada na exploração de recursos.

Daniel David

Quais são os três fatores essenciais para pôr Moçambique a crescer de novo?

Nesta perspetiva de crescimento económico sustentável e inclusivo os fatores essenciais para o crescimento da economia são:

Primeiro, a educação, para formarmos e construirmos uma sociedade do conhecimento.

Em segundo lugar, é essencial construir instituições fortes capazes de promover um bom ambiente de negócios, bem como de assegurar a confiança e capacidade de gestão nos momentos de crise.

Por último, é fundamental apostar em planos tecnológicos e em importação e desenvolvimento de tecnologia que contribua para a formação da força de trabalho local. Por outro lado, estes países têm a oportunidade de conseguir grandes avanços tecnológicos e saltar etapas.

Contudo, não posso deixar de referir a saúde como um fator primordial para garantir a sustentabilidade de qualquer crescimento económico. É preciso ter acesso a bons cuidados de saúde para ter uma população que se desenvolva em todas as suas dimensões e almejar uma sociedade e uma economia baseadas no conhecimento.

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