Entrevista a Daniel Traça

“Parte da contribuição para a S.S. devia poder ser usada para formação”

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O diretor da Nova SBE reflete sobre o momento que Portugal atravessa, defende maior coesão social e mais ligações a países de língua portuguesa.

Com vista para o mar. Neste ano letivo já vai ser diferente para os alunos da Nova School of Business and Economics (SBE) que estreiam o novo campus universitário de Carcavelos, uma obra de grandes dimensões financiada através de crowdfunding junto de empresas e doadores individuais, mas também pelo Banco Europeu de Investimento.

A Nova SBE terá agora um campus universitário ao estilo americano. Como está o nível de admissões de alunos?
Faço sempre este reparo: é um campus português, o arquiteto é português, a escola é portuguesa, os alunos são sobretudo portugueses e os professores também. E os alunos internacionais que vêm, vêm para visitar Portugal. Quer-se uma escola que é portuguesa, que vive de ser portuguesa, isso é importante, porque se a nossa escola passou muito tempo a aprender e a imitar modelos estrangeiros para se desenvolver, hoje é uma escola fundamentalmente portuguesa que quer projetar Portugal no mundo. O que vamos fazer é português e é único. Sobre as admissões, recebemos 750 alunos de mestrado, no ano passado tínhamos recebido cerca de 620. As nossas admissões há dez anos que sobem 20% a 30%, portanto temos tido uma procura de qualidade crescente. Os alunos internacionais hoje são cada vez melhores; os portugueses que recebemos são os melhores do país.
Neste momento há cerca de 20% de alunos internacionais, no total…
É preciso separar os mestrados e licenciaturas, não são comparáveis. A admissão de estrangeiros à licenciatura é recente e ainda um pouco difícil; nos mestrados, que é um mercado mais internacional, recebemos 750 alunos neste ano, 45% são estrangeiros. Nas licenciaturas temos muitos alunos estrangeiros, mas sobretudo em programas de intercâmbio, por cada aluno português que sai há um estrangeiro que entra.

A dimensão do campus tem motivado várias reações. Há quem diga que servirá apenas uma pequena elite ou estrangeiros…
O campus é feito para atrair talento de Portugal e de todo o mundo, 55% dos alunos são portugueses e estamos cada vez mais empenhados em atrair alunos portugueses. Temos um sistema de bolsas muito importante, há uma preocupação de que atraia alunos de todo o mundo, mas continua a ser para alunos portugueses. O mais interessante para os alunos portugueses não é só a experiência educacional, mas o ficarem imersos num ambiente superinternacional. A lógica de atrair alunos internacionais para estudar em Portugal dá aos alunos portugueses a capacidade de perceber a economia internacional, as questões internacionais que vão tornar esses alunos portugueses mais interessantes para as empresas portuguesas, para ajudar nos processos de internacionalização, porque são mais capazes de perceber a lógica internacional. Dos alunos internacionais que vêm, muitos deles ficam cá, portanto ter um campus capaz de atrair alunos internacionais e capaz de formar portugueses neste ambiente é uma forma de ajudar a internacionalizar as empresas portuguesas e a própria economia.
Como é que lhe parece que estão a reagir as universidades concorrentes?
Nestes programas de mestrado e da forma como o mercado de ensino superior se está a movimentar na Europa, a concorrência da Nova é sobretudo internacional. Hoje preocupamo-nos em perder alunos para algumas universidades portuguesas, mas sobretudo para a Dinamarca, a Itália, Espanha e França. E não nos preocupamos só em perder alunos estrangeiros, mas em perder alunos portugueses. Ter uma escola em Portugal capaz de competir e assegurar que estes alunos têm uma opção em Portugal é uma forma de segurar este talento. O risco era irem estudar para o estrangeiro e dificilmente voltariam a Portugal. A missão é dar esta formação aos portugueses num ambiente internacional, assegurando que há talento português que fica cá a estudar e que pode ajudar a assegurar a competitividade das empresas e a economia portuguesas.

A Nova promete também um ensino colaborativo, em contraste com o ensino centrado no professor. O que isso vai significar no dia-a-dia do ensino?
Vai significar uma aprendizagem que se passa muito para fora da sala de aula. A lógica deste campus, e isso é que acho que é novo, é que os alunos vêm de manhã e passam o dia no campus. Numa parte do dia têm aulas e estão a aprender com os professores, noutra parte do dia estão a aprender uns com os outros, porque o campus é feito de forma a que tenham espaços onde estudam. Gosto de descrever o campus como um café enorme, onde podem estar a fazer trabalhos de grupo, a estudar, a beber café. Ao mesmo tempo vai haver startups, empresas a fazer inovação, pessoas mais velhas, pessoas mais novas, de economia e outras da área da tecnologia e data. Quando os alunos estão neste espaço, estão sempre nestes encontros a fazer projetos e com iniciativas, é o que eu chamo de desenvolvimento da capacidade de colaborar. É também aquilo que inspiramos estes alunos a fazer: a colaborar uns com os outros, a ter iniciativas e a fazer acontecer. O campus tem um ambiente ideal para isso, com o facto de terem estas startups, empresas, ONG e fundações e mais de 30 clubes de alunos a promover iniciativas.

Como é que se vai concretizar esta ligação às empresas e startups?
Em alguns espaços vamos ter startups a serem incubadas e temos planos para aumentar a nossa capacidade de incubação no ecossistema à volta de Carcavelos.

Para o arranque, quantas startups vão estar incubadas?
Vamos ter uma aceleradora, mas não tenho o número de startups. Vamos ter um enorme espaço onde a tecnologia vai estar disponível e isso, ao mesmo tempo que ensinamos, porque sabemos que no futuro a gestão, as finanças e a economia vão ser influenciadas pela tecnologia, permitirá ter um espaço onde os alunos aprendem isso e aprendem a mexer na tecnologia, vamos ter laboratórios de inovação. Todo este espaço, todo este mundo de coisas que se fazem, pessoas que lá estão, encontros que surgem, vão facilitar este ensino em que o objetivo, muito mais do que ensinar, é aprender. E há uma outra dimensão que gostava de referir: os alunos vão ter de aprender sobre eles próprios, e muitas das iniciativas que se vão desenrolar no campus têm que ver com este espaço de aprender sobre eles próprios. Ainda hoje tivemos a Academy of Purpose, para ajudar os alunos a desenvolver uma noção de si próprios dentro da sociedade, da sua responsabilidade e propósito individual e isto é o que as universidades no futuro têm de fazer: ajudar os alunos a descobrir-se a si próprios e uns com os outros, a descobrir a sua capacidade de fazer a diferença e a aprender as matérias na sala de aula.

Essa ligação é o que tem faltado entre universidades e o mundo empresarial. Esse calcanhar de Aquiles continua a existir na economia em geral e nesta ligação entre mundo académico e o mundo empresarial?
Existe menos. Tem havido um esforço de as universidades e empresas se aproximarem, mas não é fácil porque ambas falam linguagens diferentes. As empresas falam uma linguagem de resultados imediatos, de retorno de investimento. As universidades falam uma linguagem menos concreta, mais ligada à reflexão, a objetivos de longo prazo. Há um problema de linguagem, e quando as pessoas não falam a mesma linguagem têm de aprender a linguagem uma da outra. Implica tempo e esforço, mas acho que o esforço já lá está. Pelo menos há consciência da parte das universidades da necessidade de o fazer.
Mas há algo que as empresas possam fazer para se aproximar das universidades?
Devem abrir a porta e dar uma oportunidade para testar o que as universidades são capazes de oferecer. Se houver vontade de abrir este espaço, as coisas vão surgir. Também sendo claro: as universidades precisam mais das empresas, porque hoje têm de se tornar muito mais relevantes, têm de ter mais impacto e para isso vão ter de chegar mais próximo da realidade e das empresas. As universidades vão ter de fazer um esforço de sair da sua torre de marfim e sobretudo perceber que, se querem ir falar ao outro lado, têm de aprender a linguagem do outro lado.

Numa apresentação sua, vi que falou da necessidade de uma maior coesão nacional, o que teria um impacto no crescimento do país. Como é que as empresas podem contribuir para essa coesão nacional e como as universidades entram na equação?
A coesão tem de ser social e sobretudo estratégica. Ou seja, se Portugal quer ter um plano para se tornar o país que todos queremos que seja, é preciso haver uma certa estabilidade no plano que queremos concretizar. A coesão estratégica tem que ver com o facto de nós, como país, estarmos alinhados com esse percurso e assegurarmos que lhe somos fiéis. Não vale a pena pensar o que o país vai ser daqui a 15 anos se não ouvirmos o que as empresas acham, onde é que vão ser competitivas, quais os seus planos e onde acham que há mercado para estar.…

Os governos têm sido autistas em relação ao mundo empresarial?
Têm ouvido pouco as empresas. Essa coesão exige estabilidade para que as empresas implementem os seus planos e não estejam constantemente a ser alteradas regras, a ser implementadas medidas que não eram esperadas e ter de fazer ajustamentos à última hora. Esta visão estratégica de longo prazo exige ouvir as empresas, delinear quais serão as grandes iniciativas e quais os enquadramentos dessas empresas, e depois assegurar que nos mantemos fiéis. Obviamente que toda a gente tem de ajustar quando há mudanças no ambiente, mas tem de haver uma vontade de não estar constantemente a fazer medidas que surpreendem as empresas e as obrigam a mexer nos seus planos. As empresas portuguesas têm essa dificuldade e as estrangeiras não vêm porque haverá outros países onde essa coesão existe, onde o plano é estável e as mudanças não são inesperadas.

Com a geringonça haverá condições para essa estabilidade e essa estratégia definida para um país?
A situação política deve ser para comentadores políticos. Acho que há espaço suficiente de convergência na sociedade portuguesa para que, com a liderança necessária, seja feita essa visão de longo prazo e a planificação mantida. Se olharmos para as grandes linhas da sociedade portuguesa, há uma necessidade de maior coesão social, um grande foco na internacionalização e exportação com grande avenida de crescimento económico e a necessidade de um controlo orçamental. O que era interessante era que as outras medidas fossem julgadas à luz desta visão estratégica.

Referiu a questão orçamental. Estamos a menos de um mês de conhecer o Orçamento do Estado. O que espera deste OE para 2019?
Acho que se nós vivemos um período complexo da sociedade portuguesa durante a crise, e se a seguir tivemos um período de ressaca disso porque era preciso criar coesão nos portugueses no sentido de voltarmos a estar bem uns com os outros,… não podemos esquecer que o desígnio da economia portuguesa é crescer muito para se poder aumentar a qualidade de vida dos portugueses e para podermos posicionar Portugal num ambiente de globalização, em que vamos ter de assegurar a nossa competitividade, o nosso posicionamento, o ganho de quotas de mercado, assegurar que as empresas exportam cada vez mais. O que gostava era que o futuro da economia portuguesa voltasse a ser de reformas estruturais, de visão e com uma lógica orçamental de desenvolvimento e de crescimento económico sustentável. Preocupa-me muito o facto de durante estes anos todos a produtividade em Portugal não ter crescido, e isto tem que ver com o facto de não termos ainda pegado nesta lógica de reformas e visão estratégica da economia a longo prazo. A produtividade em Portugal não cresceu nos últimos 20 anos e continua a não crescer.

Haverá alguma medida que devesse estar contemplada neste OE que pudesse fazer a diferença?
Acho que a formação dos nossos quadros é um dos elementos fundamentais para o aumento da nossa produtividade. Há um défice, quer dos incentivos quer do lado da cultura das empresas portuguesas, da formação que dão aos seus quadros. É preciso investir mais, dar mais formação, alinhar o desenvolvimento da nossa estratégia com o desenvolvimento dos nossos quadros. Se houve um enorme aumento do ensino superior em Portugal, há muitos quadros que precisam dessa formação, e mesmo os que já vêm com cursos superiores precisam dessa formação regularmente. Aí podia haver uma medida para incentivar mais a formação dada pelas empresas aos seus quadros. Houve uma medida que propus na altura do grupo de trabalho, que aliás foi sugerida, que era que uma parte da contribuição para a Segurança Social devia poder ser usada para formação. Se as empresas não a usassem para formação validada era imposto. Era uma forma engraçada de dizer às empresas: ou vocês usam isto para dar formação aos vossos quadros ou o Estado fica com isto. Esta formação dos quadros é fundamental para o aumento da produtividade e internacionalização das empresas.

Há algum debate que esteja em curso que o deixe mais apreensivo no que respeita às necessidades do país?
Estamos num OE que sairá num ano de eleições, não vale a pena fazer grandes reflexões sobre outras coisas. É preciso um grande cuidado em relação ao défice, acho que sim, mas aí há um enorme consenso na sociedade e uma enorme preocupação do governo para não deixar resvalar o défice. Acho que os portugueses aprenderam a lição. A grande preocupação é assegurar um cumprimento das medidas do défice, não porque seja a Europa que nos está a pedir, mas porque reestruturar o défice público é uma das três grandes prioridades: coesão social, internacionalização e controlo do défice. O controlo do défice não é europeu, é português. Assegurar que isso se mantém é uma das grandes prioridades e o governo tem sido muito eficaz.

Por falar em défice, o Conselho das Finanças Públicas está a apontar para um défice de 0,5%, até mais otimista do que o próprio governo. O OE para 2019 deveria apontar já para um défice zero?
O número é menos importante do que perceber quais são as escolhas que têm de ser feitas. Temos de controlar o défice, e ele está controlado. Mas também acho que se é preciso fazer desenvolvimentos importantes na economia portuguesa não se pode sacrificá-los todos. Depende de onde é que vai ser gasto o dinheiro. O défice zero não acho que seja o mais importante, mas é preciso perceber se o dinheiro será bem gasto.

O sentido das observações que o FMI tem feito, de pedir para que Portugal antecipe o esforço da consolidação orçamental, que aproveite esta onda de crescimento para pôr o pé no acelerador, faz sentido?
Um ano ou outro não faz diferença, mas a ideia de tentar acelerar a consolidação do défice faz sentido no contexto que é o seguinte: as taxas de juro nos EUA estão a aumentar, as taxas de juro na Europa vão começar a subir. A dívida portuguesa, que neste momento custa muito pouco, vai passar a ter um peso crescente nas contas públicas e nesse sentido acelerar a redução da dívida – e isto implica um défice menor – é uma boa medida. Volto a fazer o ponto: a economia portuguesa ainda precisa de investimento, portanto é preciso assegurar que o benefício do retorno da dívida não é menor do que o custo de não fazer as despesas necessárias para o crescimento da economia de longo prazo.

Ao longo da história, o investimento português lá fora passou muito por Angola. Como é que analisa o resultado da visita económica de António Costa a Luanda?
O que tenho visto é que as coisas têm corrido bastante bem na relação entre Portugal e Angola. Se a relação não correu bem durante uns tempos, não foi bom para a economia portuguesa. Portugal é um país pequeno, precisa de ter relações preferenciais com alguns países no mundo. Os países que falam português, e Angola, sobretudo, é um desses países. Assegurar para Portugal, para as empresas portuguesas, para os investidores portugueses uma relação forte com esse espaço geográfico maior, e nomeadamente com Angola, é fundamental para aquilo que será o sucesso da economia portuguesa. Vivemos num mundo cada vez mais globalizado, em que os países grandes cada vez mais vão ter mais poder, e Portugal só será um país relevante se tiver uma série de parceiros privilegiados nessa lógica internacional e a relação com Angola é fundamental para isso. A mudança em Angola tem sido bem aproveitada para Portugal voltar a estabelecer estas pontes, criar esta relação privilegiada e tentar evitar que Angola comece a preferir relações com outros países. Nesse aspeto, a nota é certamente positiva neste esforço de reatar a relação e torná-la um parceiro privilegiado de Portugal. Ainda há uma relação por fazer que é passar da relação comercial, que é como a conversa hoje ainda se faz muito, para uma relação de soft power. Precisamos de que mais angolanos, cabo-verdianos e moçambicanos venham estudar para Portugal e se relacionem com Portugal, porque precisamos da relação entre estes povos, precisamos de voltar a reacender estas relações. Estes povos têm de se sentir parte da mesma família porque é nesta relação de soft power, com a influência de Portugal, de Angola e Moçambique, que se fará mais forte numa economia global que vai cada vez mais ter grandes blocos. E os países pequenos ou são relevantes em ligações a estes blocos ou então são insignificantes e terão dias mais difíceis.

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