De berço da energia do vento a gigante das ilhas eólicas nos mares do Norte

Na próxima década, a Dinamarca quer construir uma ou mais “ilhas de energia”, cada uma com capacidade para abastecer dez milhões de casas.

Na Dinamarca pode até faltar a luz do sol durante uma semana - em média são menos de duas horas por dia no pico do inverno -, mas há vento de sobra. De tal forma que de cada vez que uma turbina eólica gira está a criar eletricidade para abastecer 1317 iPhones. Duas rotações e o metro de Copenhaga tem energia suficiente para percorrer meia dúzia de estações, até ao centro da cidade. Uma das mais recentes centrais eólicas do país, inaugurada há pouco meses, tem 49 turbinas e abastece quase meio milhão de casas, revelou Dan Jørgensen, ministro do Ambiente e da Energia, na abertura do evento Offshore 2019, organizado pela WindEurope, que teve lugar na capital dinamarquesa.

Há quase 40 anos, em 1981, o país do Norte da Europa foi o berço da energia eólica, com a primeira turbina instalada a fornecer 100% da eletricidade a uma escola. Dez anos depois, em 1991, nascia a primeira central eólica offshore do mundo no mar do Norte. Hoje, continua a ter um papel de liderança nesta energia renovável e a bater os seus próprios recordes: 6,1 GW de capacidade total instalada (4,4 GW em terra e 1,7 GW no mar, a que se somam mais 950 MW em instalação), com quase cinco mil turbinas que abastecem mais de 40% do consumo nacional de eletricidade. Daqui a uma década, em 2030, o objetivo é duplicar esta percentagem para 80%. No total, 64% da eletricidade consumida na Dinamarca já é proveniente de várias fontes renováveis. Em 2028 chegará aos 100%.

Copenhaga não esconde a ambição de ficar bem na fotografia do Green Deal da nova Comissão Europeia e quer reduzir os gases poluentes em 70% até 2030. “O vento será parte da solução e a energia eólica que vem do mar do Norte tem o potencial para iluminar 200 milhões de casas na Europa e gerar 11 vezes mais do que a procura de energia no mundo”, garantiu ainda o ministro Dan Jørgensen no evento em que o Dinheiro Vivo marcou presença, avançando o objetivo de criar, na próxima década, três novas grandes centrais offshore (até 1 GW cada uma, num total de, pelo menos, mais 2,4 GW até 2030) e ainda uma “ilha de energia” com 10 GW, um megaprojeto transfronteiriço para ligar vários países nórdicos.

Os projetos tornaram-se agora ainda mais reais e ambiciosos, com o governo dinamarquês a anunciar oficialmente um plano no valor de cerca de 40 mil milhões de euros (provenientes de investidores privados) para construir uma ou mais “ilhas energéticas”, cada uma delas com 10 GW. Na prática, serão vários mega-hubs offshore, cada um com capacidade para abastecer dez milhões de casas. A tornar-se realidade, este poderá ser o projeto renovável “mais ambicioso de sempre”. De acordo com Dan Jørgensen, estão agora a ser identificados os possíveis locais para estas “ilhas”, que tanto podem ser territórios já existentes ou plataformas artificiais ainda por construir, cada uma funcionando como um hub para capacidade eólica interligada entre si e albergando infraestruturas de armazenamento ou produção de hidrogénio.

Caso avance, o plano poderá ofuscar outros megaprojetos eólicos offshore e de energias renováveis noutras geografias do mundo. “É um projeto gigantesco. Temos de construir cinco vezes mais capacidade instalada do que a que temos hoje. Precisamos de um plano sensato e ambicioso para esta expansão. Neste momento estamos a fazer estudos preliminares”, considerou o ministro. A Dinamarca está a estudar locais no mar do Norte, no Báltico, e a agendar conversações com os países vizinhos sobre o projeto.

Além dos 40 mil milhões de investimento privado, o governo dinamarquês reservou uma verba extra de mais nove milhões no Orçamento do Estado para 2020 para avaliar quais as melhores tecnologias a utilizar no megaprojeto.

“A energia eólica offshore é central para a transição energética. Se precisamos seriamente de concretizar o enorme potencial que o eólico offshore encerra em si, então temos de desenvolver as tecnologias do futuro para transformar a energia verde em combustível para os aviões, navios e para a indústria.”

No evento da WindEurope, a própria Orsted, empresa energética estatal dinamarquesa, tinha já avançado com planos concretos para criar o primeiro hub eólico offshore do mundo com 5 GW, aproveitando a já existente ilha de Bornholm, no Báltico, para ligar a Dinamarca, a Polónia, a Suécia e a Alemanha, e servir de suporte a um projeto de produção de hidrogénio verde.

Sem avançar datas, Martin Neubert, CEO da Orsted Offshore, revelou que “os clusters eólicos no mar com ligações a vários países são cruciais para cumprir o potencial offshore para tornar a Europa o primeiro continente neutro em carbono em 2050”. Além disso, o hub de Bornholm poderia produzir os elevados níveis de energia necessários para eletrificar os transportes e o aquecimento na Dinamarca e nos países vizinhos, garantiu.

“A eletricidade será a energia dominante no futuro. Vai ser criado um hub energético numa ilha do mar do Norte perto da Dinamarca e em 2021 ficará pronta a primeira interligação elétrica com a Alemanha. Se o mundo precisa de energia eólica offshore, é no mar do Norte que ela abunda e que a encontram”, disse, por seu lado, Jan Hylleberg, CEO da WindEurope, numa sessão de apresentação sobre o potencial eólico offshore dinamarquês, na conferência Offshore 2019, na qual participaram também Peder Bo Sørensen, da Invest in Denmark, e Janni Torp Kjaergaard, da Agência de Energia.

O evento ficou marcado pela apresentação do mais recente estudo da WindEurope - “A Nossa Energia, o Nosso Futuro”, que garante que em meados do século é possível já ter 450 GW de energia eólica offshore, sendo que 380 GW nascerão nos mares do Norte da Europa e os restantes 70 GW ficarão reservados para as águas do Sul, onde se inclui Portugal. Tendo em conta o potencial do país, em 2050 existirão já 9 MW de capacidade eólica offshore instalada nas águas portuguesas. Neste momento está ainda por nascer o primeiro parque eólico offshore - o Windfloat Atlantic, da EDP -, que terá uma capacidade de 25 MW.

O relatório da WindEurope mostra que este cenário é possível e é economicamente viável. Para chegar a um total de 450 GW em 2050, o investimento europeu no setor eólico offshore, incluindo redes, terá de disparar de seis mil milhões de euros por ano em 2020 para 23 mil milhões em 2030 e, depois disso, crescer ainda para 45 mil milhões de euros anualmente.

Apesar dos planos megalómanos da Dinamarca, o estudo da WindEurope alerta: “O planeamento do espaço marítimo é crucial para baixar os custos de instalação, já que em pelo menos 60% dos mares do Norte da Europa já não é possível construir centrais eólicas offshore, hoje em dia, por razões ambientais ou de exclusão para as atividades de pesca, transporte marítimo de mercadorias ou uso das forças armadas.” A associação garante que o setor elétrico e a indústria estão já a preparar-se para este cenário, “mas é crucial que os governos contribuam com estratégias para dar a confiança necessária aos investidores”.

Sem falar no planeamento necessário, com pelo menos uma década de antecedência, para construir e fazer crescer as redes de distribuição de eletricidade, tanto em terra como no mar. Além disso, cabe à União Europeia estabelecer um enquadramento regulatório para as centrais eólicas offshore com ligações às redes de vários países. “Estes projetos híbridos permitirão partilhar infraestruturas e reduzir custos.”

*A jornalista viajou para Copenhaga a convite da WindEurope

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