De Ermesinde para Silicon Valley à boleia de uma “boa ideia”

Seis alunos do clube de robótica criaram uma aplicação para ajudar a escola a poupar energia. A ideia valeu uma viagem à capital mundial da inovação

Foram precisas várias sessões de terapia de grupo para que Janice Holliday deixasse finalmente de fumar. Quando largou o vício, quis ajudar outros a fazer o mesmo e passou a ser ela a liderar as sessões. Corria o ano de 1984 em Palo Alto, na Califórnia. Os exercícios não eram fáceis e havia um “aluno” particularmente rebelde, com quem Janice trabalhava à base do grito e do murro na mesa. O homem acabaria por morrer seis anos depois dessas sessões, aos 62, de ataque cardíaco. O aluno era Robert Noyce, um dos fundadores da Intel. Janice não fazia ideia.

A história é contada na primeira pessoa no caminho que conduz à entrada da sede da Intel, em Santa Clara, e onde saltam à vista ainda na rua os sinais de “proibido fumar”. Os seis rapazes de Ermesinde não tiram os olhos da guia, que horas antes já os tinha agarrado, ao revelar que andou na mesma escola básica que Steve Jobs (“não era uma escola muito boa”). Em Silicon Valley, toda a gente tem uma história tech para contar. Os vencedores do concurso Switch UP da Galp vieram escrever a deles.

Na manhã da visita à Intel passam já quatro dias desde que o professor Paulo Monteiro e os seis alunos do clube de robótica Robotese, da Escola Secundária de Ermesinde, aterraram no Aeroporto de São Francisco, na costa oeste dos Estados Unidos. A primeira impressão da cidade remete para casa. “É uma mistura de Vila Nova de Gaia com o Mónaco”, observa José Magalhães, 18 anos, futuro engenheiro informático, ao chegar ao topo de uma das mais de 50 colinas verticais da City by the Bay.

Nem 60 quilómetros separam São Francisco de Silicon Valley, mas as diferenças são óbvias. “Pensei que a cidade em si fosse mais evoluída, não estava à espera de ver tanta pobreza na rua.”

Foi José quem em junho contou aos colegas que dali a dois meses iriam ter de fazer as malas para atravessar o planeta, em direção a um mundo que só conheciam dos filmes. “Estava a sair de um treino quando vi que tinha uma mensagem no Instagram da Robotese. Era uma das escolas concorrentes a dar-nos os parabéns por termos ganho o Switch UP. Não acreditei. Acho que nenhum de nós acreditou”, conta ao Dinheiro Vivo.

“O que é certo é que desde o início que ele dizia que íamos ganhar isto”, interrompe o professor Paulo Monteiro, mentor do clube de robótica e cérebro do projeto que levou os rapazes de Ermesinde a bater as restantes 101 escolas secundárias de todo o país que participaram no concurso.

A app que faz switch down

O desafio que resultou em prémio foi-lhes lançado pela Galp em outubro do ano passado. O objetivo do concurso era levar os estudantes a apresentar um projeto que promovesse o consumo eficiente de energia. O primeiro obstáculo foi reunir o grupo, já que o trabalho iria exigir horas extra e nem todos estavam dispostos ao esforço. “Depois de se saber que tínhamos ganho a viagem já toda a gente se queria inscrever no clube de robótica”, conta Gonçalo Seco, de 17 anos, futuro caloiro do curso de Engenharia Eletrotécnica e de Computadores do ISEP.

A ideia que os levou à vitória já andava a matutar na cabeça do professor Paulo Monteiro. “A conta de eletricidade da escola é muito alta, ronda os seis mil euros por mês. O gasto de energia da sala de informática contribui para isso, porque mesmo em stand-by os computadores gastam luz, principalmente se forem antigos. Numa casa não faz grande diferença, mas uma sala com várias máquinas gasta muito”, explica José Magalhães.

O grupo fez as contas e concluiu que era possível poupar entre 1800 e 2300 euros por ano à escola se os computadores fossem desligados nos “tempos mortos”, como férias e fins de semana. Puseram mãos à obra, uma hora por semana durante sete meses, e criaram o protótipo de uma aplicação que permite cortar a corrente aos computadores por via remota.

“Dotámos o quadro elétrico com um sistema que controla o fornecimento de energia, estipulando as horas em que a corrente deve estar ligada. Os parâmetros são controlados através da aplicação que eles criaram”, explica Paulo Monteiro. O protótipo foi testado com sucesso e o objetivo é colocar a teoria em prática. Na escola e não só. “Sempre soubemos que era uma boa ideia, aplicável quer em casa quer na indústria, por exemplo. Durante a entrega dos prémios, o diretor de uma escola do Algarve disse-nos que gostava de implementar lá o sistema”, sublinha o responsável do projeto.

A “boa ideia”não lhes vai encher os bolsos porque toda a tecnologia que usaram no projeto é open source, mas todos acreditam que a experiência foi o primeiro passo para voos mais altos que hão de vir.

Limites só na altura

“Vocês vieram aqui ver as pessoas que mandam nas vossas vidas”, avisa a guia Janice Holliday aos seis estudantes durante a passagem pelas mansões de Palo Alto. A primeira paragem faz-se no local que é considerado o berço da capital mundial da inovação: a garagem onde William Hewlett e David Packard criaram em 1938, contra todas as expectativas da época, uma startup chamada HP.

A moradia de dois andares, em tons de castanho e verde, passa despercebida à primeira vista. O entusiasmo do grupo só dá sinais de vida quando percebem que foi ali que começou o mundo como o conhecem hoje. “É uma surpresa para mim. Pensei que Silicon Valley fosse uma zona com arranha-céus e deserto à volta”, nota Luís Almeida, de 18 anos, futuro licenciado em Física, antes de saber pela guia Janice que em várias cidades do vale do silício os edifícios não podem ter mais do que 15 metros de altura.

As leis da Califórnia não impedem que os seis escolhidos fiquem esmagados à passagem pelas sedes megalómanas de empresas como Apple, Google, Oracle, Samsung ou Adobe, ou ainda pelo centro de Investigação da NASA e a Universidade de Stanford. “Isto é mesmo outro mundo. Estamos demasiado habituados aos limites da nossa casa e tudo isto aqui é descomunal”, repara Vasco Rodrigues, de 18 anos, que vai estudar para ser engenheiro mecânico e leva na bagagem de regresso a Portugal centenas de fotografias de carros, seis matrículas americanas como souvenir e uma nova visão sobre o mercado de trabalho. “As vantagens que as empresas oferecem aos funcionários, como o transporte gratuito, dentista, cabeleireiro ou lavandaria, são um sonho.”

Energia infinita

Não é só Vasco que fica impressionado com o sonho tech americano. Nuno Costa, que também quer ser engenheiro mecânico, reconhece que “a cultura e a mentalidade” que descobriu em Silicon Valley podem levá-lo a repensar o futuro.

“Aqui reconhece-se o talento e as pessoas têm a vida facilitada pelas empresas. Quando escolhi o curso foi a pensar na estabilidade, mas é impossível não sair daqui sem querer fazer outras coisas”, admite.

“É importante seguir os sonhos porque só assim é que o mundo muda. Sinceramente, acho que quando me licenciar não vou querer trabalhar numa empresa mas sim criar algo meu, uma startup. Gostava de seguir energias renováveis e pensar numa maneira ainda mais limpa e eficiente de criar energia infinita”, revela Nuno.

O bichinho do empreendedorismo também mordeu Gonçalo Santos, futuro estudante de Física e leitor de Schopenhauer nos tempos livres. “Tive o privilégio de vir aqui e perceber como é a vida no sítio mais inovador do mundo, mas gostava de ter o privilégio de fazer alguma coisa pelo meu país. Ganhei a noção de que todos os fundadores das grandes empresas, como a Apple ou a Intel, não se dedicaram só a estudar. Eles nunca tiveram medo de arriscar. É esse espírito empreendedor que revoluciona a tecnologia.”

Um espírito que só em Silicon Valley já fez nascer mais de 34 mil startups, numa terra que há menos de sete décadas era um pomar gigante que alimentava toda a Califórnia. Hoje, dos cerca de 7,5 milhões de habitantes de São Francisco, são mais de 2,5 milhões os que trabalham na indústria tecnológica. Um quarto da população portuguesa.

Luís Almeida, para quem Janice Holliday antevê “um futuro brilhante por pensar fora da caixa”, vai entrar na faculdade no final de setembro com uma certeza nova: a de que a chave do sucesso “não é o conhecimento técnico das coisas, é convencer os outros de que esse conhecimento é útil”, como fez Steve Jobs ali ao lado em Cupertino.

O estudante só lamenta que em Portugal “nem todo o talento seja aproveitado”. O que vale é que de Ermesinde a Silicon Valley vai só um sonho de distância.

A jornalista viajou a convite da Galp

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