De mochila às costas. O (des)emprego pode esperar

Mami, Cláudia, João e Rui, Luísa, Tiago e Filipe contaram-nos as suas histórias
Mami, Cláudia, João e Rui, Luísa, Tiago e Filipe contaram-nos as suas histórias

"Já sabem? A Luísa vai dar a volta ao mundo". A frase dita em voz alta na nossa redação, algures entre junho e julho de 2013 deu o alerta. A Luísa - Luísa Sousa, 32 anos -, a primeira responsável pelas infografias do Dinheiro Vivo, preparava-se para deixar o projeto e embarcar numa aventura. Seguia uma tendência há muito vista em outros países desenvolvidos, mas pouco conhecida em Portugal - o Gap Year. Ou, neste caso, os Gap Years tardios que começam a somar-se entre os jovens portugueses que, com ou sem emprego, com ou sem poupanças, preferem largar a vida de todos os dias, a falta de perspetivas e os empregos precários e arrancar para o desconhecido.

João Vasconcelos, presidente da Startup Lisboa, convive diariamente com jovens e sabe que estas experiências estão a crescer depois de anos de vontade e de falta de capacidade económica. “No meu tempo havia o inter-rail, que ainda existe, mas era uma coisa restrita. Agora é tudo mais fácil, com as companhias low-cost”. A novidade, diz, é apenas nossa: “Muita gente de outros países está habituada a passar temporadas fora. Os norte-americanos e os brasileiros há muito que vêm passar um ano à Europa. Os portugueses estão agora a despertar para essa realidade”, afirma.

E há uma vantagem grande face ao seu tempo: estas opções, que podem acarretar a demissão ou uma licença sem vencimento, são bem vistas pelas empresas. “Os melhores empreendedores que temos na Startup Lisboa têm todos uma coisa em comum: ou viveram ou estudaram no estrangeiro”, afirma.

O Rui, o João, o Tiago, a Cláudia, o Filipe, a Maria Miguel e a Luísa fizeram essa escolha. Deixaram Portugal, por uns meses, e foram viajar. Os empregos ficaram cá e alguns destes jovens ainda nem encontraram nova ocupação. Outros acabaram por retirar novas soluções para a vida depois de regressarem. As experiências adquiridas, dizem, fazem esquecer as poupanças e o tempo investidos.

O plano da Luísa, que acabaria por durar 14 meses, começou bem antes de embarcar no avião a 14 de outubro de 2013. “Já estava a pensar há algum tempo mas o primeiro passo foi dado um ano antes, quando comprei a mochila. Na altura, pensei em ir logo em janeiro do ano seguinte, mas entretanto percebi que o timing não era o melhor. Estávamos em maio quando decidi que iria em outubro”.

Foi sozinha. Partiu de Lisboa para Londres no dia 12 desse mês e, dois dias depois, arrancou para a Índia, o primeiro de doze países por onde passaria. Para as contas da viagem considera, no entanto apenas dez: Índia, Nepal, Tailândia, Laos, Cambodja, Vietname, Indonésia, Singapura, Timor-Leste e Nova Zelândia. De fora ficam os dois dias na Malásia e o dia e meio na Austrália, que souberam a pouco.

O trajeto foi-se desenhando aos poucos, conforme o gosto, o tempo ou as amizades de circunstância. Mais uns dias aqui, uns euros acolá, e muitas atividades “menos essenciais” aumentaram a lista das despesas. “Nunca cheguei a fazer um budget diário. Conheci muitos viajantes que os tinham e isso ajuda sem dúvida a gerir os gastos, mas eu não sou muito boa nessas coisas”, conta seis meses depois de regressar. O orçamento, previsto entre um mínimo de 13 mil e um máximo de 15 mil euros, ficou um pouco acima, mas nada de que se arrependa. “Acho que gastei cerca de 16500 euros, incluindo voos, vistos, alojamento, comida, todas as atividades (curso de mota, dois cursos de mergulho, sky diving) e envio de coisas para Portugal”.

João Fernandes (25) e Rui Ferreira (26) também aproveitaram a estadia na Tailândia para fazer um curso de mergulho, uma das experiências que recordam com mais entusiasmo, a par dos 300 quilómetros de estrada que fizeram de mota no Vietname. Os dois amigos de Braga foram por três meses para a Ásia apenas dois países como certos: China e Índia. O resto foi por conveniência e proximidade. Conseguiram cumprir oito, 80% do plano inicial.

Para a viagem, Rui deixou o emprego de já dois anos em Moçambique como diretor de operações de uma empresa de ferro e aço. E João, o trabalho em marketing numa tecnológica onde já estava há cinco anos. “Apesar de ter um ótimo emprego e de ganhar bem, queria um desafio novo que me permitisse continuar a crescer profissionalmente. Naquele momento, a curva da aprendizagem já estava quase estagnada e quando isso acontece, é tempo de partir para outra”, conta Rui, sem pesar por não ter conseguido retomar o seu emprego. O amigo João também não voltou mas assume que a taxa de desemprego – entre os jovens de 33% – não o assusta. “Pretendo ter experiências profissionais diversas, o que não se coadunava com ficar “preso” numa suposta zona de conforto quando o meu coração me dizia para embarcar na aventura e abrir horizontes”.

Assim fizeram. Em três meses passaram por oito países. Nas memórias mais frescas está o casamento que invadiram no Laos e o convite que receberam para um outro na Índia. No caminho conheceram outros sete portugueses, mas recordam a curiosidade estrangeira quando diziam de onde vinham. “Os viajantes estrangeiros exclamavam, por diversas vezes, que éramos os primeiros que eles encontravam a fazer este tipo de viagens”. Como se justifica? “A nossa população de apenas 10 milhões, a situação económica precária que a generalidade da população enfrenta, ou a atitude mais conservadora da sociedade, que ainda encara este tipo de aventuras com um certo ceticismo”, conta João Fernandes.

Quando Cláudia Valadinhas, em 2010, deixou o País, o número de portugueses em “ano sabático” era ainda mais pequeno. Mas a falta de perspetivas de futuro “empurraram-na” para fora. Tinha trabalhado na Holanda “e conseguia pagar as despesas e ir a Portugal a cada dois ou três meses”. Quando regressou ao pais Natal sentiu-se a regredir. “A única forma de ter um salário”, conta, era através de um estágio profissional que já durava há dois anos. “Tive de ir dividir casa e para não largar a arquitetura e optar por um part time noturno. Pedi demissão, saí para viajar pela América do Sul como backpacker até onde o dinheiro durasse, o objetivo era terminar no Brasil”.

Andou de mochila às costas durante onze meses mas, a urgência em voltar para procurar emprego, acabou por deitar por terra a vontade de trabalhar num ou noutro destino para ajudar a pagar as contas. Um ano era o tempo máximo a que se permitira. “Não nos podíamos ausentar mais do que isso do mundo laboral…hoje vejo que poderia tê-lo feito sem problemas”, afirma.

O que é facto é que os nove mil euros divididos por onze meses arrasaram com as economias. “Não tinha dinheiro para regressar a Portugal e na verdade sabia que ao voltar teria a dura tarefa de iniciar uma busca por trabalho que, na minha área, além de mal pago estava bem escasso em finais de 2010”, recorda. Assim, e ainda no Brasil, iniciou uma procura de emprego. “Em menos de um mês tinha trabalho, como coordenadora da área de criação – um cargo bem acima do que tive em Portugal e 3 a 4 vezes mais bem pago – num atelier de arquitetura com nome no mercado”.

Talvez o presente não fosse o mesmo se tivesse insistido em ficar por cá. “A crise e as dificuldades de trabalho abriram uma janela na cabeça das pessoas e elas já perceberam que não é abdicando do seu tempo que terão mais estabilidade no trabalho. A falta de dinheiro limita, mas acho que as pessoas se deram conta de que é possível viver a vida com pouco e que, no final das contas, estando parados gastam tanto ou mais do que quando viajam neste estilo mais roots”, afirma.

O percurso de Filipe Morato Gomes cruza-se com de Cláudia num aspeto: as viagens trouxeram-lhe novas oportunidades. “Sempre tentei vender reportagens das minhas viagens, mas tornaram-se trabalho quando fiz uma volta ao mundo [2004/2005, por um ano] durante a qual escrevi crónicas semanais para a revista Fugas. No regresso, tomei algumas decisões importantes, entre as quais continuar a ser dono do meu tempo, dedicando-me à escrita, fotografia e viagens”. Já escrevia para o Alma de Viajante (www.almadeviajante.com), o que lhe permitia um rendimento extra-revistas e, mais tarde, juntou-se a uma agência onde lidera viagens a lugares como a Mongólia ou Irão. Mais tarde, criou um blog, que é o seu diário de bordo, www.fmgomes.com e, este ano a Bolsa de Turismo de Lisboa (BTL) premiou-o como Melhor Blog de Viagens Profissional 2015. Recebe, por isso, vários pedidos de “conselhos, dicas ou simplesmente inspiração” de portugueses que querem fazer o mesmo.

Ao olhar para trás, Filipe sabe que foi um downgrade na empresa onde trabalhava que lhe deu disponibilidade para primeira grande viagem. Mas admite que não vê a crise como grande responsável por esta nova tendência: “As pessoas estão a mudar e se amanhã houvesse emprego para todos, os jovens não deixariam de viajar. Pelo contrário, acho que vão primeiro viajar e só depois aceitar um emprego”, admite, por escrito ao Dinheiro Vivo, a partir do Panamá.

Francisco Veloso, diretor da Católica Lisbon, também tem um percurso lá fora e, por isso, acredita que o sucesso está cada vez mais relacionado com a capacidade de alargar horizontes. “Encorajamos desde antes da crise estas saídas. Um aluno que termina a licenciatura ou o mestrado tem apenas duas coisas que o distinguem: a média e o nome da escola onde estudaram. Este género de experiências ajuda a enriquecer o percurso”, afirma, confirmando que “as empresas valorizam muitíssimo” e que, um dia, quando estes forem os futuros empresários deste País, “serão mais completos, com mais mundo, com consciência de que há outras realidades. Vamos ter empresários mais desempoeirados tão necessários às mudanças que o mundo exige”, reforça.

Tiago Silva, 35 anos, não é tão otimista. Doze meses e cerca de dez mil euros depois, gastos pela Ásia e Europa, admite que “a vontade de fazer viagens deste tipo acaba por ficar como um sonho não realizado” para muitos jovens portugueses. O problema é o mesmo de sempre: “Quem tem emprego teme ter dificuldades em entrar no mercado de trabalho ao regressar, quem não tem geralmente não consegue poupanças que suportem a viagem”. É tudo uma questão de prioridades, como escolher entre a compra de um carro ou de uma casa, “algo que muita gente não está disposta a fazer”.

No seu caso, a escolha não foi assim tão difícil. Pediu uma licença sem vencimento, que lhe garantiu o posto de trabalho quando regressou, há dois meses a Portugal, e comprou apenas um bilhete de ida para Banguecoque, na Tailândia.

A ideia era descomplicar e ver o máximo possível, sem pressões. Acabou por visitar 21 países, umas vezes sozinho e outras acompanhado. E, à Ásia (Tailândia, Malásia, Indonésia, Timor Leste, Índia, Nepal, Sri Lanka, Israel, Territórios Ocupados da Palestina, Jordânia), que estava no plano inicial, juntou ainda alguns países da Europa (Turquia, Bulgária, Sérvia, Hungria, Áustria, Eslováquia, Polónia, Alemanha, República Checa, Grécia e Reino Unido) onde aproveitou para rever companheiros de viagem. “Conheci muita gente, cheguei a viajar com as mesmas pessoas durante um mês e meio”.

O tempo de quem sai apenas comandado pela vontade de passar fronteiras passa rápido e, não fazer nada, acaba por ganhar um outro significado. No caso de Tiago, o ano passou-se entre caminhadas, novos locais, fotografias, mergulho, surf, sol e farra. Entre conversas “com gente de todos os cantos do mundo”, mas também “a dormir em comboios, barcos ou autocarros”. O ensinamento é só um: “viver intensamente e absorver o máximo”.

“Viajar não é passar umas férias lindinhas de cocktail na mão”, conta Maria Miguel Pereira (32), a Mami Arqueolojista, que partiu do México para o Panamá há seis meses, de onde regressou recentemente. “Há dias de praia e de aventura, mas também há dias de chuva e cansaço. Os meus preferidos são quando já começo a sentir-me mais do sítio. E esses são os dias de ir ao café, falar com a velhota que viveu os tempos da revolução, comer bem na tasquinha ou sentar no banco de jardim da praça e sentir que a vida lá de fora é igual à de cá mas perceber que existem outras estratégias de lidar com as mesmas dificuldades, e isso é conhecimento precioso”, conta.

Passou 180 noites fora. Dormiu em hósteis baratos, em autocarros, tendas e até em sofás alheios – o couchsurfing que traz surpresas a cada casa que se conhece. Não tem, porém, dúvida nenhuma: “Lá fora percebe-se o muito que há cá dentro”. Talvez por isso, reconheça que há cada vez mais portugueses a aderir a estas “modas”. “Um português no mundo descobre que tem uma guelra de herói. Somos resistentes, hospitaleiros e unificadores. Somos do caraças!”, diz, admitindo que a sua casa agora também é de quem viaja: “Estou a arrendar a minha casa a mochileiros. Misturamos histórias de lá com o vinho de cá”.

João Koehler, um dos investidores do Shark Tank português e presidente da ANJE (Associação Nacional de Jovens Empresários), não recomendaria melhor: “uma boa experiência fora de portas pode traduzir-se em valor acrescentado para uma carreira profissional”, afirmou ao Dinheiro Vivo, admitindo que “mesmo que a experiência corra mal, pode vir a contar para um emprego futuro”.

O exemplo vem dos Estados Unidos e da pedagogia do insucesso, diz. “Para um norte-americano, falir uma empresa é uma referência, um sinal de que ousou lançar um negócio, lutou por ele e passou por uma situação difícil porque não conseguiu fazer sucesso. Uma experiência em contexto internacional pode ser um atestado de ousadia, irreverência, capacidade de liderança e de tomada de decisões”.

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