“Defendemos empréstimos baratos para pagar subsídios de desemprego"

Diretor-geral do Emprego da Comissão Europeia defende novo mecanismo comum para evitar cortes nesses apoios, como sucedeu em Portugal na última crise.

Há um certo tom de urgência, de corrida contra o tempo, de contagem decrescente até à próxima crise, nas palavras de Joost Korte, diretor-geral do Emprego da Comissão Europeia (CE).

O alto dirigente veio a Portugal apresentar o relatório anual sobre o país onde Bruxelas avalia o estado da economia, das questões sociais e das contas públicas portuguesas, onde foi orador principal numa conferência organizada pela representação da CE em Portugal.

Em entrevista exclusiva ao Dinheiro Vivo (DV), o responsável mostra preocupação com a próxima vaga de desemprego nos países europeus. Esta pode surgir a qualquer momento, tendo em conta a rápida degradação das condições em algumas sectores da atividade económica, amplificada mais recentemente pela epidemia do novo coronavírus.

Na tentativa de preparar esse futuro, a Comissão Europeia (CE) está a negociar com os países da União um mecanismo de subsídio de desemprego comum aos 27 que sobreviva ou seja imune aos cortes na despesa pública que sempre acontecem cada vez que há uma recessão económica.

“Uma das ideias que estamos a defender é um mecanismo de empréstimos baratos, bonificados, de assistência orçamental e financeira aos Estados, que financiem o pagamento dos subsídios de desemprego em caso de crise, evitando cortes nos apoios quando as pessoas mais precisam deles”, explica o dirigente da CE.

A imposição de cortes e limitações nos subsídios de desemprego foi justamente o que aconteceu a Portugal na altura do programa de austeridade, lembrou o responsável de nacionalidade holandesa. A ideia era ajudar a reduzir o défice através de austeridade orçamental, mas esta acabou por agravar ainda mais a pobreza e a exclusão social, piorando o ambiente já de si recessivo.

Como referido, uma das soluções em cima da mesa é um “sistema de empréstimos garantidos pelo orçamento da União Europeia” que “ajude os governos a continuar a pagar os subsídios de desemprego das pessoas que perderam o emprego por causa de uma crise”, reitera Korte.

“Na verdade, pode ser a crise do coronavírus. Sabemos que haverá um impacto, dependendo de quanto tempo dure a epidemia. Sabemos que há algumas empresas que precisam de parar ou fechar porque não têm os componentes da China e, na verdade, isto já está a acontecer”.

O diretor-geral também nota que no turismo a travagem da atividade é ainda mais evidente, o que pode servir de aviso a Portugal, por exemplo. “As pessoas simplesmente não viajarão tanto quanto planearam e muitas ficarão em casa. Portanto, as duas coisas juntas terão certamente um impacto, mas não estou em posição de fornecer um número para isso”. Ainda é cedo.

Em todo o caso, Joost Korte relembra que Portugal assim como os outros países da zona euro estão hoje muito mais bem preparados para enfrentar uma crise e que, nesse sentido, “quando falamos de financiar um subsídio de desemprego europeu”, falamos de um mecanismo de solidariedade, mas não estamos a falar de valores enormes”.

“O comissário Paolo Gentiloni, o responsável por esta pasta no departamento económico e financeiro da comissão, anunciou que avançará com uma proposta antes do final do ano”.

Ainda assim, Korte deixa um alerta a Portugal. Embora “não considere que exista uma crise real e profunda que possa explicar um aumento muito forte do desemprego, há questões estruturais, de fundo que devem ser resolvidas”.

“O bom é o governo Português concorda com as análises sobre as fraquezas estruturais: as razões para os desequilíbrios macroeconómicos, a baixa produtividade do trabalho, a dimensão das qualificações, a exposição aos créditos malparados”. “Face há dois ou três anos, está tudo muito melhor. Estamos a ir na direção certa, mas ainda não chegámos lá”.

“Portugal precisa se tornar muito mais atrativo para os investidores estrangeiros”, remata o entrevistado.

Turismo. “As pessoas vão pensar duas vezes antes de irem de férias”

Joost Korte foi questionado sobre a alta exposição de Portugal ao turismo e como isso pode derrubar a economia portuguesa num ápice. O diretor-geral do Emprego preferiu responder com uma crise que viu acontecer com os seus próprios olhos no início deste ano.

“Por total acaso, há três semanas estava na Tailândia. Naquela altura do ano, a Tailândia teria, normalmente, onze milhões de turistas da China porque nessa altura era o Ano Novo Chinês. Os chineses vão muito de férias para a Tailândia, mas o que constatei é que este ano não foram de todo. Imagine, 11 milhões de pessoas. O número de turistas chineses na Europa também é bastante considerável nos navios de cruzeiro, portanto aqui já está a haver um impacto grande, com certeza”, descreveu Korte.

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