Coronavírus

Défice português chega a 11% e dívida passa 145% em 2020

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O primeiro-ministro, António Costa, e o ministro das Finanças, Mário Centeno. Fotografia: MIGUEL A. LOPES/LUSA

Com 18% de pessoas na pobreza, "Portugal tem margem reduzida para absorver o choque nos rendimentos" devido ao Covid-19, avisa economista do Unicredit

Portugal deverá sofrer uma das mais pesadas recessões num grupo de 14 países analisados num novo estudo. A dívida dará um dos maiores saltos.

O défice público nacional vai disparar até perto de 11% do produto interno bruto (PIB) e a dívida pública sobe até quase 146% do PIB, o mesmo que dizer que o país sairá desta crise com o quarto maior fardo de endividamento no mundo desenvolvido (algo que aliás já assim era antes da pandemia). A economia nacional colapsa 15% em 2020, o terceiro pior registo de uma pesquisa agora revelada.

Se o défice chegar a 11%, mesmo que temporário, será o segundo mais elevado desde 1995, pelo menos. Foi superado apenas em 2010 (11,4% do PIB), estava Portugal a cair na bancarrota que depois teve como sequência o programa de austeridade do governo PSD-CDS e da troika.

A equipa de estudos económicos do Unicredit, o maior grupo bancário de Itália e um dos maiores da Europa, avançou com um primeiro estudo comparativo entre países onde mostra o que pode acontecer às economias, mas também às contas públicas por causa da pandemia do coronavírus.

Dívida explosiva

Portugal sai mal na fotografia, sobretudo no domínio da dívida pública, que pode atingir uns perigosos 145,7% do PIB no final deste ano.

É um rácio perigoso porque está muito acima da referência de 60% que vem nos tratados e de 90%, valor que é referido na literatura clássica como a fasquia que divide dívida sustentável de não sustentável.

Além do mais, embora a Comissão Europeia tenha dito que pretende flexibilizar algumas regras do Pacto de Estabilidade, ninguém nem nenhuma instituição europeia propôs até agora a suspensão da regra da dívida, que assim terá de cair todos os anos até chegar aos 60% (como requer o Pacto).

Neste estudo do Unicredit, Portugal também não muda a sua posição relativa no campeonato mundial dos endividados.

Segundo o INE, o país (setor público) terminou 2019 com um rácio de 117,7% e a perspetiva, antes da pandemia, era que este fardo caísse até aos 114,9% em 2020.

Tal não vai acontecer. O grupo de peritos do banco sinaliza que Portugal deve acabar este ano com os referidos 145,7%, quase 280 a 310 mil milhões de euros em dívida pública (assumindo que o PIB nominal cai para perto de 190 mil milhões de euros), valor que fica muito acima dos 252 mil milhões previstos antes desta crise por Mário Centeno, o ministro das Finanças.

No mundo desenvolvido, as dívidas mais altas, incluindo já o embate do vírus, continuam a ser, como sempre foram, as de Japão (260%), Grécia (218,6%), Itália (167%) e Portugal (145,7%). Em 2021, o fardo da dívida portuguesa desce para cerca de 136%.

Como referido, a pesquisa do Unicredit prevê ainda que, no conjunto dos 14 países, Portugal acabe este ano com a terceira maior recessão (ex-aequo com Itália), vendo a economia a recuar 15%. Pior só Grécia (quebra de 18,6%) e Espanha (menos 15,5%). A Alemanha, o motor da União Europeia e da zona euro, derrapa 10%.

Em 2021, a retoma acontece, com o PIB português a ganhar cerca de 10%, mas isto não compensa nem de perto, nem de longe a destruição recorde em 2020, que será, pelos vistos, a maior recessão alguma vez registada em Portugal.

Dos países analisados, só a China deve escapar à recessão. Os analistas apontam até para um crescimento ligeiro de 0,6%.

De regresso às contas públicas, o Unicredit também prevê que o défice dispare até 10,9% em 2020. Em 2021, Portugal continuará a violar a regra-mãe do Pacto, com o défice acima dos 3%, em cerca de 4,1%. A Alemanha já estará de novo de volta aos eixos, com um défice de 2,9%, projetam os economistas.

Portugal visto a partir de Milão

Tullia Bucco, a economista que se debruçou sobre a realidade portuguesa, está baseada em Milão, justamente umas das regiões europeias mais devastadas pela pandemia. A recessão de 15% em 2020 tem por base um recuo de 5% no primeiro trimestre e de uns brutais 20% a 25% no segundo trimestre, diz a analista. Depois virá a recuperação: mais 10% no terceiro e no quarto trimestre “à medida que as restrições são progressivamente reduzidas”. Em todo o caso, trata-se “da pior desaceleração que o país já experimentou”.

Bucco refere ainda que “a deterioração súbita e acentuada” reflete “alguns fatores característicos da economia portuguesa que tornam o país particularmente vulnerável a este tipo de choques”.

O turismo é logo o primeiro a ser apontado. Manancial de riqueza durante anos, o turismo que representava 27% da economia vai arrastar tudo à sua volta.

“Os hotéis registaram uma queda acentuada nas reservas”, “a principal companhia aérea do país, a TAP, reduziu operações e anunciou o congelamento de contratações e investimentos”.

“Além disso, o setor empresarial é quase inteiramente composto por micro e pequenas empresas (97% do total), cuja situação financeira relativamente frágil será agora testada pela interrupção abrupta nos fluxos de tesouraria”, observa a economista italiana.

Finalmente, mas não menos importante, a especialista alerta para a “elevada percentagem de famílias abaixo da linha da pobreza (18%)”, o que “significa que há apenas uma margem reduzida para absorver o choque nos rendimentos, como alertou recentemente o Banco de Portugal”.

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