Coronavírus

Depois da calamidade de saúde, Ovar tenta reerguer a economia

A cerca sanitária a Ovar vigorou desde o dia 17 de março, impondo fortes restrições à atividade económica do concelho. Foto: André Gouveia/Global Imagens
A cerca sanitária a Ovar vigorou desde o dia 17 de março, impondo fortes restrições à atividade económica do concelho. Foto: André Gouveia/Global Imagens

Um mês de paragem custou pelo menos 500 milhões de euros à indústria. O regresso à normalidade ainda gera muitas dúvidas.

O telefone de Henrique Araújo não parou de tocar nas últimas semanas. O empresário recebeu mais de mil chamadas e tornou-se uma espécie de psicólogo da economia de Ovar. “Estivemos em transe”, admite ao Dinheiro Vivo o líder do GACEMA – grupo de apoio a comerciantes e empresários daquele município do distrito de Aveiro.

Nos últimos 30 dias, Ovar foi um concelho em estado de calamidade e ficou debaixo de um cerco sanitário: apenas eram permitidas entradas e saídas em casos excecionais e só as empresas que produzem bens de primeira necessidade puderam funcionar. Perderam-se, pelo menos, 500 milhões de euros em faturação.

Com muitas condicionantes, a indústria retomou muito lentamente a atividade a partir de 3 de abril e só no início desta semana as fábricas começaram a reabrir. Levantado o cerco, Ovar tenta reerguer a economia.

“O regresso à normalidade vai depender muito da retoma da confiança das pessoas e dos mercados”, destaca Fernando Paiva de Castro, líder da Associação Industrial do Distrito de Aveiro (AIDA). “Vai ser um bico-de-obra recuperar a capitalização das empresas. Os empréstimos não são suficientes nem são a melhor solução porque muitas das empresas já têm um índice de endividamento acima dos 100%”, lamenta.

Segundo o último Censos, Ovar conta com 55 mil residentes, dos quais mais de 38,2% são trabalhadores (21 mil pessoas). As 1500 maiores unidades empregam, por si só, quase metade desta força de trabalho (cerca de 12 500 operários).

Outrora baseado na fertilidade do solo, da ria e do mar, Ovar industrializou-se fortemente a partir de meados do século passado. Nas últimas décadas, instalaram-se sobretudo fábricas de componentes, plásticos, calçado, papel, rações, artigos de madeira, cordoarias e tapeçarias. A indústria local representou uma faturação de cinco mil milhões de euros no ano passado, segundo as contas da AIDA.

Mas dentro do concelho também existem centenas de atividades comerciais que ficaram paralisadas no último mês. Foi devido a isso que nasceu o GACEMA, há apenas três semanas. “Queremos estar sobretudo do lado dos micro e pequenos empresários. Enquanto grupo de voluntários, ajudamos em matéria de Segurança Social, economia, fisco, higiene e segurança do trabalho”, detalha Henrique Araújo.

Centenas de empresários, entretanto, começaram a partilhar as dúvidas e as ansiedades dentro de grupos na rede social Facebook. “Ficou tudo focado na saúde mas era preciso dar algo à economia. São necessários empréstimos a fundo perdido. Se não recuperarem o montante, declare-se fundo perdido porque é preciso salvar empregos”, exige o líder do GACEMA.

Dentro de algumas semanas, e já depois de sair do estado de calamidade, o grupo de apoio pode tornar-se uma associação. “A situação é tão grave que os nossos membros querem de nós outra representatividade.”

Reabertura passo a passo

Ovar foi o primeiro concelho em Portugal onde foi decretado o estado de calamidade pública. Dia 17 de março, já havia 30 infetados no município – havia 448 no total nacional – e transmissão comunitária de covid-19.

Nos primeiros 15 dias, toda a produção industrial ficou paralisada. Quem reside no concelho e ficou impedido de trabalhar recebeu o salário na totalidade, através da Segurança Social.

A reabertura só se iniciou dia 2 de abril: uma resolução do Conselho de Ministro abriu a porta para o regresso, no dia a seguir, da fábrica de sistemas de segurança da Bosch e da empresa de plásticos de engenharia e alumínios Lanema.

Na segunda-feira seguinte, perto de 30 empresas ficaram autorizadas a retomar a produção, graças a três despachos do Ministério da Economia. Dia 9, novo despacho permitiu o regresso à atividade de cerca de 300 empresas industriais, e de comércio grossista na semana seguinte.

“Houve empresas em que a reabertura foi extemporânea”, entende Justino Pereira, do SITE Centro Norte. Sentimos que isso aconteceu porque houve certa pressão de algumas empresas industriais, que têm peso na economia da região, entende o dirigente do sindicato afeto à CGTP que representa os operários das indústrias transformadoras.

As linhas de produção, no entanto, só puderam reabrir respeitando quatro condições: não podem trabalhar pessoas com mais de 60 anos; têm de ser cumpridas regras de distanciamento social e usados equipamentos de proteção individual; a ocupação máxima está limitada a um terço dos operários; só podem entrar nas instalações os funcionários residentes em Ovar.

Só que ainda há várias falhas dentro das fábricas, segundo os relatos dos sindicatos. “Ainda há insuficientes meios de proteção para os trabalhadores se salvaguardarem”, denuncia Isabel Tavares, dirigente do sindicato dos trabalhadores do setor têxtil de Aveiro.

Justino Pereira partilha a mesma preocupação e lembra que “nem sempre é fácil garantir” que são cumpridas as regras de distanciamento social – dois metros entre pessoas. O dirigente chama a atenção para que o delegado de saúde local verifique a situação.

A Yazaki Saltano é uma das 30 empresas que poderiam ter retomado a atividade logo no dia 6. A fábrica de componentes para automóveis só o vai fazer a partir de segunda-feira, dia 20, com uma “estratégia de arranque faseada” e que “não ultrapassa, nesta fase, 10%” do pessoal na área das operações.

Esta empresa diz ainda que tomou várias medidas preventivas, como “a medição de temperatura corporal todos os dias, a disponibilização de borrifadores de desinfetante de superfície para que todos os postos sejam desinfetados no início e fim de cada utilização, e de kits com máscaras”.

“Pressão dialogante”

Todos reconhecem que as empresas de Ovar vão ter mais dificuldades a recuperar do que as empresas do resto do país. O presidente da Câmara Municipal, Salvador Malheiro, já defendeu que “é de elementar justiça olhar-se para as empresas do município de Ovar de maneira diferente”.

Do lado do governo, não há um plano de ação específico, para já. No Parlamento, o Bloco de Esquerda já recomendou ao executivo um programa de “recuperação económica e social específico” para o concelho. Este pacote de medidas deve mesmo incluir um “conjunto de apoios à manutenção e majoração dos postos de trabalho das pequenas e médias empresas”.

Retirar a economia de Ovar do transe vai depender muito das medidas tomadas nos próximos meses. O presidente da Câmara de Ovar já veio lembrar que tem feito “pressão dialogante” junto do governo.

“Vamos falar com eles – temos tido uma excelente interação -, mas as nossas empresas precisam de uma discriminação positiva do lado da economia. Toda a gente irá perceber que temos de reivindicar uma pressão positiva para os nossos empresários.”

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