Depósitos em máximos de sempre espelham desigualdade da crise

Com moratórias nos créditos e menos gastos, algumas famílias elevaram os depósitos nos bancos nacionais para os 160,2 mil milhões de euros, um novo recorde. Em 2020, até novembro, foram depositados quase dez mil milhões.

É uma das provas de como a crise económica iniciada em 2020 não atinge todos os portugueses por igual. Enquanto o desemprego subiu com as medidas restritivas, que levaram ao fecho de empresas, para outras famílias o rendimento disponível permitiu poupar mais em tempos de incerteza. No total, em termos líquidos, são 54 milhões de euros que os portugueses depositam por dia, em média, nos bancos do país. Os dados são de novembro e foram ontem divulgados pelo Banco de Portugal.

Ao todo, são já 160,2 mil milhões de euros que estão depositados nos bancos nas contas dos particulares. É um novo máximo de sempre e compara com os 158,6 mil milhões de euros registados no mês de outubro.

Só no mês de novembro os depósitos das famílias engordaram em 1620 milhões de euros. São quase dez mil milhões depositados nos 11 meses de 2020, apesar das taxas de juro de 0% ou próximas de zero. Somando os montantes aplicados em certificados estatais, as famílias têm já 190 mil milhões de euros postos de lado nestas aplicações mais seguras.

A tendência vem de trás. Houve um reforço nos depósitos no ano passado. A maior subida foi notada entre janeiro e julho, quando o montante depositado por particulares atingiu os 159,2 mil milhões de euros. Em agosto recuou, para retomar a subida em setembro.

"Esta é uma crise que não afeta todos de forma igual", sublinha Filipe Garcia, economista da IMF - Informação de Mercados Financeiros. "É um fenómeno muito assimétrico que, infelizmente, colocou muitas famílias em situações muito complicadas", salientou. As outras, as que têm beneficiado das medidas implementadas no âmbito da epidemia do novo coronavírus, são as que suportam os recordes atingidos nos depósitos bancários. "Têm moratórias no crédito, menos gastos, porque muitos trabalham em casa. E consomem menos, viajam menos, poupam mais", frisa o mesmo economista.

Estão em vigor, pelo menos até ao fim de setembro de 2021, moratórias no crédito, que permitem a suspensão do pagamento das prestações de alguns empréstimos, incluindo da casa. O teletrabalho também trouxe poupanças em despesas de deslocação. E as famílias saem menos, vão menos ao restaurante e ao centro comercial. Também não viajam. "Isto num contexto de estímulos monetários dos bancos centrais. É uma situação anormal", salienta Filipe Garcia.

Portugal não é o único país da União Europeia a viver esta situação. "É um fenómeno a nível europeu. Há um aumento da poupança, em geral", afirma o economista. No caso de Portugal, a tendência tem sido visível na melhoria da taxa de poupança, que subiu em 2020. No final de setembro, situava-se em 10,8% do rendimento disponível, segundo dados do Instituto Nacional de Estatística. Em 2019 foi de 7,2%. A chegada da aguardada vacina não parece travar a intenção de governos europeus de aplicarem mais medidas restritivas. "Antes de melhorar, vai haver uma nova onda de fecho (confinamento) por toda a Europa e esse aumento dos depósitos vai continuar", conclui.

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