empreendedorismo

Desempregados que criam negócios geram mais emprego

Joana Valadares e a sócia, Teresa Madeira, decidiram avançar em 2015, depois do encerramento da empresa onde trabalhavam há 20 anos. Usaram o Montante Único para conseguir o capital necessário e a Mimobox arrancou em 2016. Já quadruplicaram o volume de negócios. (Foto cedida pelas retratadas)
Joana Valadares e a sócia, Teresa Madeira, decidiram avançar em 2015, depois do encerramento da empresa onde trabalhavam há 20 anos. Usaram o Montante Único para conseguir o capital necessário e a Mimobox arrancou em 2016. Já quadruplicaram o volume de negócios. (Foto cedida pelas retratadas)

Estudo mostra que empresas de desempregados que recebem subsídio de uma só vez criam mais emprego, são mais produtivas e crescem mais depressa.

A ideia já remexia nas cabeças de Joana Valadares e de Teresa Madeira há algum tempo. Quando a empresa onde trabalhavam fechou e se viram no desemprego foi o incentivo que faltava para lançar um negócio. “Já existia essa ideia”, recorda Joana Valadares ao Dinheiro Vivo. “Falávamos muito entre nós, mães. Dávamos conselhos a outras mães.” E foi o salto para a criação da Mimobox, uma caixa surpresa com produtos para grávidas e bebés até aos 3 anos. “É uma ajuda às mães e um serviço às marcas, com a ativação das mesmas”, explica.

Para lançar a empresa, Joana e Teresa recorreram à medida Montante Único, do Instituto do Emprego e Formação Profissional (IEFP), que permite aos beneficiários do subsídio de desemprego terem acesso “à cabeça” a todo o dinheiro que iriam receber ao longo do período de duração da prestação. Joana Valadares lembra-se dos meses à espera de resposta e admite que “nem toda a gente tem capacidade para esperar” porque a “partir do momento em que se pede o apoio deixa-se de receber o subsídio”. Mas “valeu a pena” e não voltavam atrás na decisão. Neste momento, a Mimobox já faz distribuição para todo o país, incluindo ilhas.

Também Rita Sousa Rego acabou por recorrer a esta solução para lançar o próprio negócio, mas apenas pediu uma parte do valor total do subsídio de desemprego, continuando a receber a outra parte nas habituais prestações mensais.

“Estava estagnada, sem perspetivas de valorização salarial”, conta ao Dinheiro Vivo. Já tinha pensado em abrir o próprio negócio na área do marketing editorial e depois de sair da empresa, com acordo, percebeu que era o tempo certo para avançar. Pediu ajuda a um advogado amigo para “a papelada” e apresentou o projeto que “demorou poucos meses a ser aprovado pelo IEFP. “Usei o dinheiro para comprar equipamento: computadores, impressoras e estantes”, conta Rita Rego, que recorre a colaboradores externos para alguns trabalhos, como fotografia ou ilustração.

Medir o sucesso
Em média, por ano, cerca de 1500 portugueses que perderam o emprego acabaram por criar o seu próprio negócio através da medida Montante Único. O programa, que existe desde 2009, pretende fomentar o empreendedorismo, dando uma ajuda essencial no arranque com o financiamento inicial. “Uma questão que existe sempre no empreendedorismo e não é só em Portugal – também a nível europeu – é o de saber se há fundos suficientes para que quem quer criar o seu próprio negócio o consiga fazer. Ou seja, se é fácil aceder a fundos”, explica ao Dinheiro Vivo Miguel Ferreira, professor catedrático da Nova SBE e coautor de um estudo sobre a eficácia da medida na criação de empresas e empreendedorismo juntamente com Francisco Queiró, Marta Lopes e Hugo Reis.

O estudo, que ainda está a ser finalizado, tenta responder à questão do sucesso de uma medida deste género e Miguel Ferreira, também responsável pelo Finance Knowledge Center da Nova SBE, tem uma resposta clara: “teve um efeito positivo e o programa tem sido bem-sucedido em termos de número de pessoas que tem utilizado esta possibilidade e em termos de empresas que foram criadas”, acrescentando que esta medida “mostra que havia uma falha do sistema bancário que este programa permitiu colmatar”, afirma.

O incentivo certo?
As conclusões indicam que a medida favorece o empreendedorismo e aumenta a probabilidade de criar o próprio emprego. “Por cada mil euros disponibilizados pelo programa, a probabilidade de criar um negócio aumentou em 16%, que é um efeito bastante significativo”, sublinha Miguel Ferreira, lembrando que, “na população em geral, a probabilidade de criar um negócio é de 1% apenas”.

Mas as empresas constituídas ao abrigo do programa demonstram ter outras características que escasseiam nas outras empresas. “Chegámos à conclusão de que em termos de criação de emprego e em termos de produtividade e crescimento das vendas estas empresas estão acima da empresa média”, explica o responsável pelo centro de investigação, um dos oito Knowledge Centers criados pela universidade.

E a taxa de sobrevivência também é mais elevada do que a média das empresas. “Interessa também analisar a qualidade dessas empresas, se sobrevivem por pouco tempo e as pessoas apenas estão a tirar partido do programa para no curto prazo voltarem ao mercado de trabalho ou se realmente estão a criar empresas que sobrevivem”, adianta Miguel Ferreira. E a conclusão é que “relativamente à empresa média que é criada, são mais prováveis de sobreviver a 3 e 4 anos – ou seja, a taxa de sobrevivência é maior”.

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