Desemprego continua a subir para os mais novos e apanha jovens da última crise

O país recuperou em 2021 o emprego perdido com o choque da pandemia e mostra agora níveis historicamente altos de postos de trabalho ocupados. Mas entre as gerações mais novas a situação continuou a piorar e há jovens a engrossar o desemprego de longa duração, que subiu 26% no último ano.

A crise trazida pela pandemia, por muitas vezes descrita como assimétrica, continua a trazer perspetivas mais sombrias para um dos lados do mercado de trabalho, o mais jovem, com as oportunidades a ficarem visíveis em 2021 para os mais velhos, com mais de 44 anos, os grandes beneficiários da recuperação do emprego em 2021, com estes trabalhadores a subirem 6,5% face ao ano anterior.

Do lado das gerações mais novas, porém, o emprego regrediu ainda em 0,8%, enquanto os números do desemprego mantiveram a subida também no último ano, com a taxa de desemprego jovem (dos 16 aos 24 anos) a atingir 23,4%, agravada, e a representar já 3,5 vezes a taxa de desemprego da população total.

Face a 2014, primeiro ano de recuperação de emprego após a última crise, os números do desemprego são hoje muito mais benignos. Mas, neste indicador está-se pior do que à saída dessa crise - mais longa, mais dura, mais transversal - quando a taxa de desemprego jovem representava 2,5 vezes a da população total. O desemprego jovem caía há oito anos, agora não. As explicações serão várias.

Paulo Marques, coordenador do Observatório do Emprego Jovem, constata que "tem havido um agravamento" progressivo na relação entre as taxas de desemprego jovem e a taxa que cobre o conjunto da população que merece reflexão. "É importante, até porque isso não tem acontecido na União Europeia. Em Portugal tem havido esta desigualdade entre os jovens e a população adulta", refere.

Também Renato Miguel do Carmo, coordenador do Observatório da Desigualdade, entende que os últimos dados do Instituto Nacional de Estatística, publicados na quinta-feira, indicam que "pessoas que conheceram o desemprego nessa primeira vaga da pandemia estão com dificuldades em regressar". E as perdas de emprego foram sobretudo perdas para os jovens.

Paulo Marques recorda a maior prevalência de contratos a prazo entre os mais novos, ao serviço também de setores mais afetados pela pandemia, como o turismo e comércio. Foram estes os contratos que ficaram fora do manto de proteção dado pelo lay-off simplificado, a grande medida de suporte económico e social de 2020, que travou o afastamento de contratos permanentes, mas não impediu a não renovação de vínculos. "Houve muita destruição de emprego jovem porque esses jovens tinham contratos a termo certo", assinala.

Renato Miguel do Carmo aponta também a precariedade das relações de trabalho com os mais jovens como uma das principais justificações para a desigualdade geracional nas saídas da crise pandémica. "Um dos problemas fundamentais da geração de trabalhadores mais jovens é a precarização do trabalho. Estavam na antecâmara do desemprego quando aconteceu a pandemia".

Um ano depois, porém, a situação não melhorou. Paulo Marques junta mais fatores que ajudam a explicar o cenário pior entre gerações mais novas, frequentemente descritas como as mais qualificadas de sempre. Desde logo, a capacidade de as empresas absorverem mais trabalhadores além daqueles que retiveram nos momentos mais agudos com a ajuda do lay-off. "As empresas também não estavam numa fase de expansão. Quem está a acabar a sua formação neste período teve uma dificuldade muito grande nesta transição para o mercado de trabalho", refere. Por outro lado, diz, até aqui "a economia não cria emprego suficiente para o exponencial aumento de pessoas qualificadas, e o ensino profissional também está pouco ligado ao tecido empresarial, o que também dificulta".

O coordenador do Observatório do Emprego Jovem admite também que algumas políticas ativas de emprego, determinantes para inserção laboral dos mais jovens, possam estar a falhar, dando como exemplo a abertura do programa de estágios na Administração Pública de 2021, que terminou com 110 vagas em 500 por preencher. "Ou as políticas não foram bem desenhadas, não foram ao encontro das necessidades, e se calhar podiam ter sido de outro tipo, ou então não chegaram aos jovens", equaciona. "É uma dimensão que parece estar um pouco frágil".

Com o desemprego de longa duração a subir 26%, e depois de os mais novos terem sido os mais penalizados na perda de emprego, Paulo Marques admite o risco de exclusão social e desvalorização de competências entre os jovens que ficam à porta do mercado de trabalho. "É extremamente negativo termos jovens que estão há mais de um ano sem estar a trabalhar. Essas pessoas acabam depois por desistir, tornam-se NEET (nem no emprego, nem em formação), um problema que existiu na crise anterior. São pessoas que começam a estar excluídas". O número dos chamados NEET caiu no último ano, mas permanece elevado, com mais de 200 mil jovens, cerca de metade dos quais inativos.

Renato Miguel do Carmo refere que "pode haver também situações de pessoas que optaram por investir na escolarização, nomeadamente, de segundo e terceiro ciclos: mestrados e doutoramentos". "Esse fluxo para o ensino superior aumentou muito. Mas isso não explica tudo".

Por outro lado, os dados do trimestre final de 2021, também libertados quinta-feira, dão conta de uma subida trimestral do desemprego que afeta sobretudo aqueles que têm hoje entre os 35 e os 44 anos, geração que enquanto jovem viveu os efeitos penalizadores da última crise, apanhada também pela atual. "É preciso ver se isto se mantém. Esta geração foi muito atingida e entrou para o mercado de trabalho com contratos muito precários, e agora nota-se que é uma geração que tem um conjunto de fragilidades", refere Paulo Marques.

A falta de qualidade do emprego pode, por outro lado, também estar a afastar os jovens da procura de emprego. Renato Miguel do Carmo lembra um movimento que está a ocorrer noutros países, já apelidado de "the great resignation", em que a falta de condições de trabalho, baixos salários e insatisfação têm afastado muitos da procura de emprego. Mas, para Portugal, não há dados.

Certo é que, na investigação qualitativa que tem vindo a fazer, o coordenador do Observatório da Desigualdade tem encontrado a desvalorização do trabalho como característica entre as gerações mais novas e mais precárias. "Temos feito trabalhos qualitativos em torno da precariedade. No discurso das pessoas que estão em situação precária há muito a questão da falta de reconhecimento e da desvalorização do próprio trabalho, para além das questões salariais, contratuais, da instabilidade, da incerteza, o que cria dificuldade em projetar o futuro". "Era importante perceber o que está aqui a passar-se. Neste pós-pandemia, há várias dinâmicas que são difíceis de identificar", diz.

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG

Patrocinado

Apoio de