Despedimentos coletivos regressam. Contratações compensam

Pedro Mota Soares, Pedro Passos Coelho e Paulo Portas

No ano passado, por esta altura, tinham sido anunciadas intenções de despedimento coletivo envolvendo 2547 pessoas. Neste ano, até agora, os planos vindos a público visam já 2622 postos de trabalho, indicam dados coligidos pelo Eurofound e pelo Dinheiro Vivo.

No entanto, as intenções de despedir continuam a ser sobejamente compensadas pelos planos de contratação, um sinal consistente da ainda lenta retoma do mercado de trabalho. Até ao início de outubro deste ano os planos positivos apontavam para a criação de 10 425 postos de trabalho.

No mesmo período de 2014, o total envolvido rondava os 3835, indica o mesmo Eurofound, entidade da União Europeia que monitoriza e analisa os mercados de trabalho de todos os países da UE.

Em Portugal, curiosamente, os maiores projetos de destruição e de criação de emprego neste ano acontecem no sector público.

A maior redução é na Base das Lajes, nos Açores (menos 500 postos, como foi formalizado em janeiro deste ano pelo governo dos Estados Unidos). Uma decisão dura para a ilha Terceira, que tem apenas 56 mil habitantes.

Em sentido inverso, a contratação mais importante aponta para 3900 profissionais de saúde (2000 enfermeiros e 1900 médicos), segundo o anúncio de fevereiro do ministério de Paulo Macedo.

Pelo meio, claro está, multiplicaram-se os planos das empresas privadas, seja para despedir ou para sair do país, seja para reforçar equipas no mercado português.

Todos os números referidos são intenções e dizem respeito a operações de “larga escala” detetadas pelo Eurofound. Os planos de despedimento e de contratação mais pequenos ou menos mediáticos podem não aparecer neste radar.

A informação coligida pela agência europeia deixa perceber as tendências. O mercado de trabalho português está no mínimo mais agitado. No sector privado percebe-se, por exemplo, que a crise da construção civil continua, mas que a mediação imobiliária está em ebulição.

Crise na construção

As construturas de referência Somague e Soares da Costa protagonizaram dois dos maiores despedimentos coletivos em 2015, até agora.

Em maio, a Soares da Costa, controlada pelo empresário angolano António Mosquito [também acionista da Global Media, que detém o Dinheiro Vivo], anunciou a supressão de 272 postos (cerca de um terço da sua equipa em Portugal), alegando “falta de trabalho”, diz o Eurofound. A construtora revelou que irá focar a sua atividade em Angola, Moçambique e noutros mercados africanos.

Já nesta semana, um dia depois das eleições (5 de outubro), foi a vez de a Somague, outra grande empresa do sector controlada pelos espanhóis da Sacyr Vallehermoso, anunciar a intenção de despedir 273 pessoas, todas em Portugal. A “reestruturação” está inserida num plano mais vasto (internacional).

A Somague empregava “980 trabalhadores em território nacional, parte dos 2330 a nível global”, indica a agência. Três dias depois seria a vez de a Unicer avançar com um plano para afastar 125 empregados (ver entrevista ao lado).

Em todo o caso, o maior golpe deste ano aconteceu no já muito sacrificado vale do Ave, com a falência da Arco Têxteis. Em março, o tribunal de Santo Tirso decretou a insolvência da empresa, levando ao despedimento dos seus 288 trabalhadores.

A decisão surge na sequência “do chumbo dos credores, nomeadamente bancos, de um Plano Especial de Revitalização que a administração da empresa solicitou em 2014”, indica o Eurofound.

Entre outros casos significativos, conta-se a redução de 219 postos (19% do total de empregados) no distribuidor grossista Makro.

Imobiliárias e call centers em alta

Mas este ano (até agora) também teve boas notícias. O sector imobiliário é claramente o protagonista.

Em fevereiro, a consultora imobiliária Decisões e Soluções decidiu que até final do ano irá recrutar mil profissionais. Em março, a Remax anunciou um reforço de 500 pessoas. Em junho, seria a vez da Era, com mais 500 contratações.

E o que dizer de 800 novos empregos em call centers? Se os planos de duas empresas do sector se concretizarem, é o que irá acontecer. Em abril, o grupo Concentrix anunciou a abertura de um centro com 500 profissionais em Matosinhos e reforço da equipa que já tem a operar em Braga.

Em maio, foi a Teleperformance que avançou com um projeto para criar 400 postos de trabalho na “área de vendas”. O reforço acontecerá no call center de Lisboa, no Parque das Nações. O Eurofound diz que a subsidiária nacional do grupo francês “anunciou outras expansões de negócio em 2010, 2012 e 2014”.

O governo PSD-CDS descontinuou a informação mensal sobre despedimentos coletivos. O Dinheiro Vivo pediu ao Ministério do Emprego essa informação, mas não obteve resposta.

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