Desvio de fundos mantém-se a fraude mais comum nas empresas

No último ano, 15% das empresas terão testemunhado situações de fraude, indica um estudo da Deloitte. Mas num em cada quatro casos detetados as organizações cruzaram os braços e decidiram não agir.

O tráfico de influências pode bem continuar a ser assinalado, do ponto de vista das expectativas, como o principal tipo de fraude no país, mas é o desvio de fundos que mais afeta as empresas nacionais no que diz respeito a práticas de fraude efetivas detetadas. Não foram poucas no último ano, com 15% dos inquiridos de um estudo anual da Deloitte a testemunharem a ocorrência de fraude nas organizações onde trabalham.

Os dados constam da terceira edição do Deloitte Fraud Survey 2021, com respostas recolhidas nos meses de junho e julho junto de uma amostra de 137 empresas de diferentes setores e com diferentes dimensões, a nível nacional. O perfil dos convidados a participarem no estudo abrangeu diretores financeiros, responsáveis das áreas de auditoria interna e compliance e também gestores.

O inquérito indica que um universo ainda significativo de organizações lidou em 2021 com a ocorrência de fraudes e o principal tipo de fraude detetado foi o desvio de fundos, com 43% das respostas, seguido de outras tipologias não determinadas, com uma percentagem de 32%. O branqueamento de capitais, a fraude com propriedade intelectual, a escolha preferencial de parceiro, a fraude com comércio eletrónico e o suborno foram respostas dadas ainda, em todos os casos, por 5% dos inquiridos. O incumprimento regulatório, que em 2020 representava 7% de ocorrências de fraude, não é desta vez apontado por qualquer empresa.

Os dados de fraudes efetivamente detetadas contrastam com a perceção dos indivíduos manifestada no mesmo inquérito de que o tráfico de influências (68%) e a corrupção (63%) serão as formas mais comuns de fraude no meio empresarial português.

Por setores de atividade, os dados do inquérito apontam para um problema que prevalece sobretudo entre empresas de bens de consumo, onde o desvio de fundos corresponde a 100% das situações detetadas. Já no setor financeiro - mais propenso a situações de fraude, nas perceções dos inquiridos - a percentagem cai para 25%, destacando-se antes com 49% das respostas outras situações indefinidas, a fraude com propriedade intelectual (13%) e o branqueamento de capitais (também 13%). A área dos serviços não financeiros destaca-se como a única na qual há práticas de corrupção reconhecidas, com 50% das fraudes detetadas a dizerem respeito a pedidos ou tentativas de suborno. O desvio de fundos recolhe a outra metade das respostas. No setor industrial, o desvio de fundos e a escolha preferencial de parceiros surgem, em partes iguais, em 25% das ocorrências, sendo que outros 50% de situações não são determinados.

Um quarto não denuncia

Se o impacto destes casos resulta predominantemente em custos de negócio mais elevados, apontados por 29% das empresas, além da perda de fundos desviados (também 29%), redução de lucros (24%) e perda de reputação (14%), ainda assim, não são todas as organizações que tomam a iniciativa de agir quando detetam fraudes.

Afinal, em quase um quarto das situações (24%) não foi tomada qualquer ação, revela o estudo da Deloitte. A iniciativa de avançar com um processo-crime foi, mesmo assim, a principal resposta encontrada pelas organizações, com 52% de respostas, seguindo-se o acordo disciplinar com despedimento (29%) e opção por um processo informal com reprimenda ou outra penalização (5%).

O estudo não questiona o motivo pelo qual um quarto das empresas que detetam fraudes preferem ficar de braços cruzados, mas os resultados surgem em linha com aqueles que sondam a perceção de efeitos negativos para as organizações em resultado de denúncias. O estudo pergunta se uma denúncia às autoridades deve ser evitada caso ponha em causa a imagem das empresas. Se para 76% dos inquiridos a denúncia deve avançar na mesma, para outros 24% será motivo suficiente para a travar.

Por outro lado, os dados apontam para um aumento no número de empresas que não investem em sistemas de controlo interno com foco na prevenção da fraude. A percentagem de organizações que não fez qualquer investimento deste tipo no último ano passou a 38%, contra 20% no ano anterior.

"Mesmo ao nível dos inquiridos pertencentes a grandes empresas, potenciais early movers na atenção dada aos processos de prevenção e deteção de fraude, há que destacar que mais de 60% ou investiu menos de 50 mil euros ou não realizou qualquer investimento", assinala a Deloitte em resposta ao Dinheiro Vivo.

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