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“Devíamos ter mais ambição para o crescimento económico”

António Horta Osório, CEO do Lloyds Bank. Conferência AICEP 2019, na Nova SBE, em Carcavelos.
(Carlos Costa/Global Imagens)
António Horta Osório, CEO do Lloyds Bank. Conferência AICEP 2019, na Nova SBE, em Carcavelos. (Carlos Costa/Global Imagens)

Para António Horta Osório, um crescimento de 1% é insuficiente. O banqueiro defende uma maior redução do endividamento mas aponta a demografia como o maior desafio do país no futuro.

Falta ambição a Portugal? No que toca ao crescimento económico, sim, segundo António Horta Osório. O banqueiro português, presidente executivo do britânico Lloyds Bank, considera que um crescimento real da economia de 1% é insuficiente. E comparou o caso português com o da Irlanda, para ilustrar como “é possível fazer melhor”. “Nos últimos anos, Portugal cresceu 1% ao ano em termos reais. É manifestamente pouco, é metade do que em Espanha e um quinto face à Irlanda”, destacou na conferência da AICEP sobre Exportações e Investimento, que decorreu no dia 17 de maio na NOVA SBE, em Carcavelos. “Devíamos ter mais ambição para o crescimento económico”, apontou. Horta Osório – o único português que figura na lista dos 50 maiores líderes mundiais da revista Fortune – lembrou que, “em 20 anos, a Irlanda criou o dobro da riqueza”. “Os salários cresceram o dobro em termos reais face a Portugal”, rematou.

Ainda assim, o banqueiro elogiou Portugal por se ter destacado na recuperação da crise financeira. “Portugal teve o melhor desempenho dos países da periferia desde a crise em 2008”, afirmou. Outro aspeto que mereceu os elogios de Horta Osório foi a descida do desemprego no país. “Estamos abaixo do nível de desemprego da França e abaixo do nível de desemprego de 2007, o que é positivo”.

Sobre a evolução da dívida pública, já não foi tão positivo: “A dívida neste momento é de cerca de 120% (do Produto Interno Bruto) e está a ir na boa direção mas não devemos ser complacentes porque é um nível exageradamente alto”, alertou.

Três problemas no horizonte
Além do elevado nível da dívida pública portuguesa, Horta Osório considera que o endividamento da economia como um todo é muito alto. O nível de endividamento do país é, para o banqueiro, um dos três grandes desafios que o país enfrenta, já que a dívida da economia está “10% mais alta do que era há 10 anos”, na casa dos 293% do Produto Interno Bruto. A dívida pública aumentou enquanto a das famílias e das empresas desceu. O nível de endividamento da economia portuguesa é 20% mais elevado do que o de Itália e de Espanha, alertou.

Outro desafio reside no setor bancário. O líder do Lloyds Bank destacou o progresso significativo dos bancos em termos de capital, bem como a desalavancagem bancária. Mas defendeu que ainda “são necessárias melhorias na qualidade dos ativos”. “Esse valor (de malparado) tem vindo a descer de maneira acelerada e está agora à volta de 10%. Estamos a ir na boa direção”, mas 10% “ainda é alto”, afirmou o banqueiro.

Frisou que os rácios de capital Core Tier 1, em torno dos 13% a 13,5%, que “são positivos, em termos internacionais”. Para tal, “muito contribuiu a descapitalização da Caixa Geral de Depósitos”, que representa 25% do sistema bancário português e recebeu uma injeção de capital de cerca de 5.000 milhões de euros. Mas destacou que o Banco Central Europeu fez uma recomendação genérica de que a cobertura do crédito malparado deveria rondar os 80% e que se os bancos em Portugal o fizessem, os rácios de capital, em média, desceriam para os 9%.

Sobre a Caixa Geral de Depósitos, em particular, Horta Osório disse, à margem da conferência, que “é fundamental que os portugueses saibam o que é que aconteceu em termos de decisões de crédito” no banco público. A CGD está a ser alvo de novo inquérito parlamentar devido a créditos ruinosos, concedidos sem as devidas garantias, nomeadamente ao empresário Joe Berardo. “Estimo, dado o valor que foi injetado na CGD, que cada família portuguesa (…) tenha injetado 2.000 euros na Caixa”, disse.

Mas o maior desafio do país reside na demografia, segundo o banqueiro. Para Horta Osório este é o problema “mais importante, o mais urgente”. “Daqui a 30 anos vamos voltar à população que tínhamos em 1950 se nada for feito. Combinado com isso, o rácio de dependentes passará a mais de um para um”, afirmou. “Acho que não estamos atentos às tendências que a maior parte das organizações credíveis têm vindo a apontar sobre o que se vai passar com a população portuguesa no futuro e com o rácio de dependentes em relação a trabalhadores”, avisou. Lembrou que, segundo as ultimas previsões, em 1950 Portugal tinha 8,5 milhões de pessoas. Atualmente tem cerca de 10 milhões mas nos próximos 30 anos terá nove milhões. “Portanto, Portugal poderia perder 15% da população”, indicou. A concretizar-se esse cenário, levara a “um enorme aumento em termos de custo e esforço para a sociedade portuguesa”, em termos “de sustentar as reformas dessas pessoas” mas também “em termos de cuidados médicos e sociais, despesas médicas sobre o PIB”. “É um problema que tem de ser visto”, disse. Referiu que Portugal é um país com uma área que é dobro da Bélgica e tem a mesma população e tem a mesma área da Holanda, com metade da população. “É possível prever e fazer planos para, num prazo de 20 anos, aumentar de maneira inteligente a população de um país e mantendo a coesão social e a paz e as boas coisas que o país tem”, sublinhou. “Ter mais população, leva a mais crescimento, mais procura de casas mais procura de bens e por outro lado poderíamos atrair de fora as pessoas com as qualificações que o país precisa”, rematou.

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