Diplomas sem uso já são problema, mas pode piorar

Observatório pede resposta rápida a recém-licenciados da pandemia. "Não podem ser só estágios na Administração Pública".

Durante muitos anos, Portugal teve um défice de qualificações. Hoje tem um excedente, o segundo maior de toda a UE, apenas abaixo do da Grécia, nos dados da OCDE. O recém-estabelecido Observatório Jovem do Emprego vira o problema ao contrário: há emprego qualificado a menos e não licenciados a mais. E teme que a crise trazida pela pandemia só venha agravar o problema.

Desde os primeiros casos de Covid-19 em Portugal, saíram das faculdades duas levas de licenciados num país onde 23,6% dos trabalhadores só encontra emprego abaixo das habilitações que tem, e onde houve para as novas gerações, mesmo mais qualificadas, abaixamento das condições salariais e contratuais desde a última crise.

Se dar o passo para o mercado de trabalho já era difícil, agora será mais, alerta Paulo Marques, coordenador do Observatório e autor de dois estudos desta unidade do ISCTE que serão apresentados na segunda-feira. "Os jovens que acabaram os seus cursos no contexto da pandemia têm muita dificuldade em entrar para o mercado de trabalho. Há um problema temporário que torna muito difícil fazer a transição. Tem de haver políticas rapidamente focadas neste grupo, e não podem ser só estágios na Administração Pública", defende.

O especialista em economia política considera fundamental o sector privado ter programas de colocação como os que ocorreram no Estado neste ano. É uma das recomendações de um estudo que percorre a última década, até 2018, para avaliar o tipo de mercado de trabalho que os jovens enfrentam. Mais precário e, sobretudo, onde a mediana salarial segue em longo desvio da mediana de rendimentos geral. "É impressionante. Há um afastar dos jovens em relação aos outros. Quem entra depois (da última crise) entra em circunstância completamente diferente. O desemprego entre os jovens chegou quase a 40%. As pessoas aceitaram condições impensáveis", refere.

O legado da última crise não desanuviou nos indicadores analisados pelo Observatório, mas a persistência deste para lá de 2018, e já depois da última reforma de leis laborais, pôde ser atestada nesta pandemia, que dizimoumilhares de contratos a prazo. Em parte, culpa de desenho das políticas adotadas para a manutenção do emprego, entende. "O lay-off simplificado teve coisas boas, mas também teve um efeito perverso. Não permitia o despedimento de trabalhadores permanentes, mas não metia nenhuma condição relativamente à não renovação dos contratos a termo. As empresas que quiseram aderir ao lay-off - e foram muitas - e que queriam reduzir a força de trabalho fizeram-no não renovando os contratos a termo certo", diz.

Segundo o investigador, uma das chaves para apoiar o mercado de trabalho jovem estará nas políticas de emprego daqui para a frente, que devem premiar as empresas que investem na formação e retêm trabalhadores, mas também privilegiar os sectores que mais modernizem a economia. Serão esses, afinal, os que poderão absorver os muitos diplomas que por ora permanecem sem uso.

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