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Dívida verde atrai capital para setor sustentável

Portugal estabeleceu metas para o reforço das energias renováveis até 2030. Fotografia: Orlando Almeida/ Global Imagens.
Portugal estabeleceu metas para o reforço das energias renováveis até 2030. Fotografia: Orlando Almeida/ Global Imagens.

O mercado de obrigações verdes bate recordes e Portugal está a estudar emissão. No Banco Mundial, a gestora Mafalda Duarte diz que não falta procura.

É um mercado pequeno, com muita procura e crescente oferta. As emissões de dívida verde atingiram no ano passado – o décimo da sua existência – um valor recorde de 160,8 mil milhões de dólares. Há crescente diversificação para financiar a transição para uma economia limpa, em linha com os objetivos da ONU e acordos de Paris, mas o fosso a atravessar na mudança é ainda tão largo quanto um valor de 100 biliões de dólares. Todos os instrumentos ajudam.

Com compromissos internacionais assumidos para limitar o aquecimento global a um máximo de 2º C, cada vez mais governos recorrem ao mercado de dívida verde soberana para financiar políticas de sustentabilidade. Portugal está entre os que estão a estudar a possibilidade, e entre os que mais investiram estão países como França (8,1 mil milhões de euros em duas emissões), Bélgica (4,5 mil milhões de euros) e Polónia (1,75 mil milhões de euros em duas emissões). Do lado da procura, estão sobretudo bancos centrais e fundos de pensões, responsáveis, por exemplo, pela compra de 42% das obrigações verdes belgas postas à venda em fevereiro último.

“Aquilo que ouço é o interesse de ver mais ofertas no mercado e de maior dimensão. E de ver coisas diversificadas, porque a diversificação em mercados de capital é importante”, diz Mafalda Duarte.

A portuguesa é a gestora dos Fundos de Investimento no Clima (FIC), criados em 2008 sob o Banco Mundial para “fazer algo que mais ninguém estava a fazer”.

Os FIC contam já dez anos de mandato para financiar bancos multilaterais no combate às alterações climáticas e, em 2019, deverão passar a incluir um fundo de dívida pública verde.

“Com base no capital que neste momento temos, e no portfólio de empréstimos a projetos que temos, o nosso objetivo é ir para o mercado e mobilizar 500 milhões de dólares de dívida por ano”, diz a gestora ao Dinheiro Vivo.

Mafalda Duarte está a estruturar o fundo, que parte de ativos próprios para atrair mais capital. Bancos multilaterais e instituições financeiras internacionais são a primeira linha do financiamento a projetos como o desenvolvimento de energia renovável em países em desenvolvimento. Assumem custos mais baixos e por vezes assumem as primeiras perdas na formação de novos mercados e tecnologias que, muitas vezes, se tornam lucrativos na maturação.

Mas, cada vez mais, os mercados financeiros começam a conviver melhor com objetivos de desenvolvimento. Além das obrigações verdes, há hoje obrigações ODS (objetivos de desenvolvimento sustentável) emitidas, por exemplo, pelo banco HSBC, e sindicatos de crédito orientados por princípios de responsabilidade ambiental e sustentabilidade, como os dois mil milhões de euros recentemente levantados pela francesa Danone.

“O setor financeiro começa finalmente a despertar para as oportunidades. Globalmente, hoje há mais financiamento para renováveis do que para combustíveis fósseis”, nota Rachel Kyte, representante especial do secretário-geral da ONU, António Guterres, no fórum Sustainable Energy for All, que se realizou esta semana em Lisboa.

“O financiamento é uma grande peça do puzzle, mas não é a única peça que falta. Também são necessários governos que tenham uma visão”, afirma Kyte.

 

Países europeus dominam em emissões até abril

 

A estreia da Bélgica no mercado de dívida verde em fevereiro último constituiu a segunda maior emissão soberana deste tipo, levantando 4,5 mil milhões de euros.

Outro país europeu, França, lidera o ranking, com a venda de 7 mil milhões de euros em obrigações no ano passado – além de outros 1,1 mil milhões de euros já em abril deste ano.

Países emergentes como a China e a Índia animaram os primeiros anos de vida deste mercado, mas a Europa e os EUA estão cada vez mais presentes.

Além de França, também a Polónia fez no início deste ano um regresso ao mercado da dívida para a sustentabilidade, lançando uma tranche de mil milhões de euros. Nos primeiros quatro meses deste ano, foi emitido um volume de 25,4 mil milhões de euros em obrigações verdes (30,4 mil milhões de dólares), a cair 11,5% face ao mesmo período de 2017 – ano recorde de emissões.

Segundo a Moody’s, “um pequeno percalço no caminho de crescimento global do mercado”, prevendo-se o retomar da expansão ao longo do segundo trimestre. A Climate Bonds Initiative estimou para este ano 250 mil milhões de dólares em novas emissões.

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