2 anos de Governo

Dois anos de Governo. Os fatores de risco

António Costa na varanda do Palácio de São Bento durante uma entrevista ao DN.
(Reinaldo Rodrigues/Global Imagens)
António Costa na varanda do Palácio de São Bento durante uma entrevista ao DN. (Reinaldo Rodrigues/Global Imagens)

Governo de António Costa completa dois anos de mandato. Quais os desafios que tem pela frente a nível da economia

Portugal é uma pequena economia aberta que depende em larga escala de capital estrangeiro, do sucesso das exportações, do sustento do Banco Central Europeu, que tem ajudado a manter as taxas de juro em níveis decentes mas que, diz-se, em 2019 ou 2020 podem voltar a subir. Segundo o Banco de Portugal, o nível natural das taxas portuguesas rondará antes os 5%, não os 2% atuais.

Leia ainda: Finanças públicas melhoraram, banca preocupa e dívida é uma carga perigosa

O fim do dinheiro ultrabarato do BCE
É um dos maiores riscos para a economia por causa dos níveis muito elevados de dívida pública e privada. Ao abrigo do programa de compra de ativos (QE, quantitative easing) o Banco Central Europeu (BCE) já injetou nos bancos nacionais mais de 30 mil milhões de euros por conta de títulos de dívida pública (obrigações do Tesouro) por eles detidos. Esse dinheiro a custo zero (que ajuda a conter as taxas de juro domésticas) continuará a ser fornecido, mas não para sempre. Mario Draghi, presidente do BCE, anunciou que até ao final deste ano mantêm-se as compras mensais de 60 mil milhões de euros (na zona euro), mas decidiu cortar a intensidade para metade em janeiro. Em todo o caso, prolongou por mais nove meses o QE. Até setembro de 2018 Portugal terá esse apoio vital.

Dívidas privada e pública muito elevadas
Se não fossem os juros a pagar aos credores (mais de 8,4 mil milhões de euros em 2018), Portugal teria um enorme excedente orçamental. Essa fatura resulta de uma dívida pública que, embora a descer, é das maiores do mundo desenvolvido. Mesmo com os pagamentos antecipados ao FMI, o credor mais careiro. Em 2018, o peso dessa dívida no PIB será 126,2% e é apontado de forma consensual pelos economistas como a grande fragilidade da economia e das contas públicas nos próximos dois anos, caso haja algum novo abanão nos mercados. À mercê dos humores financeiros estão também as empresas e as famílias. O rácio da dívida privada ultrapassa os 170% do PIB quando, pelas contas da Comissão Europeia, a fasquia de segurança ronda os 133%.

Malparado e novas ajudas aos bancos
Mais de 15% dos empréstimos concedidos pelos bancos em Portugal estão em incumprimento ou mal acautelados, valor que preocupa as agências de rating e os maiores credores do país (Europa e FMI). O malparado come margem aos bancos para que estes desempenhem a sua função clássica: transformar poupanças em crédito. As pequenas e médias empresas têm sido as mais penalizadas por esta disrupção, embora a situação tenha vindo a melhorar nos últimos anos com o saneamento e a recapitalização da banca. Mas quem segue a economia não está tranquilo. Se o crescimento não for sustentável, se houver mais surpresas e legados nocivos nos balanços, o malparado torna a emergir. E o Estado (os contribuintes) pode voltar a ser chamado a ajudar.

Falta de potencial e fim dos fundos europeus
Baixa produtividade, burocracia, aposta excessiva em setores e negócios pouco sofisticados, falta de investimento crónica após anos de austeridade e de pouco crédito, salários relativamente baixos e pouco dinâmicos, condicionados pelo peso das atividades de baixo valor acrescentado, tudo isto são fatores que limitam o potencial da economia. Os analistas que seguem Portugal pedem mais reformas estruturais, apoiam a realização de mais investimento público e o uso de fundos europeus para puxar pelo investimento privado (25 mil milhões de euros até 2020). No entanto, depois desta legislatura, Portugal voltará a ser confrontado com o fim dos apoios europeus e é bem possível que os próximos sejam menos generosos. Pode ser a última grande oportunidade.

Problemas nos parceiros externos
As exportações contribuem positivamente para o PIB e ajudam a neutralizar parcialmente o efeito negativo (e a dependência do país) das importações. O crescimento robusto das vendas ao exterior depende da estabilidade das rotas de comércio internacional e dos países relevantes. De igual modo, os custos de financiamento também podem piorar se a incerteza alastrar. No Orçamento, o governo assume que há grandes riscos latentes. É “difícil” prever o impacto das medidas de política económica dos EUA e da política de taxas de juro do país; há a saída do Reino Unido da UE (brexit), agendada para março de 2019; existe o aumento da tensão entre os EUA e a Coreia do Norte, a guerra no Médio Oriente e a imparável crise dos refugiados, que afeta dezenas de países.

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