Estado da Nação

Dois projetos de investimento estrangeiro foram angariados em plena emergência

Luis Castro Henriques Presidente    do    Conselho    de    Administração    da    AICEP    – Agência    para    o    Investimento e Comércio Externo

(Reinaldo Rodrigues/Global Imagens)
Luis Castro Henriques Presidente do Conselho de Administração da AICEP – Agência para o Investimento e Comércio Externo (Reinaldo Rodrigues/Global Imagens)

Presidente da AICEP adianta que avançaram mais de 40 milhões de euros para empresas.

Portugal conseguiu atrair dois projetos de investimento estrangeiro, em pleno apagão económico provocado pela pandemia, revelou o presidente da AICEP. “Desde que o confinamento começou fizemos duas angariações, sendo que a segunda foi já durante o estado de emergência, com a visita final a realizar-se por videoconferência”, especificou Luís Castro Henriques, para vincar que “na AICEP o negócio não para”.

Desde março foram fechados três projetos de investimento estrangeiro, dois suíços e um alemão, na área dos serviços: um centro de serviços partilhados e dois centros de desenvolvimento de software, que deverão gerar cerca de 250 postos de trabalho até 2021. Um será no Porto, outro em Lisboa e, no terceiro caso, ainda está em aberto.

O presidente da Agência para o Investimento e Comércio Externo de Portugal falava nesta quarta-feira no Estado da Nação, o programa da TSF e do Dinheiro Vivo, em parceria com o Santander, em que participaram igualmente António Saraiva, presidente da CIP, João Duque, economista e professor do ISEG, e Rui Constantino, economista-chefe do Santander.

Apesar daqueles sinais positivos, Castro Henriques reconhece que não há lugar para otimismo exagerado, até porque “este é um período particularmente complexo, para o qual nenhum país estava preparado, faltando ainda perceber o impacto no day after”. Antecipando algumas macrotendências, o líder da AICEP refere que, ao nível do investimento, o efeito vai ser bastante assimétrico, com setores a serem bastante afetados (como o turismo), enquanto outros terão necessidade de continuar a expandir.

Como escapar à austeridade?
“Há também algumas empresas globais que vão ter de apostar nalgum fator de proximidade/segurança e temos de ver como Portugal se pode posicionar nesse sentido.” Seja como for, Castro Henriques admite que neste ano não se vão repetir os recordes dos últimos anos na captação de investimento direto estrangeiro e que, também por esta via, a economia sairá prejudicada.

São sinais que, somados às estimativas de quebra abrupta do PIB, levam António Saraiva a assumir-se muito “inquieto e preocupado” com a situação e a subscrever uma carta ao Presidente da República, primeiro-ministro e Parlamento em favor de “uma estratégia de saída do estado de emergência, inteligente, gradual e seletiva”. Referindo-se às estimativas de uma queda de 8% no PIB em 2020 e de 20% no trimestre, em termos homólogos, o presidente da CIP considera que “estes números atiram-nos para uma crise de uma magnitude superior à de 2011”.

Por isso, duvida de declarações recentes de António Costa. “Embora os políticos digam que vamos enfrentar isto sem austeridade, sinceramente não vejo como, porque com uma queda do produto desta dimensão – a cada 30 dias de paragem, o PIB cai seis pontos percentuais – estamos com uma dimensão que nunca enfrentámos.”

Na estratégia para o relançamento da economia, António Saraiva defende também a sua própria reformulação, para acabar com a excessiva dependência das cadeias de distribuição e da deslocalização da produção para outras geografias. “Tem de haver uma reindustrialização do espaço europeu e, no nosso caso, substituir importações por fabrico interno, mas isto exige estratégia para vermos uma luz ao fundo do túnel, que alumie suficientemente.” E prossegue: “A magnitude desta crise a todos nos deve convocar para uma solução que deve ser conjunta. Não podemos dominar a pandemia e depois descobrirmos dolorosamente que morremos por causa da economia.”

Fatura será dura e curta ou prolongada
Também João Duque tem reservas sobre as alternativas à austeridade. “Esta crise vai ter um impacto na dívida, porque a receita cobrada vai ser muito menor e a despesa muito maior do que estávamos à espera. Dito de outra maneira, este défice, para manter o rendimento das pessoas de forma artificial, tem de ser compensado com dívida.” E vai ter de ser reposta. “Se não se paga agora em termos de desespero financeiro das pessoas, porque se arranjam aqui umas medidas mitigadoras, vamos ter de pagar mais tarde. Pagamos com medidas mais duras, de curto prazo, ou medidas menos duras mas durante mais tempo. Vamos ver quais são as opções políticas”, observou.

Apesar de tudo, o economista já vê “uma luz ao fundo do túnel” nos exemplos de outros países que começaram a levantar restrições a algumas atividades. “No quarto trimestre, a quebra já não será tão forte”, antevê, para defender também uma reativação gradual da atividade económica. Se o lado B dessa opção for um aumento dos contágios de covid-19, João Duque considera que “desde que o SNS tenha espaço para conter estes novos casos e seja reforçado, mesmo que o planalto suba, mas abaixo da linha de saturação, de alguma forma acho que vamos ter de ativar a economia”.

AICEP pagou 40 milhões a empresas
Justamente para apoiar a atividade económica, a AICEP já adiantou, desde o início da crise até agora, mais de 40 milhões de euros a empresas e associações, revelou Luís Castro Henriques. Algumas verbas já eram devidas e o pagamento foi acelerado, e outras foram adiantadas ao abrigo das recentes medidas de apoio, disse.

Outra área de ação da agência tem sido o apoio às empresas que estão a reinventar os seus negócios, adaptando-os às oportunidades que têm surgido com a pandemia. “Temos 13 empresas que se reiventaram, percebendo que o seu negócio não se ia aguentar nos mesmos moldes, e estão a trabalhar com o Ministério da Saúde. “Estamos a fazer a ponte entre essas empresas e as entidades que compram e certificam material, como a ASAE e o Infarmed.”

Além de fornecer informação relevante atualizada sobre 37 mercados, impactados pela covid-19, a AICEP está igualmente a usar a sua rede externa para identificar défices de produtos onde Portugal tem excedentes para exportar, como está a acontecer, por exemplo, com o setor agroalimentar, a exportar para a Alemanha. “Começaram por comprar determinado tipo de produtos e hoje já compram outros bens em Portugal”, referiu.

O papel de facilitador foi também desempenhado para desbloquear a paragem de algumas unidades industriais, afetadas pela cerca sanitária em Ovar, e para resolver problemas logísticos. “No caso das grandes multinacionais é importante passar uma mensagem de que, mesmo na adversidade, Portugal continua a conseguir responder”, lembrou. Nesta sexta-feira a AICEP disponibilizou ainda uma ferramenta online para as empresas avaliarem e potenciarem o comércio eletrónico para exportação, e oferece também cursos online em várias matérias.

Impacto será adverso na banca
Do lado da banca, Rui Constantino garantiu que o setor “está a trabalhar para entregar dinheiro às empresas, existem dezenas de milhares de pedidos que estão a ser processados e o apoio chegará em breve”. Quanto ao impacto da pandemia, o economista-chefe do Santander admite que “vai ser muito adverso”, mas devemos analisá-lo para lá de 2020. “Seria importante que em 2021 haja recuperação para que parte da perda seja compensada. Assim evitaríamos o impacto de uma recessão como tivemos durante o período de ajustamento.”

O próprio FMI prevê que para o ano possa haver um crescimento de 5%, o que pode ser otimista ou não, diz. Nesse cenário, “o desemprego atingiria um pico de mais de 13% e depois cairia para 8% e, portanto, o que temos de assegurar é que as projeções do final do período sejam as mais próximas da realidade”. Se isso acontecer, o impacto sobre a banca e a economia será menor. Mas não haja ilusões: “Desemprego, destruição de empresas e perda de atividade vai ter impacto na qualidade da carteira de crédito.”

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