Fórum BCE 2018

Draghi afasta cenário de nova recessão até 2020 pelo menos

Mario Draghi. Fotografia: BCE
Mario Draghi. Fotografia: BCE

No caso de uma nova crise "temos muitos instrumentos para poder agir", logo não é preciso alterar meta de inflação para obter margem de manobra.

“Até 2020, não vemos nada que se assemelhe a uma recessão”, mas caso aconteça uma nova crise “temos muitos instrumentos para poder agir” a um cenário assim, mais adverso, garantiu esta quarta-feira Mario Draghi no debate de encerramento do quinto Fórum do Banco Central Europeu (BCE), que decorre em Sintra.

O presidente do BCE está acompanhado por Jerome Powell, o novo presidente da Reserva Federal dos Estados Unidos, Haruhiko Kuroda, governador do Banco do Japão, e Philip Lowe, governador do Banco de Reserva da Austrália.

“O BCE não está à espera de uma recessão em breve, logo a questão sobre as ferramentas que temos para combater a recessão é atualmente irrelevante”, atirou o presidente da autoridade europeia quando confrontado com o facto de as taxas de juros estarem há tanto tempo em mínimos e encostadas a 0%.

Mesmo sendo uma discussão irrelevante, Draghi relembrou que a meta de inflação próxima mais abaixo de 2% é a correta, respondendo assim a Larry Summers, antigo secretário de Estado do Tesouro de Bill Clinton.

Na segunda-feira, na gala de abertura do Fórum, o convidado especial do BCE disse que a meta oficial dos bancos centrais devia ser uma inflação diferente, superior, combinada com um objetivo de pleno emprego.

Tolerando mais inflação, os bancos centrais poderiam subir mais os juros e ganhariam assim mais folga para, num futuro recessivo, baixarem juros outra vez e de forma mais ampla.

Draghi rejeita esta ideia. Diz que o BCE é credível na sua política e lembrou que a zona euro é composta de “países muito diferentes”. “Há pessoas que querem uma inflação mais baixa que 2% e dizem que este valor é escandalosamente alto. Outros pedem uma meta mais elevada”.

Mas na verdade, acrescentou, é que “não há razão para revermos o nosso objetivo de inflação, não há nada que nos diga que o devamos fazer”. “Temos muitos instrumentos para poder agir” num cenário desses, de recessão. No entanto, “não vemos até 2020 nada que se assemelhe a uma recessão”, clarificou.

Subir juros, mas devagarinho

Na véspera Draghi relembrou aos presentes que o BCE vai terminar o programa de compras de obrigações do tesouro e de dívida privada já no final deste ano e que depois do verão de 2019 deve começar a subir taxas de juros, mas devagarinho, de forma “paciente”, para não minar a retoma.

Assim é porque, também o disse na véspera, “é inegável que a incerteza em torno das perspetivas de crescimento aumentou recentemente”.

“Os riscos negativos vêm de três fontes principais: a ameaça de um aumento do protecionismo global devido à imposição de tarifas sobre o aço e o alumínio por parte dos Estados Unidos; a subida dos preços do petróleo provocada por riscos geopolíticos no Médio Oriente; e a possibilidade de persistência da volatilidade dos mercados financeiros”.

Do lado dos riscos positivos, mas que não chegam para compensar os negativos, estão a expansão orçamental em marcha nos Estados Unidos e a médio prazo “as prováveis expansões orçamentais em vários países da zona euro”.

Isto traduz-se num “abrandamento gradual” do crescimento da zona euro. A expansão económica será de 2,1% este ano, 1,9% no próximo e 1,7% no ano 2020.

Em todo o caso, no longo prazo todos os modelos dizem que a inflação está a caminhar para o objetivo do BCE, embora nestes três anos analisados (2018 a 2020) ela se fique sempre pelos 1,7% ao ano, ligeiramente abaixo da meta oficial.

Vendas online não estão a travar inflação

O debate final em Sintra foi ainda marcado por outros tópicos. Falando sobre a influência do comércio eletrónico nos preços da economia do euro, o líder do BCE disse que há “muito pouca evidência” de que existam “efeitos significativos do e-commerce sobre a inflação”.

Isto para dizer que, apesar de os consumidores comprarem cada vez mais online (onde os preços são substancialmente mais baixos do que nos mercados tradicionais, físicos), essa sub inflação mais baixa não está a contaminar o índice de preços geral, logo não representa um problema para a política do BCE.

Draghi afirmou ainda “que os dados de que dispomos mostram um crescimento de 1,9% nos salários, independentemente do tipo de medida que seja usada”.

 

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