Fórum BCE 2017

Draghi. Reformas da contratação coletiva são melhores a baixar salários

Mario Draghi. Fotografia: Yves Herman/Reuters
Mario Draghi. Fotografia: Yves Herman/Reuters

No Fórum BCE, Draghi prometeu ser "prudente" quando tiver de subir o preço do dinheiro, à medida que a retoma vai ganhando corpo.

As “reformas estruturais” aplicadas à contratação coletiva, que de certo modo esvaziaram a atualização e o alcance de muitos contratos coletivos e impediram a celebração de novos acordos durante o período da crise, como aconteceu no programa de ajustamento português, “podem ter tornado os salários mais flexíveis para baixo, mas não necessariamente para cima”, observou Mario Draghi, na abertura do Fórum BCE, em Sintra.

O presidente do Banco Central Europeu (BCE) considera que esse pode ser um dos fatores que continua a limitar a recuperação da inflação, que continua muito baixa. Desacelerou para 1,4% em maio, em termos homólogos, na zona euro, revelou o Eurostat recentemente.

“Há razões para acreditar que o comportamento de preços e salários na área do euro pode ter mudado durante a crise, diminuindo a capacidade de resposta da inflação. Por exemplo, as reformas estruturais que aumentaram a negociação salarial ao nível da empresa podem ter tornado os salários mais flexíveis para baixo, mas não necessariamente para cima”, declarou Draghi perante uma audiência de 150 economistas e banqueiros centrais.

Prudentes para não fazer descarrilar a retoma

Com a inflação assim fraca e limitada por uma variedade de fatores, o BCE promete ser prudente quando começar a subir o preço do dinheiro à medida que a retoma vai ganhando corpo, isto é, quando começar a subir taxas de juro e/ou reduzir o programa de compra de ativos, o chamado quantitative easing, de modo a não prejudicar a retoma, explicou o banqueiro central de nacionalidade italiana.

Com as taxas de juro de referência atualmente em 0% ou mesmo negativas (caso da taxa de depósitos) e com um programa de QE que compra ativos como dívida pública e privada a um ritmo de 60 mil milhões de euros por mês, o banqueiro central defendeu que “a política monetária é eficaz” e que hoje “todos os sinais apontam para um reforço e um aumento da recuperação da zona euro”.

Graças ao BCE, disse, “as forças deflacionistas foram substituídas por forças reflacionistas”, isto é, forças que puxam a inflação para cima.

Ainda assim, “existem fatores que estão a travar a inflação”, embora sejam “principalmente temporários”. Um deles é a influência que a inflação muito baixa (por vezes negativa) e prolongada do passado pode ter na “indexação” dos salários, limitando o rendimento e o poder de compra das famílias, mas também o investimento e as expectativas das empresas. Se a inflação tiver sido baixa durante muito tempo não há grandes incentivos para que as empresas proponham atualizações salariais significativas, mesmo que a faturação esteja a aumentar, é essa a ideia.

Há mais desemprego do que parece

Outro fator que pode estar a condicionar a subida da inflação é o desemprego em sentido lato, isto é, a medida que inclui as formas de desaproveitamento da capacidade produtiva da população ativa que não são captadas pela definição oficial de desemprego.

Draghi teme que não se esteja a trabalhar com uma “noção correta de desemprego”. “Pode haver uma folga residual no mercado de trabalho que não está a ser totalmente capturada nas principais medidas de desemprego”, disse.

“O desemprego da zona euro aumentou durante a crise, mas também subiu o número de trabalhadores subempregados (que gostariam de trabalhar mais horas) ou os que têm empregos temporários e desejam vínculos mais estáveis. Isto tem implicações na dinâmica da inflação, uma vez que estas pessoas podem dar prioridade a ter mais horas de trabalho ou mais segurança no emprego em detrimento de salários mais elevados quando encetam negociações laborais”, discorreu Mario Draghi.

Se calhar, o desemprego é o dobro do que se diz

Portanto, medidas mais latas do mercado de trabalho, que incluam desempregados, subempregados e aqueles que estão nas margens do mercado de trabalho, dariam uma taxa de desemprego em sentido lato de 18% da população ativa, o dobro do desemprego oficial (9,3% em abril). Este problema também acontece em Portugal. Embora o desemprego oficial esteja nos 9,8%, se juntarmos as zonas de sombra do mercado de trabalho, a taxa supera facilmente os 20%.

Draghi considera ainda que modelos de cálculo da inflação futura que se baseiem nestas medidas mais alargadas de desemprego acabam por ser mais bem-sucedidas.

Assim, com tantas incertezas quanto à profundidade da retoma que está em cursos, o presidente do BCE promete se cuidadoso a subir taxas de juros e a descontinuar o QE.

“Ainda é necessário um grau considerável de acomodação monetária para que a dinâmica da inflação se torne duradoura e autossustentada. Portanto, para que possamos ter certeza sobre o retorno da inflação ao nosso objetivo, precisamos de persistência na nossa política monetária.”

E, claro, “precisamos de prudência”. Isto é, “à medida que a economia crescer, precisamos de ser graduais ao ajustar os nossos parâmetros de política de modo a garantir que os nossos estímulos acompanham a recuperação por entre as incertezas persistentes”, rematou o líder do BCE.

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