Fórum BCE 2018

Draghi. Salários já não são grande ameaça à inflação

Mario Draghi. Fotografia: BCE
Mario Draghi. Fotografia: BCE

BCE diz que vai acabar com dinheiro ultra barato no ano que vem. Juros começam a subir no verão de 2019, mas de forma "paciente".

Mario Draghi, o presidente do Banco Central Europeu, mostrou esta terça-feira, no quinto Fórum BCE, em Sintra, que está cada vez mais satisfeito com os efeitos da sua política monetária na inflação, pelo que é cada vez mais certo que as taxas de juro vão mesmo começar a subir a partir do verão do ano que vem e o programa de compra de obrigações do tesouro e dívida privada terminará já no final deste ano.

Os salários devem ajudar pois parecem que já não estão, nem vão puxar muito pela inflação, apesar de continuarem a subir, observou. Mas também disse que quando o BCE começar a subir juros daqui a um ano e tal (mais ou menos), fá-lo-á de forma “paciente”, sem se apressar, cautelosamente.

Na abertura do segundo dia de trabalhos do encontro de Sintra, que congrega dezenas de economistas e decisores de política económica e monetária, Draghi declarou que “crescimentos salariais mais elevados não se traduzem mecanicamente em inflação mais alta”.

“Mesmo que os salários continuem a subir, como esperamos, não podemos excluir que fatores estruturais que estão fora do controlo do banco central possam impedir a transmissão dos salários aos preços do consumidor.”

Por exemplo, o banqueiro central de nacionalidade italiana argumenta que “uma concorrência mais intensa por via da globalização ou do comércio eletrónico pode levar a comprimir as margens [das empresas]”.

Assim, “atualmente, não vemos muita evidência de que tais fatores tenham afetado a inflação na zona euro”.

Mais: Draghi lembrou que, atualmente, os principais especialistas que trabalham com e para o BCE afiançam que a inflação está a caminho dos desejados 1,9% e que a tendência de longo prazo é que fique estável neste valor, que é a meta oficial do BCE.

Estamos quase lá mas temos de ser “pacientes”

“O progresso em direção a um ajustamento sustentado da inflação tem sido substancial até agora”, mas conseguir que os preços evoluam sempre em torno daqueles 1,9% “exige uma política monetária da zona euro euro paciente, persistente e prudente”, referiu Draghi.

Assim, “o essencial é que as expectativas de inflação permaneçam bem ancoradas” e nesse sentido o BCE já está a ver “alguns sinais positivos”. “Por exemplo, o último inquérito aos analistas profissionais do BCE mostra que as expectativas de inflação de mais longo prazo estão estáveis, em 1,9%.”

Em todo o caso, “vamos continuar a ser pacientes na determinação do momento da primeira subida da taxa de juro e tomaremos uma abordagem gradual para ajustar a nossa política daí em diante”.

Esta visão de que a inflação próxima mas abaixo de 2% está ao alcance contraria a de Larry Summers, o antigo secretário do Tesouro dos EUA (Clinton), que na véspera disse claramente que as metas hoje usadas pelos bancos centrais para a inflação (perto de 2%), BCE incluído, não estão bem. Sugeriu que deviam “ser diferentes”.

Deviam ser superiores para que os bancos centrais possam ter margem de manobra no futuro para descer juros outra vez no combate a novas crises já que hoje as taxas de juro reais são negativas e as nominais estão encostadas ou demasiado próximas de 0%, é essa a ideia do economista norte-americano.

Mais incerteza, repetiu Draghi

“De forma geral, há evidências crescentes de que o crescimento económico mais amplo [generalizado e transversal a países e sectores] está a começar a gerar uma dinâmica de preços positiva” ainda que “a incerteza decorrente dos desenvolvimentos económicos continue ao longo dos vários estágios desse processo”, aceitou Mario Draghi.

Uma das maiores incertezas prende-se com os Estados Unidos e com as medidas protecionistas da administração de Donald Trump. Para o líder do BCE “é inegável que a incerteza em torno das perspetivas de crescimento aumentou recentemente”.

“Os riscos negativos vêm de três fontes principais: a ameaça de um aumento do protecionismo global devido à imposição de tarifas sobre o aço e o alumínio por parte dos Estados Unidos; a subida dos preços do petróleo provocada por riscos geopolíticos no Médio Oriente; e a possibilidade de persistência da volatilidade dos mercados financeiros”.

“Contra isso existem alguns riscos ascendentes [para o crescimento económico], decorrentes principalmente da expansão orçamental nos Estados Unidos e, a médio prazo, das prováveis expansões orçamentais em vários países da zona euro”, contrapôs o chefe do BCE.

Salários a subir no privado e no público, diz Draghi

Os salários por trabalhador começaram a subir em meados de 2016 e agora estão a crescer 1,9%, observou Draghi. “Até agora, o aumento foi explicado principalmente pela componente de drift salarial”, ou seja, os salários vão melhorando “mais rapidamente”, acompanhando “as melhorias cíclicas no mercado de trabalho”. Além disso, “o crescimento anual dos salários negociados [em contratação coletiva] também começou a subir”.

O líder do BCE dá exemplos do que está acontecer. “Olhando para o futuro, os recentes acordos salariais, nomeadamente na Alemanha, mas também noutros grandes países, como França e Espanha, apontam para uma continuação da dinâmica nestes salários” e “há sinais de que a contenção dos crescimentos salariais do sector público”, que no passado puxou para baixo o crescimento salarial geral, “está a começar a ser mais relaxada”, deixando os salários públicos subir.

Em Portugal, esse é o caso do descongelamento de carreiras de alguns grupos profissionais do sector público, ainda que com fortes limitações, o que tem provocado fortes embates entre professores, médicos e governo, por exemplo.

Draghi disse ainda que além dos salários há outras “pressões internas dos custo ao longo da cadeia de preços” que estão a aumentar. “A inflação no produtor no caso dos bens de consumo não alimentares está a crescer à taxa mais elevada desde fevereiro de 2013” e “a inflação no sector dos serviços – onde os salários representam cerca de 40% dos custos – também aumentou”.

Esta quinta edição do Fórum BCE começou na segunda-feira ao início da noite e termina quarta.

(atualizado às 10h50 com mais informações e enquadramento)

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