Política Monetária

Draghi trilha caminho para Lagarde

European Central Bank (ECB) Vice-President Luis de Guindos and European Central Bank (ECB) President Mario Draghi attend a news conference on the outcome of the meeting of the Governing Council, in Frankfurt, Germany, September 12, 2019. REUTERS/Ralph Orlowski
European Central Bank (ECB) Vice-President Luis de Guindos and European Central Bank (ECB) President Mario Draghi attend a news conference on the outcome of the meeting of the Governing Council, in Frankfurt, Germany, September 12, 2019. REUTERS/Ralph Orlowski

Mário Draghi deitou mão a quase todas as ferramentas disponíveis e diz que agora é tempo de os governos agirem. E ainda respondeu a Donald Trump.

É o fim de uma era e promete ser uma despedida em grande. O presidente do Banco Central Europeu não desiludiu na penúltima reunião à frente da instituição que gere a política monetária, pretendendo deixar um legado bem marcado à sucessora, a francesa Christine Lagarde.

No final da reunião do Conselho de Governadores – onde tem assento o português Carlos Costa – Mario Draghi deixou bem traçado o caminho do que deve ser a política monetária para os próximos tempos. O italiano sacou da bazuca e foi ao encontro das expectativas dos mercados. Baixou a taxa de depósito, reavivou o programa de compra de ativos (quantitative easing) e ofereceu uma renovada ajuda aos bancos para que consigam resistir às baixas taxas.

Por partes. A taxa de depósito é a remuneração oferecida pelo BCE aos bancos comerciais da zona euro por parquearem as suas reservas nos cofres do banco central. Mas neste momento a taxa de juro é negativa, ou seja, os bancos têm de pagar para depositar em Frankfurt. O objetivo de baixar a taxa de depósito para terreno ainda mais negativo (de -0,4% para -0,5%) procura incentivar os bancos a acumularem menos reservas e a emprestarem mais dinheiro à economia (famílias e empresas).

Mas este movimento pode prejudicar alguns bancos mais frágeis e para isso, foi lançada uma nova medida designada de tiering, ou escalonamento de taxas, que isenta a parte que excede o excesso de reservas.

Outro importante instrumento a que Draghi deitou mão foi à compra de ativos. Esta solução, já antes utilizada e que permitiu reduzir o risco das dívidas soberanas (e as taxas de juro da dívida pública portuguesa), vai ser reativada a 1 de novembro, precisamente o dia em que Christine Lagarde inicia funções. O ritmo de compras é de 20 mil milhões por mês e desta vez não há prazo para terminar.

E estes são apenas três das cinco medidas anunciadas ontem pelo Banco Central Europeu.

To the infinite and beyond” (“para o infinito e mais além”), apontavam alguns analistas numa referência ao filme de animação Toy Story, no sentido de não haver calendário para o fim destas medidas.

O certo é que “os mercados já tinham feito um grande desconto dessas medidas”, sublinha Filipe Garcia da Informação de Mercados Financeiros (IMF), lembrando “as taxas a 10 anos muito próximas de 0%”, incluindo as portuguesas.

O tempo dos governos

Mas para além das medidas de política monetária anunciadas por Draghi, outros sinais foram dados durante a conferência de imprensa em Frankfurt. E os destinatários estavam bem identificados, mesmo que nunca nomeados pelo italiano. “É tempo de a política orçamental tomar o seu lugar”, afirmou Mario Draghi, acrescentando que “tendo em conta o enfraquecimento das perspetivas económicas e da contínua prevalência dos riscos negativos, os governos com espaço orçamental devem agir de maneira eficaz e oportuna.” A Alemanha era a destinatária do recado e, eventualmente, a Holanda, dado que ambas têm ostentado sucessivos excedentes do saldo orçamental e do saldo externo.

Já para os países com dívidas públicas elevadas, como é o caso de Portugal, o líder do BCE pediu prudência. “Nos países onde a dívida pública é alta, os governos devem adotar políticas prudentes que criem condições para que os estabilizadores automáticos operem livremente”, ou seja, em caso de crise económica, devem ter capacidade de resposta.

“É um convite para que a política orçamental seja expansionista para os países que podem e não contracionista para os restantes”, resume Filipe Garcia da Informação de Mercados Financeiros (IMF), acrescentando que “ele [Draghi] não podia dizer que países como Portugal, Itália, Grécia ou mesmo Espanha se podiam endividar.”

Em causa estão as projeções do staff do BCE que está mais pessimista do que em junho, revendo em baixa a taxa de crescimento económico para este ano e os próximos dois, bem como a taxa de inflação.

E Trump entrou na conferência de imprensa

A conferência de imprensa já levava quase 40 minutos de duração quando Mario Draghi foi questionado acerca de um tweet do presidente norte-americano.

Poucos minutos depois de anunciadas as medidas do BCE, Donald Trump escreveu que “o Banco Central Europeu está a agir rapidamente, cortou as taxas em 10 pontos base. Eles estão a tentar, e com sucesso, depreciar o Euro contra um dólar forte, prejudicando as exportações norte-americanas. E a Fed nada faz.”


A resposta de Draghi foi curta reafirmando o mandato do BCE. “Procuramos a estabilidade de preços e não temos como alvo as taxas de câmbio. Ponto.”

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