Durão Barroso: "A UE não é perfeita mas precisamos cada vez mais dela"

José Manuel Durão Barroso e Jose Luis Zapatero falaram da Europa, da China e das lições que o passado recente ensinou aos líderes atuais.

Vieram ao Estoril falar das "Lições do Passado". As que aprenderam no auge da crise e transmitem agora a quem agarrou o testemunho. Nas últimas horas das Conferências, José Manuel Durão Barroso e Jose Luis Zapatero quiseram deixar uma mensagem de otimismo no projeto europeu, apesar de lhe reconhecerem os defeitos e as fraquezas.

"Não têm razão os pessimistas nem os cínicos", começou por criticar Durão Barroso. Segundo o ex-presidente da Comissão Europeia, "as pessoas gostam de mostrar que são mais inteligente prevendo o pior", admitindo que "às vezes têm razão porque crises são cíclicas".

Depois, recordou os dias da crise que sufocaram economias como Portugal e Grécia, para defender a "resiliência" da União Europeia. "Quando vivemos a crise das dívidas soberanas, o consenso era de que a Grécia ia sair do euro e que o euro ia acabar. Mas a resiliência do euro e da UE são maiores do que lhes é reconhecido".

Reconhecendo que desde que abandonou a política "a sinceridade tem aumentado de dia para dia", Barroso destacou que "a UE não é perfeita e a Comissão também não, mas precisamos cada vez mais delas num mundo tão complexo e imprevisível, onde a China está cada vez mais afirmativa, a Rússia defensiva e os Estados Unidos imprevisíveis".

A ascensão da China seria, aliás, um tema que não mais voltaria a abandonar as intervenções, tanto de Barroso como de Zapatero. "O maior país da UE tem 80 milhões de pessoas. Está na segunda liga comparando com a China ou os EUA. E um país de 80 milhões de pessoas não pode competir com um mercado que tem 1,4 mil milhões de pessoas. Precisamos do efeito de escala europeu", afirmou Durão Barroso.

Entre os apelos ao reforço dos valores da UE, os dois líderes aproveitaram ainda para comentar os resultados das eleições do último domingo. Durão Barroso manifestou-se "satisfeito", porque o desfecho "provou que os comentadores não tinham razão".

"Não podemos subestimar o crescimento dos populismos mas temos de os tratar de acordo com a sua verdadeira dimensão. Esses partidos subiram mas não puseram em causa a maioria pró-europeia, que é sólida. Mas é necessário trabalhar essa maioria. Quando estava na Comissão nunca fiz distinção entre os socialistas, democratas cristãos ou liberais. O que interessa é que eram pró-europeus. ".

Ainda no campo das lições para o futuro, Barroso deixou aos atuais líderes da UE vários conselhos. Primeiro, apontou, é preciso "concluir arquitetura do euro, porque uma crise financeira vai chegar, não se sabe quando, mas vai".

Depois, é necessária uma política de segurança comum, elencou, "por causa das fronteiras".O chairman da Goldman Sachs International referiu ainda a urgência de um "investimento mais decidido nas tecnologias, onde a Europa está atrás dos EUA e da China".

Por fim afirmou que "é necessária liderança politica. Os líderes nacionais têm de evitar a europeização do fracasso e a nacionalização do sucesso e o hábito de dizer, quando as coisas correm mal, que a culpa é de Bruxelas, e quando correm bem que o sucesso é deles".

Como lição definitiva a tirar da crise que enfrentou enquanto presidente da Comissão Europeia, Barroso foi categórico: "que possamos agir proativamente, antecipar crises, e não reativamente. Que os líderes, em vez de lançarem as culpas a outros, façam o trabalho de casa".

As "lições da crise" retiradas por Jose Luis Zapatero não foram muito distintas. Ainda na senda das eleições de 26 de maio, o antigo líder do Governo espanhol congratulou-se pelo resultado pouco expressivo dos partidos antieuropeístas, que para Zapatero "são uma alternativa zero à UE".

"Os europeus podem queixar-se de que em Bruxelas corre tudo mal, mas não e assim tão mau. E Bruxelas não é culpada de tudo o que lhe apontam. O que temos de bom nos nossos países resultou da UE, começando pela paz e o desenvolvimento económico. Bruxelas é a única esperança, todos somos Bruxelas. Bruxelas não fracassou, a democracia representativa e imbatível", destacou Zapatero.

Ainda assim, ressalvou, há muito caminho para melhorar. "Se a Europa não construir um projeto de mais união, integração, nos aspetos monetários, tecnológicos, sociais e na política externa, vai tornar-se literalmente num velho continente que vai ficar para trás. Para as gerações que estão a nascer agora, a Europa será como a Ásia, que era o continente que costumava ficar para trás", alertou.

Como desafios, o antigo líder de Espanha considerou que é necessário completar os pilares essenciais da moeda única, reforçar os poderes do BCE e criar um governo económico que acompanhe a moeda única.

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