Economia da partilha

E depois da Uber? Revolução da economia de partilha ainda agora começou

Fotografia: Paulo Jorge Magalhães / Global Imagens
Fotografia: Paulo Jorge Magalhães / Global Imagens

Apps para chamar táxis, sites onde aluga quartos numa casa do outro lado do mundo. A nova forma de oferecer e consumir serviços está entre nós

Imagine este cenário: chamou um carro com a aplicação da Uber para ir buscar um móvel ao Ikea. Regressou a casa e usou outra app, por exemplo a portuguesa Zaask, para contratar alguém que venha montar o móvel. É para pôr na sala, depois de o último inquilino Airbnb lhe ter arruinado as estantes com um banho de champanhe. Enquanto o profissional não chega, consulta a sua campanha na Seedrs, onde está a receber investimento para financiar a sua nova startup.

Isto já é possível hoje, mas aquilo que vimos até agora não foi nada comparado com a revolução que a economia de partilha vai trazer. As duas empresas que levaram à explosão do conceito – apesar de este ter surgido antes delas – foram a Uber e a Airbnb; uma virou do avesso a indústria dos táxis e transportes, a outra está a dar dores de cabeça ao segmento da hotelaria tradicional.

O que é teu é nosso, mas tem preço

Ambas usam os mesmos métodos: ligam pessoas que podem fornecer um serviço com os seus próprios meios (carro ou alojamento) a pessoas que querem usá-lo sem intermediários, normalmente com um preço mais baixo e maior conveniência. Está tudo à distância de uns cliques numa aplicação. E apesar dos problemas legais que ambas as empresas têm gerado, por não haver enquadramento para elas, a revolução que trouxeram está só a começar.

Airbnb é um dos maiores exemplos de economia da partilha. Fotografia: REUTERS/Dado Ruvic/Illustration

Airbnb é um dos maiores exemplos de economia da partilha. Fotografia: REUTERS/Dado Ruvic/Illustration

É o que avisam vários analistas e consultoras que se têm debruçado sobre o mercado. A PricewaterhouseCoopers publicou há algumas semanas um estudo no qual prevê que os cinco segmentos de economia partilhada mais proeminentes na Europa – área financeira, transportes, alojamento, serviços domésticos e serviços profissionais – vão tornar-se vinte vezes maiores do que são hoje.

Isto significa que estas cinco áreas vão passar de 28 para 570 mil milhões de euros. Em menos de uma década, vários segmentos da economia de partilha vão ser tão grandes ou maiores do que os sectores que vieram revolucionar. O que irá acontecer às empresas tradicionais?

Leia mais: Uber junta-se a rival chinesa

Foi a questão pertinente que a analista Solange Le Jeune, da casa de investimento Schroders, levantou na semana passada, numa nota aos investidores. A especialista considerou que os investidores devem estar preocupados com o fenómeno da economia de partilha, porque esta irá alastrar a outras áreas e afetar empresas cotadas – com óbvias consequências nos mercados financeiros. “O impacto disruptivo destas duas empresas [Uber e Airbnb] é um claro sinal dos dias de hoje e há startups com perfil semelhante em quase todos os sectores”, referiu.

Não é que isto funcione sempre. Brian Mac Mahon, que lidera um acelerador de startups em Santa Mónica e criou uma plataforma de partilha de especialistas, diz que o sucesso da Uber está a originar o surgimento de empresas que não irão a lado nenhum. “Eles olham para Silicon Valley e também querem ser milionários, então criam estas empresas que são o ‘Uber das viagens’, o ‘Uber das plantas’, o Uber para coisas estúpidas de que ninguém precisa”, comenta ao Dinheiro Vivo.

Há dinheiro para este tipo de empresas, mas nalguns nichos já se provou que não vale a pena imitar a Uber. Por exemplo, nas entregas rápidas: várias startups que surgiram nos últimos tempos com esse conceito acabaram por mudar o modelo de negócio.

Foi o caso da BloomThat, que entregava flores no prazo de uma hora, e da Zirx, que oferecia um serviço de estacionamento on demand. Outras faliram, como a SpoonRocket, que entregava refeições a pedido, a Homejoy, que enviava empregadas domésticas, a Shuddle, que era uma espécie de Uber para crianças, e até a Sidecar, que vendeu o que restava do negócio à General Motors.No entanto, aquelas cinco áreas que a PricewaterhouseCoopers destacou no seu relatório vieram certamente para ficar.

Os segmentos em ebulição
Até ao final da década virão grandes mudanças, a um ritmo alucinante. Não só pela inovação noutras áreas, mas também porque a economia de partilha vai alargar-se para os países emergentes. A Juniper Research, que publicou o relatório “Economia de partilha: oportunidades, impactos e disruptores 2016-2020”, prevê que vários mercados sejam afetados em pouco tempo.

A consultora destaca plataformas de serviços pessoais, como o TaskRabbit, nos Estados Unidos, e o Anytimes, no Japão, que poupam tempo e dinheiro aos utilizadores. Em Portugal, a Zaask cresceu 200% no último ano e já tem 50 mil pessoas registadas como profissionais na plataforma – que fornecem desde serviços para a casa a colaboração em eventos.

Mas o destaque da Juniper vai para a entrega e a manufatura: é aqui que acredita estarem os próximos segmentos a ser revolucionados. Por exemplo, a General Motors já está a operar uma plataforma chamada FirstBuild, que usa o conceito de “inovação colaborativa”.

A TechShop é um outro projeto que dá acesso a workshops tecnológicos avançados e reduz os tempos de produção de protótipos. A Uber, é claro, lidera na distribuição com o UberRUSH e UberEATS.

“Em termos de oportunidades futuras, tanto as entregas locais como a manufatura partilhada são áreas fundamentais em que a economia de partilha pode florescer”, diz ao Dinheiro Vivo Lauren Foye, autora do estudo da Juniper. A manufatura partilhada, diz, é um segmento disruptivo que “tem o potencial para reduzir tanto os custos como os prazos para players emergentes na cena das startups.”

As vantagens
A PwC prevê que os valores globais atinjam os 335 mil milhões de euros na próxima década, um crescimento exponencial. Uma das vantagens é que serviços que antes só existiam nas áreas urbanas poderão passar a estar ao alcance de um clique em zonas periféricas. Os drones inteligentes, por exemplo, poderão fazer entregas em áreas remotas.

Na área financeira, plataformas de crowdfunding, empréstimos peer-to-peer e outros formatos inovadores têm preenchido lacunas onde os bancos não chegam. Para os governos, pode ainda haver um potencial de recolha de mais impostos, embora de forma mais fragmentada. E as barreiras de entrada a novos trabalhadores são muito mais baixas, o que poderá funcionar como uma alternativa em situações de desemprego ou dificuldades económicas.

E os problemas
Mas isto acarreta problemas. Não são apenas questões legais que, inclusive, a Comissão Europeia quer ver resolvidas com legislação atualizada que não impeça a atuação de empresas como a Uber, mas garanta um enquadramento e o pagamento dos devidos impostos.

Há também a transformação geral do emprego. À medida que cresce a economia de partilha, aumenta o número de participantes, mas não o emprego no formato tradicional. Por exemplo: os condutores que garantem o sucesso da Uber não são considerados empregados e não usufruem de qualquer proteção laboral, regalias ou direitos.

“A Uber criou um modelo em que usa trabalhadores freelancer, e isto é comum em todo o espaço da economia de partilha”, diz ao Dinheiro Vivo Lauren Foye, da Juniper Research. O mesmo acontece com a Zaask, a TaskRabit e até a Amazon, que usa trabalho freelancer na área logística.

“A Uber tem sido agressiva na sua expansão e no esforço para aumentar as receitas; recentemente, os seus condutores começaram a queixar-se de ganhos mais baixos e dificuldades em terem lucro”, adianta Foye. “Embora a Uber tenha sido bem-sucedida, há um número de empresas que não conseguiram usar este modelo.” E, acrescenta, “a própria Uber está a gastar muito dinheiro para se estabelecer e crescer a quota de mercado”. Serão as dores do crescimento ou o preço a pagar pela transformação?

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