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E se o “futuro melhor” for só amor e uma cabana? Sem piscina ou garagem

O professor Filipe Duarte dos Santos, da Faculdade de Ciências. Foto: Gerardo Santo/GlobalImagens
O professor Filipe Duarte dos Santos, da Faculdade de Ciências. Foto: Gerardo Santo/GlobalImagens

O professor Filipe Duarte dos Santos, da Faculdade de Ciências de Lisboa, defende um modelo económico sustentável que não seja baseado no consumismo.

Imagine que a casa dos seus sonhos não tinha de ter uma piscina ou uma garagem cheia de carros topo de gama. Imagine que lhe bastava “o amor e uma cabana” e que a sua filosofia de vida não passava por ter mais dinheiro para poder comprar cada vez mais produtos ou experiências. Ou seja, que o seu “conceito de prosperidade” não estava “baseado no consumismo e no consumo de bens e serviços e de tecnologias evoluídas”.

Esta será a ideia principal que Filipe Duarte dos Santos, professor da Faculdade de Ciências de Lisboa e coordenador do doutoramento em Alterações Climáticas e Políticas de Desenvolvimento Sustentável, levará para o próximo Ciclo de Debates de Consumo da Deco que decorre a 21 de abril na Fundação Arpad Szenes-Vieira da Silva. O tema é “Sustentabilidade, o dilema dos consumidores” e conta ainda com Sofia Santos, secretária-geral do BCSD Portugal, e Francisco Ferreira, do Centro de Investigação para o Ambiente e Sustentabilidade da Universidade Nova de Lisboa.

Leia mais: Os consumidores éticos não nos inspiram. Incomodam-nos.

“A lógica passa por não estarmos sempre a imaginar que o futuro é aquele que nos permite ter mais bens de consumo. É percebermos que o mundo todo não pode ter uma casa, dois ou três carros e mais um ou dois barcos”, disse em entrevista ao Dinheiro Vivo.

E porque não? Porque não é sustentável, nem de forma ambiental nem de forma económica. Porque se hoje não há dinheiro que chegue no mundo para que todos possam ter a casa de sonho ou o carro topo de gama, daqui a 30 anos haverá muito menos. “Não é previsível nem possível que os nove mil milhões de pessoas que vão constituir a humanidade em 2050 tenham algo parecido com isso”, comentou.

Para Filipe Duarte dos Santos, o atual modelo económico – que é baseado no crescimento do produto interno bruto (PIB), no consumo e na criação de riqueza – não vai funcionar muito mais tempo. “A população mundial continua a crescer e há cada vez mais pessoas com expectativas muito grandes, porque este sistema gerou, sobretudo, expectativas nas pessoas”, adiantou. Como a expectativa de que o futuro é sempre melhor do que o passado ou a expectativa de ter sempre mais.

Um desejo de consumo que, na opinião do professor, foi criado pelas desigualdades do atual sistema financeiro. “Só 20% da população mundial tem um nível de vida médio comparável ao de Portugal. 80% vivem em condições muito piores e, dentro dos 20%, há 1% que é cada vez mais rico e move quantidades de dinheiro que não estão sequer na economia real, está numa atividade que é de natureza especulativa, é um jogo.”

Novas formas de prosperidade

Filipe Duarte dos Santos conta que começa a existir a consciência “de que este modelo não tem uma vigência ilimitada” e que tem havido tentativas de encontrar um indicador melhor do que o PIB para representar o crescimento de uma nação, mas que todas elas “têm esbarrado e não têm sido adotadas”.

Contudo, “é preciso encontrar novas formas de prosperidade”, considerou. Neste momento, “a Europa não consegue crescer nem a 2% nem a 3% e há países a crescer muito menos do que isso. Nos EUA, o crescimento é um pouco maior, mas a economia não está pujante como em anos anteriores. Até os economistas mais otimistas começam a reconhecer que tem de se procurar novos modelos”.

Esgotar os recursos

Se o atual modelo de crescimento económico não é sustentável em termos financeiros também não o é em termos ambientais. “Enquanto nos tais 20% da população o ambiente é relativamente respeitado, nos 80% as pessoas têm consciência dos problemas, mas o ambiente não é prioridade. A prioridade é o tal paradigma do consumismo e de uma vida melhor.” Além disso, como têm menos dinheiro não procuram produtos mais ecológicos, normalmente mais caros.

E depois, são ainda os produtos mais poluentes que contribuem mais para o PIB. Por exemplo, apesar do crescimento das energias renováveis, a dependência do petróleo e do carvão continua a ser de 80%. Para um governo, disse Filipe Duarte dos Santos, “a energia produzida através de combustíveis fósseis cria mais empregos do que as renováveis. Ou seja, o carvão é muito melhor para o crescimento do PIB. Mas será que é esse tipo de crescimento que queremos?”.

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